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Jamil Chade


No exterior, Alvim já flertou com referências totalitárias

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

17/01/2020 11h16

O vídeo em que o secretário da Cultura do governo de Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, recorre a um dos personagens mais nefastos do nazismo é imoral. Mas essa não é a primeira vez que ele flerta com ideias do fascismo ou usa de modelos de linguagem e estética que apenas regimes totalitários abraçaram.

Em novembro, eu revelei com exclusividade que, num discurso na Unesco, em Paris, o secretário da Cultura fez ataques contra a arte nacional. Citando Deus e prometendo criar uma "nova geração de artistas", ele ainda garantiu que o novo governo retomaria a "beleza" nas obras de arte.

Em Paris, o secretário ainda se reuniu com autoridades de governos de ultra-direita, como da Hungria e Polônia, além de encontros com o governo de direita da Grécia.

Mas foi seu discurso que chamou a atenção de delegações estrangeiras. No palco, ele foi obrigado a reduzir o tamanho da intervenção. Mas os documentos submetidos pelo governo para a Unesco registram o texto completo.

O tom repetia a visão do nazismo de atacar a arte Moderna e considerar que tudo o que vinha antes de seu regime representava a degeneração do homem. Para superar essa fase, uma nova estética teria de ser erguida, com novos artistas. A lógica era simples: a arte precisava representar a beleza e o equilíbrio. Alvim, repetiu a mesma receita, quase um século depois.

Diante do deslize do brasileiro e do constrangimento dos presentes, um ministro suíço tomou a palavra momentos depois para responder e fazer amplos elogios à arte brasileira, cantores e sua diversidade. Outros diplomatas de países vizinhos indicaram que o discurso chegou a gerar constrangimento por parte de alguns governos.

Alvim acusou a arte brasileira de ser "veículo de propaganda ideológica, de palanque político, de propagação de uma agenda progressista avessa às bases de nossa civilização e às aspirações da maioria do nosso povo". Mas foi quando ele citou a questão estética e a necessidade de criar uma "nova geração de artistas" é que, para muitos na sala, as comparações ao nazismo vieram à mente.

Segundo ele, a eleição de Bolsonaro permitiu que "valores ancestrais de elegância, beleza, transcendência e complexidade encontrassem uma nova atmosfera".

"E isso nos permitir retomar o sonho de libertar a cultura e coloca-la na direção de princípios poéticos sagrados", afirmou.

Ele garante que o novo governo está "envolvido na árdua tarefa de promover um renascimento da arte e da cultura brasileira". "Estamos comprometidos com a redefinição da identidade e da sensibilidade nacionais, em consonância com os valores e os mitos fundantes de nossa nação", disse, algo muito parecido com o que disse no vídeo desta semana.

Alvim ainda prometeu "trazer de volta o conceito de obra de arte". E, uma vez mais, atacou a esquerda. "Um governo de esquerda patrocina propaganda ideológica. Um governo de direita apoia obras de arte. Vamos devolver a arte aos espaços de arte", disse.

Outro destaque do secretário foi suas referências aos clássicos, um recurso recorrente do nazismo e de linhas fascistas. Ele ainda definiu o que chamou de "conservadorismo em arte". Isso inclui o "amor aos clássicos". Para ele, será a partir disso que "brotará a ambição de criarmos obras de grandeza semelhante em nosso tempo".

Entre as tarefas que ele indicou para o governo está "a criação de uma nova geração de artistas". Tudo isso seria, para concluir, "para a glória de Deus". "Que Deus os abençoe", completou o secretário diante de ministros de todo o mundo.

Ataque à esquerda

Naquele seu discurso, seus ataques à esquerda permearam sua presença na Unesco. "Passamos não mais a produzir e experimentar arte como uma ferramenta para o florescimento do gênio humano", afirmou o secretário. "A arte brasileira transformou-se em um meio para escravizar a mentalidade do povo em nome de um violento projeto de poder esquerdista, um projeto mesquinho que perseguiu e marginalizou a autêntica pluralidade artística de nossa nação", insistiu.

Segundo ele, esse movimento "abarcou a quase totalidade do teatro, da musica, das artes plásticas, da literatura e do Cinema, e não ocorreu de modo espontâneo".

"Foi meticulosamente pensado, orquestrado e executado por lideranças tirânicas para nossa submissão", afirmou. E lançou um alerta: "Quando a arte e a cultura adoecem, o povo adoece junto".

Alvim ainda atacou a forma pela qual a arte era produzida no país até a chegada de seu governo. "A arte e a cultura no Brasil estavam a serviço da bestialização e da redução do indivíduo a categorias ideológicas, fomentando antagonismos sectários carregados de ódio - palcos, telas, livros, não traziam elaborações simbólicas e experiências sensíveis, mas discursos diretos repletos de jargões do marxismo cultural, cujo único objetivo era manipular as pessoas, usando-as como massa de manobra de um projeto absolutista", atacou.

Segundo ele, a "ideologia de esquerda perpetrou uma terrível guerra cultural contra todos os que se opuseram ao seu projeto de poder, no qual a arte e a cultura eram instrumentos centrais de doutrinação". "A esquerda perseguiu, difamou, destruiu as possibilidades de trabalho ou existência de qualquer voz que discordasse de seu credo revolucionário", atacou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Jamil Chade