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Jamil Chade


Por que um hospital na Suíça se recusou a testar se eu estou com o vírus

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

14/03/2020 15h03

"Senhor, antes que eu continue, devo dizer que não faremos o exame de coronavírus. Salvo em idosos e doentes crônicos". Foi assim que eu fui recebido na portaria do Pronto-Socorro de um dos hospitais de ponta da Suíça, na sexta-feira pela noite.

Desde quinta-feira, desenvolvi alguns do sintomas descritos pelos especialistas como sinais de que eu poderia estar com a doença. Febre, dor de cabeça, dificuldade para respirar e dores no corpo, ainda que relativamente leves. Mas eu tentava manter meu ritmo, escrevendo, entrando ao vivo na rádio e televisão.

A cada tanto, olhava o site da OMS com as explicações sobre os sintomas para ter certeza de que eu não estava enganado ou exagerando. Quem me conhece sabe o quanto evito médicos, apesar de estar cercado por eles na família.

No final da sexta-feira, diante de mais uma coletiva da OMS e uma dor de cabeça, no corpo e febre teimosa, decidi que terminaria aquilo e iria procurar um médico. Da boca de Michael Ryan, chefe de operações da agência internacional de saúde, ouvimos naquele dia que a comunidade internacional deveria tratar a pandemia como a Aids e que saber seu status seria fundamental para proteger os demais. Uma questão de responsabilidade social.

E assim decidi agir. A Suíça acabara de declarar o fechamento de todas suas escolas e, para um país com 8 milhões de pessoas, o registro de mais de mil casos chamava a atenção. No trajeto entre a coletiva de imprensa da OMS e a clínica, abri os sites dos jornais locais e a notícia era a morte de uma mulher de apenas 34 anos em Genebra. Um alerta.

Mas o que descobri ao chegar ao Pronto-Socorro de luxo de uma das cidades com o melhor índice de desenvolvimento humano do planeta foi algo bem diferente.

A recepcionista tentou imediatamente tirar qualquer esperança de um eventual teste, explicando que os exames se limitam ao grupo de risco. Mas me entregou uma máscara e pediu que eu me sentasse num lugar isolado.

Instantes depois, fui chamado: "Monsieur Chade!"

A enfermeira tirou minha pressão e fez várias perguntas: se eu estive na Itália, no Irã ou na China, se eu estive em contato com alguém que teve confirmado seu status, se eu tinha problemas cardíacos. Tudo negativo.

Dali, fui colocado num leito e, momentos depois, uma médica entrou. Repetiu as mesmas perguntas, escutou meu pulmão, examinou minha garganta. E, com um semblante de incerteza sobre o que me dizer, explicou que me daria uma licença de dez dias de meu trabalho e remédios para eu tomasse.

Perguntei se eu seria testado. Sua resposta foi clara: "não temos como testar todo mundo e, de todas as formas, mesmo se soubermos que o senhor está com o vírus, não há nada que se possa fazer". "O vírus está entre nós", explicou.

Perguntei então sobre o contato com meus filhos em casa. A resposta: "fique tranquilo, as crianças não estão entre os principais grupos de risco". E completou: "fique em casa, descanse".

Horas depois, a sede da ONU em Genebra - local de meu escritório - registrou o primeiro caso oficial.

Mergulhado na cobertura do coronavírus desde janeiro, tenho sido bombardeado por documentos e orientações da OMS sobre como proceder. Mas descobri que existe uma enorme distância entre as recomendações da agência internacional e a vida real de um hospital num local com ampla transmissão estabelecida.

Defesa do sistema de saúde e números não contabilizados

Novo epicentro do coronavírus no mundo, a Europa sabe que não tem como testar a todos e nem encontrar espaço em seus serviços de saúde para milhares de casos extras. A defesa dos sistemas de saúde é também relevante, inclusive para que ele continue a salvar vidas afetadas por tantas outras doenças.

A ideia é de que se todos os leitos forem tomados por casos do coronavírus, o risco é de um colapso. Algumas estimativas apontam que alguns dos sistemas nacionais estão operando com 98% de suas capacidades. Na Itália, em poucas semanas, 900 pessoas extras lotaram as UTIs.

Angela Merkel, a chanceler alemã, declarou neste fim de semana que desacelerar o vírus era a prioridade, justamente para impedir uma implosão dos sistemas públicos.

O fim das atividades sociais, esportivas, de educação e o fechamento de fronteiras visam desacelerar a proliferação dos casos e, assim, evitar uma pressão ainda maior sobre os sistemas de saúde. Mas já começam a circular declarações que admitem que o número atual de casos está amplamente subestimado.

Para a OMS, uma das lições do coronavírus é de que o fortalecimento dos sistemas de saúde deve entrar nas prioridades de governos, inclusive como medida para proteger suas economias. Mas isso dependerá de como governos vão reagir quando a primavera chegar, literalmente.

Quando abri a receita que a médica tinha preparado, tive de conter o riso. Ela me sugeria tomar paracetamol e ibuprofeno, além de um spray nasal. E saí daquele hospital com a sensação de que provavelmente nunca ficarei sabendo se fui contaminado ou não.

Mas, acima de tudo, saí com a forte impressão de que os números publicados por governos diariamente podem contar apenas uma parcela da história.

Quanto às dores, elas continuam. Mas nada que vá levar à quarentena dessa coluna, para a tristeza de alguns.

Jamil Chade