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Jamil Chade


Recuperação do Brasil será "lenta" e abaixo da média mundial, diz ONU

O ministro da Economia, Paulo Guedes, fala durante seminário sobre a MP da Liberdade Econômica - Pedro Ladeira - 12.ago.19/Folhapress
O ministro da Economia, Paulo Guedes, fala durante seminário sobre a MP da Liberdade Econômica Imagem: Pedro Ladeira - 12.ago.19/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/01/2020 14h00

A economia brasileira dá sinais de recuperação em 2020 e 2021. Mas a expansão ficará abaixo do esperado, será "lenta" e inferior ao desempenho média mundial.

Dados divulgados nesta quinta-feira pela ONU em seu relatório anual sobre a economia mundial revelam ainda que a entidade teme um aumento das tensões sociais na América Latina, diante dos sinais de dificuldade em relançar de forma expressiva as economias da região.

De acordo com a ONU, a perspectiva é de que a economia brasileira tenha um crescimento de 1,7% neste ano. A taxa é 0,8 pontos percentuais inferior ao que a própria entidade estimava para o Brasil, no ano passado. A estimativa é também inferior aos números apresentados pelo Ministério da Economia. Nesta semana, a pasta estimou que a expansão em 2020 será de 2,4%.

Pelos números das Nações Unidas, não existem dúvidas de que a expansão brasileira reflete uma melhoria em comparação às taxas registradas entre 2014 e 2019. No ano passado, o crescimento foi de apenas 1%. Ainda assim, a recuperação no Brasil para 2020 é considerada como "lenta". Para a economia mundial, a ONU estima que a expansão será de 2,5% neste ano.

Para o ano de 2021, mais uma expansão será registrada no Brasil, com alta de 2,3%. Mas, uma vez mais, ficará abaixo da média mundial de 2,7%.

Os dados estão sendo divulgados às vésperas do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Na estação alpina, o ministro da Economia, Paulo Guedes irá levar um discurso de "dever cumprido" em seu primeiro ano de governo. Queda de juros e reformas serão apresentadas como as conquistas de sua gestão.

Entre os emergentes, porém, os dados da ONU mostram que o Brasil também continua abaixo da média de crescimento. A taxa de expansão prevista para 2020 entre as economias em desenvolvimento é de 4%, mais de duas vezes superior ao ritmo brasileiro.

Entre os Brics, apenas a África do Sul terá um crescimento abaixo das taxas brasileiras em 2020.

O PIB per capita no Brasil também registrará uma aceleração neste ano. Depois de crescimento de apenas 0,2% em 2019, o crescimento será de 0,9% e 1,6% em 2021. Mas sempre abaixo da média mundial.

"O Brasil irá se recuperar lentamente", declarou o informe da ONU. Ainda assim, se confirmada a taxa de 2020 e 2021, esses serão os dois melhores anos da economia nacional desde 2013, quando o PIB teve uma expansão de 3%.

A inflação, segundo a projeção, deve ficar entre 3,8% e 4% em 2020 e 2021. Pesou ainda de forma positiva a "recuperação moderada em formação de capital fixo diante de taxas de juros baixas".

A ONU estima que o clima para empresários e consumidores deve melhorar no Brasil, inclusive apoiando uma recuperação regional. De acordo com o informe anual, a entidade aponta que se espera no Brasil "que a recente aprovação de uma ampla reforma previdenciária ajude a restaurar a confiança econômica".

"Embora sejam necessárias medidas políticas adicionais para desbloquear o investimento, a redução das taxas de juro e a melhoria do sentimento deverão elevar a demanda doméstica", destaca.

Mas os riscos estão presentes para a região. "Na frente externa, a região é vulnerável a uma maior desaceleração do comércio global e a preços mais baixos das matérias-primas", disse. "Além disso, mudanças abruptas no sentimento dos investidores podem desencadear uma renovada volatilidade financeira e grandes saídas de capital", alertou.

"Na frente interna, a incerteza política, a agitação política e a agitação social ameaçam pesar no crescimento de várias economias. Em muitos casos, estes desafios são agravados pela falta de espaço de política fiscal, uma vez que os governos continuam a lutar com défices públicos consideráveis e elevados encargos da dívida", indicou.

Mais tensão social

A "lenta" recuperação do Brasil em 2020 e 2021 vem depois de um 2019 ainda mais decepcionante. A ONU estimava inicialmente que a economia brasileira teria uma expansão de 2,1% no ano passado. Mas acabou crescendo a uma taxa de apenas 1%, contra 2,5% na média da economia mundial.

