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Jamil Chade


Damares abandona reunião da ONU em protesto ao chanceler venezuelano

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/02/2020 09h20

A ministra Damares Alves (Família, Mulher e Direitos Humanos) abandonou a sala da ONU nesta terça-feira para protestar contra o regime de Nicolas Maduro, num ato calculado e raro na diplomacia internacional. Ela foi a única ministra do Grupo de Lima a agir dessa forma.

No momento em que o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, começou seu discurso no Conselho de Direitos Humanos da ONU, Damares se levantou e deixou o assento destinado ao Brasil. A delegação do Itamaraty também deixou o local em protesto.

Em seu discurso, na segunda-feira, Damares já havia atacado o governo ilegítimo de Maduro, insistindo em destacar as violações de direitos humanos. O Brasil não reconhece o governo de Nicolas Maduro e insiste em dar apoio a Juan Guaidó. Brasília, portanto, protesta contra o fato de que a Venezuela faça parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Em 2019, Brasil e Venezuela foram eleitos para o Conselho da ONU. Se Damares saiu da sala, a realidade é que foi em parte graças ao Itamaraty que Caracas foi eleita para o cargo. O Grupo de Lima queria que um terceiro candidato da região se apresentasse, roubando os votos que iriam para a Venezuela. Mas o Brasil temia que, no lugar de afetar os votos para Caracas, a terceira via acabasse minando os votos ao Itamaraty.

Por meses, o governo brasileiro bloqueou a ideia de um terceiro candidato, enquanto Caracas se apressava para fechar acordos de votos com dezenas de países.

Foi apenas nos últimos dias de campanha que a Costa Rica decidiu entrar na corrida, deixando muitos no Itamaraty preocupado. Mas não havia mais tempo para reverter os apoios e Maduro acabou vencendo.

Orquestrado

O ato da brasileira, porém, foi orquestrado. Damares não estava sequer na sala e participava da inauguração de uma exposição de fotos no prédio da ONU. Instantes antes do venezuelano falar, ela foi levada para a sala principal de reuniões pela embaixadora brasileira. Diante da ministra, seu assessor de imprensa aguardava com a câmera ligada.

No momento em que o discurso começou, ela se levantou e saiu. O destino: um almoço com a embaixadora. Outros países do Grupo de Lima também promoveram o boicote, como a Colômbia. Mas os demais optaram por não entrar na sala em protesto, evitando o que se conhece na ONU como "walk-out" e criar um constrangimento.

O governo brasileiro, porém, não deixou a sala quando outros regimes não democráticos discursaram, como os sauditas e diversos outros.

Questionada pela coluna sobre o motivo do abandono da sala, Damares respondeu: "você acha que temos de ouvir essa pessoa? Nunca", afirmou.

Ao terminar sua fala, Arreaza conversou com a coluna. Ao ser questionado sobre a importância do abandono de Damares, ele declarou: "importância nenhuma". "Sorte que ela (Damares) não estava", completou.

Em seu discurso, ele denunciou o bloqueio promovido pelos EUA e seus aliados como "loucuras". Arreaza, em seu discurso, fez questão de alertar sobre a manipulação que governos estariam promovendo com o tema dos direitos humanos.

Instantes depois do ato, foi o governo de Donald Trump, que sequer faz parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que emitiu um comunicado aplaudindo o gesto brasileiro e do Grupo de Lima. A rapidez pela qual o comunicado de Washington foi publicado foi interpretado como mais um exemplo de como a Casa Branca estaria atuando em coordenação.

"Os Estados Unidos elogiam o Grupo de Lima por se opor à presença ilegítima do regime maduro no Conselho de Direitos Humanos como uma afronta à democracia. Sabemos que a liderança do Grupo de Lima continuará a iluminar as violações e abusos dos direitos humanos de Maduro", declarou Washington.

"Louvamos os apelos da comunidade internacional por eleições presidenciais livres e justas na Venezuela em 2020. Os Estados Unidos acreditam firmemente que uma transição rápida e negociada para a democracia é o caminho mais eficaz e sustentável para a paz e a prosperidade na Venezuela", insistiu.

Crianças

Momentos depois, num evento organizado para denunciar os crimes de Maduro, Damares Alves fez um duro discurso contra o regime de Caracas. Além de condenar os atos do presidente e denunciar medidas obscurantistas, a ministra insistiu que existe uma "crescente violência contra oposição, à medida que eleições se aproximam".

Segundo ela, isso viria de forças regulares e de paramilitares. Para ela, trata-se de um regime "ilegítimo e desumano".

Um dos pontos destacados pela ministra é a quantidade elevada de crianças desacompanhadas que estão cruzando a fronteira, em direção ao Brasil. "Como um único homem pode causar tanto sofrimento?", questionou, numa referência a Maduro.

Entre as medidas apresentadas pela ministra aos demais países, ela citou a criação de um coral de crianças que cantariam como "anjos". O comentário gerou olhares irônicos por parte dos delegados dos países estrangeiros, que estavam no local.

Aos embaixadores, Damares ainda completou que, no Brasil, Jair Bolsonaro é "conhecido como o presidente das crianças".

Jamil Chade