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Jamil Chade


Coronavírus gera perdas de US$ 100 mi no Brasil; US$ 50 bi no mundo

Entregador passa alimentos por cima de barreira em bairro de quarentena em Wuhan, epicentro do surto de coronavírus na China - AFP
Entregador passa alimentos por cima de barreira em bairro de quarentena em Wuhan, epicentro do surto de coronavírus na China Imagem: AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

04/03/2020 14h00

Resumo da notícia

  • Queda na indústria chinesa em fevereiro afetou cadeias globais de produção
  • Caráter fechado da indústria brasileira acabou limitando perdas, em comparação a outros emergentes
  • Estimativa de perdas se refere apenas ao impacto diante dos problemas registrados no mês de fevereiro. Se crise continuar, consequências serão maiores

O surto de coronavírus na China, mesmo em suas primeiras semanas, já poderá causar um impacto negativo de US$ 104 milhões para as exportações brasileiras para o mundo. Em termos globais, as perdas para diferentes economias no mundo já seriam calculadas em US$ 50 bilhões, numa demonstração da dependência que se criou em relação ao abastecimento de peças e itens chineses em diversas cadeias globais de produção.

Os dados estão sendo publicados nesta quarta-feira pela Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento, alertando que os efeitos globais da situação sanitária serão "significativos". Para chegar a esses números, a entidade aponta que apenas calculou o impacto registrado em fevereiro. No caso de uma prolongação da crise, as perdas acumuladas serão multiplicadas.

A OCDE já reduziu a projeção da taxa de crescimento da economia mundial para 2020 para apenas 2,4%, enquanto o Banco Mundial anunciou um pacote de US$ 12 bilhões para ajudar os países mais pobres.

No caso do comércio, o centro do debate é a China e seu papel na economia mundial. Com 80 mil casos, Pequim interrompeu parte de sua produção nacional e colocou cidades em isolamento.

A situação, portanto, causou um impacto nas cadeias produtivas, diversas delas dependentes hoje da produção chinesa. De acordo com a ONU, a China se posicionou como um ator central no fornecimento de bens intermediários e fundamentais para a produção de carros, celulares, equipamentos médicos e máquinas em diversas partes do planeta.

A economia mundial passou a depender do fornecimento chinês para permitir a produção e exportação de bens.

Mas, diante do coronavírus, o índice de produção na China sofreu uma queda para 37 pontos em fevereiro de 2020, atingindo a menor taxa desde 2004. A redução implica uma redução de 2% na produção anual.

A interrupção na produção chinesa, apenas no mês de fevereiro, acabou afetando cadeias de produção pelo mundo.

Nesse contexto, de acordo com a ONU, o mais prejudicado pela situação na China será a UE, com perdas de US$ 21,6 bilhões para suas exportações. Segundo a entidade, esse é o prejuízo que indústrias terão ao não conseguir ter acesso a produtos chineses que são normalmente incorporados em seus produtos finais.

Apenas no setor automotivo, o impacto na Europa seria de US$ 5 bilhões e contando meramente o mês de fevereiro. A segunda economia mais impactada seria a dos EUA, com US$ 8,5 bilhões, contra US$ 6,3 bilhões no Japão.

Para o autor do informe, Alessandro Nicita, esse impacto deve ser sentido nos próximos meses e, se a crise não desaparecer, o efeito pode ser ainda superior aos US$ 50 bilhões.

Economia fechada

No caso do Brasil, o maior impacto seria registrado no setor automotivo, com perdas de US$ 42 milhões. O setor de metais e de máquinas também estariam entre os mais afetados. O setor químico perderia outros US$ 6 milhões a partir dos acontecimentos na China em fevereiro, mesmo valor no setor de papel e celulose.

Apesar de importante, a perda brasileira ficará bem abaixo de outros mercados emergentes, com uma participação maior de fornecedores chineses em suas economias locais. No México, as perdas seriam de US$ 1,5 bilhão, contra US$ 2,6 bilhões no Vietnã.

Parte da explicação para o impacto relativamente reduzido no Brasil se da por conta da economia fechada do país. Poucos seriam os setores que dependeriam de produtos intermediários chineses para a fabricação final de um bem a ser exportado.

A ausência do Brasil nas cadeias produtivas foi sempre um gargalo para a economia nacional. Esse caráter fechado da economia também seria parte da explicação para a falta de competitividade da indústria nacional.

Agora, esse afastamento pode adiar o impacto para as exportações de manufaturados do Brasil. Mas a ONU alerta que tal conta não considera o impacto que o país poderá ter na queda de exportações, principalmente no setor agrícola para a China.

"A China não fornece muitos materiais para cadeias agrícolas. Portanto, no Brasil, os efeitos serão muito mais limitados", disse Nicita, que destaca ainda a orientação da economia nacional para a região das Américas.

O caso do México seria diferente, com o setor automotivo mais integrado às cadeias mundiais de produção e ao fornecimento chinês. "O Brasil, para o bem ou não, está menos integrado no setor industrial", afirmou Nicita.

Ele, porém, alerta que os valores sobre o Brasil representam apenas o início de um processo. "Isso é só o começo. Se a crise continua, esse número terá de se multiplicar por dez", alertou.

Logística

Na avaliação do autor do informe, existem sinais positivos de que a indústria chinesa possa voltar a produzir nos próximos meses. Mas não haveria garantias ainda de um restabelecimento de normalidade no mercado e no fornecimento de alguns itens.

A crise ainda revelou a dependência mundial em relação ao abastecimento da China. No curto prazo, o economista da ONU estima que não há como, rapidamente, identificar novos fornecedores de peças. Mesmo se houvesse, o preço seria mais elevado.

Mas existe um outro obstáculo: a logística. Segundo ele, a China criou uma ampla rede de transporte e infraestrutura para garantir o abastecimento e exportação de seus produtos, com aeroportos e portos destinados exclusivamente a isso. "A China construiu tudo isso", afirmou.

No médio a longo prazo, porém, ele acredita que o mundo poderá sair em busca de novos fornecedores. Mas isso exigirá tempo.

De acordo com a ONU, as barreiras impostas por Donald Trump sobre os produtos chineses, em sua guerra comercial, também tiveram um efeito limitado. Isso por conta da capacidade logística da China em entregar seus produtos e garantir o abastecimento.

As mesmas condições não conseguiram ser encontradas em outras partes do mundo e nem mesmo em certas regiões dos EUA.

Jamil Chade