Mas o Brasil não foi o único. "A desaceleração foi ampla nas sub-região (sul-americana), e o crescimento nas maiores economias da região (Argentina, Brasil e México) foi muito mais fraco do que o esperado", indicou o informe. "Prevê-se uma recuperação lenta e desigual nos próximos dois anos, com um crescimento regional médio de 1,3% em 2020 e de 2,0% em 2021", diz.

O que também preocupa a entidade é o impacto de anos de condições econômicas ruins nas políticas sociais. ?
"O crescimento do PIB em 2019 foi mais lento do que o esperado em 24 dos 27 países, e em 14 países, incluindo Argentina, Brasil e México, o PIB per capita quase estagnou ou diminuiu", alertou.

A entidade deixa claro que, desde o fim do boom das commodities em 2013 e 2014, a região não conseguiu alcançar um "crescimento econômico significativo", reconhece a ONU. "O PIB per capita médio hoje está quase 4% abaixo do nível de 2014. Ao mesmo tempo, o progresso na redução da desigualdade parece ter desacelerado", alertou.

"Com poucas exceções, os níveis de desigualdade na região continuam muito altos e vastos segmentos da sociedade carecem de oportunidades econômicas", indicou.
?Os níveis de pobreza têm tido tendência a subir nos últimos anos", insistiu, apontando para as estimativas de que 63 milhões de pessoas na região viviam abaixo da linha de pobreza extrema em 2018, contra 46 milhões em 2014.

"É provável que o número total de pobres tenha aumentado ainda mais em 2019, uma vez que a região está atolada em uma prolongada crise econômica", apontou.

Na entidade, a percepção é de que o fracasso no crescimento inclusivo tem alimentado o descontentamento popular na região.

"O rendimento médio per capita da região caiu cerca de 0,8 por cento. O fracasso no crescimento económico inclusivo, associado a uma erosão da confiança nas instituições políticas, tem alimentado o crescente descontentamento popular em algumas partes da região", alertou.

"No último ano, a agitação pública e os protestos violentos irromperam ou se intensificaram em muitos países, incluindo Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Haiti, Honduras, Nicarágua, Peru e Venezuela", lembra.

De fato, em 2019, houve uma contração do PIB da América do Sul de 0,1%. "Os ventos adversos externos, tais como a desaceleração do comércio global e a queda dos preços das commodities, têm causado problemas específicos a cada país, incluindo contrações na mineração e na agricultura no Brasil, Chile e Paraguai; tensões socio-políticas e agitação na Bolívia, Chile, Equador e Peru; e o aprofundamento da crise econômica na Argentina, que afetou negativamente os países vizinhos do Brasil, Paraguai e Uruguai", avalia a ONU.

"Alguns dos fatores negativos que têm vindo a pesar sobre o crescimento ao longo do último ano são susceptíveis de persistir em 2020. Além disso, a sub-região enfrenta grandes obstáculos estruturais, incluindo a dependência excessiva de matérias-primas, informalidade e o baixo crescimento da produtividade laboral", destacou.

"Neste contexto, é provável que o regresso a um crescimento robusto permaneça elusivo no curto prazo", adverte.

Para 2020, a região teria um crescimento de apenas 1,1%, contra 2% em 2021. "A incapacidade de alcançar um crescimento robusto e inclusivo ameaça exacerbar ainda mais as tensões sociais", alertou.

?Mundo

No restante do mundo, 2019 tampouco foi um ano positivo. A ONU estima que o crescimento global desacelerou para a taxa mais baixa em dez anos, em 2,3%.

"Em 2019, a economia mundial se expandiu em seu ritmo mais lento desde a crise financeira global", constatou. "A desaceleração da atividade econômica tem sido altamente sincronizada, com a tendência de crescimento em baixa em praticamente todas as principais economias. Dois terços dos países do mundo registaram um crescimento do PIB inferior às taxas de 2018", revela.

Mesmo uma recuperação em 2020 e 2021 é considerada como sendo "modesta".

Se a aposta continua sendo os emergentes como motor dessa recuperação, os riscos continuam sendo elevados. "Estes riscos incluem uma nova escalada de disputas comerciais, um declínio acentuado do apetite do investidor pelo risco e questões geopolíticos", disse.

"As fragilidades financeiras, em particular o endividamento elevado, representam uma fonte de risco para a estabilidade financeira e reduzem a capacidade de resistência das economias a choques", alertou.

"Ao mesmo tempo, os riscos de curto e longo prazo associados à crise climática estão se tornando um desafio cada vez maior para muitos países. Complicados pelo aprofundamento da polarização política, estes ventos adversos a curto prazo representam uma ameaça considerável às perspectivas de alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030", completou.

Jamil Chade