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Jamil Chade


ONU e a OMS lançam plano de US$ 2 bi para evitar crise humanitária global

09.jan.2020 - Debate no Conselho de Segurança da ONU - Xinhua/Li Muzi
09.jan.2020 - Debate no Conselho de Segurança da ONU Imagem: Xinhua/Li Muzi
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/03/2020 11h06

Resumo da notícia

  • Fechamento da fronteira entre Brasil e Venezuela aprofundou crise social no país vizinho

O fechamento da fronteira do Brasil e Colômbia com a Venezuela está deixando milhares de pessoas sem acesso a remédios e alimentos, além de aprofundar a crise social no país vizinho. O alerta é da ONU, Unicef e da OMS que, numa iniciativa inédita, solicitam do mundo um pacote de US$ 2 bilhões para sair ao socorro de milhões de pessoas em locais mais vulneráveis do planeta.

O temor das entidades é que uma nova legião de pobres seja criada diante da pandemia. O apelo humanitário é o primeiro lançado pela entidade diante do coronavírus, numa prática que tradicionalmente é dirigida apenas em casos de guerra ou desastres naturais.

O plano destinará recursos para países da América do Sul, África, Oriente Médio e Ásia. A lógica é de que apenas quando o vírus for derrotado em todas as regiões do mundo é que a comunidade internacional estará segura. Caso contrário, de nada adianta a imposição de quarentenas nos países ricos se, semanas depois, o vírus continuará a circular pelo mundo.

Um dos principais focos do resgate é a Venezuela e sua crise que transbordou para a América do Sul.

"O fechamento das fronteiras com o Brasil e a Colômbia já está tendo repercussões sanitárias, econômicas e sociais: pessoas que dependem do comércio transfronteiriço para sua subsistência tiveram que parar suas atividades; pessoas que precisam de medicamentos e tratamento da Colômbia, como aquelas com HIV/AIDS, estão enfrentando dificuldades de acesso a eles", alerta a ONU em seu plano humanitário.

Outro risco é de que, com as fronteiras fechadas, o controle da doença seja prejudicado. "O uso de passagens irregulares de fronteira aumentou, afetando a monitorização da COVID-19", alerta.

"As medidas regionais tomadas para controlar o COVID-19 poderiam ter impacto no fluxo de remessas - uma importante fonte de renda para muitos venezuelanos", indicam ainda.

Pobres

Para a ONU, Unicef e OMS, se a crise é profunda nos países ricos, o cenário é ainda mais dramático quando aterrizar em locais de guerra, de miséria ou com sérios problemas humanitários. Não ajudar os países vulneráveis a combater o coronavírus, portanto, pode colocar milhões em risco e deixar o vírus livre para circular de volta ao redor do globo.

Com os US$ 2 bilhões, a ONU espera entregar equipamento laboratorial essencial para testar o vírus, e suprimentos médicos para tratar as pessoas. Além disso, vai instalar estações de lavagem das mãos em acampamentos e assentamentos e estabelecer pontes aéreas e centros em toda a África, Ásia e América Latina para transportar trabalhadores humanitários e suprimentos para onde eles são mais necessários.

Para o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, "o COVID-19 está ameaçando toda a humanidade - e por isso toda a humanidade tem de dar uma resposta". "As respostas individuais dos países não vão ser suficientes", disse.

"Temos de ajudar os ultra-vulneráveis - milhões e milhões de pessoas que são menos capazes de se protegerem. Esta é uma questão de solidariedade humana básica. É também crucial para combater o vírus. Este é o momento de dar um passo em frente para os vulneráveis", afirmou.

O subsecretário-geral para os Assuntos Humanitários Mark Lowcock alerta que o COVID-19 já fez a vida em alguns dos países mais ricos do mundo ser transformada. "Agora está chegando a lugares onde as pessoas vivem em zonas de guerra, não têm acesso fácil a água limpa e sabão, e não têm esperança de ter uma cama de hospital se ficarem gravemente doentes", alertou.

"Deixar os países mais pobres e vulneráveis do mundo à sua sorte seria cruel e insensato", insistiu.

"Se deixarmos o coronavírus se espalhar livremente por esses lugares, estaremos colocando milhões de pessoas em alto risco, regiões inteiras serão levadas ao caos e o vírus terá a oportunidade de circular de volta ao redor do mundo", disse.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, estima que o apoio aos países mais pobres deve existir "também para nos proteger a todos e ajudar a reprimir esta pandemia". Para dar início ao plano de resposta, Lowcock libertou mais 60 milhões de dólares do Fundo Central de Resposta a Emergências da ONU (CERF).

Venezuela

No caso específico da América do Sul, o temor vem da Venezuela. Ainda que apenas 70 casos tenham sido identificados, o governo declarou estado de emergência em 13 de março e posteriormente implementou uma quarentena social nacional, limitando os movimentos e as interações sociais das pessoas.

"O sistema global de saúde pública tem uma capacidade limitada. Isto deve-se a uma combinação de fatores, incluindo a escassez de medicamentos e suprimentos, a falta de água regular e de eletricidade e a migração de profissionais de saúde", aponta o plano da ONU.

"A falta de acesso regular e suficiente aos serviços sanitários em muitas comunidades será um desafio para a prevenção e controle", apontou.

"A pandemia da COVID-19 provavelmente terá um impacto negativo adicional na economia, que já passou por cinco anos consecutivos de contração. A quarentena social nacional, incluindo o fechamento de postos de combustível em algumas áreas, já aumentou o preço dos vínculos básicos de mercadorias", indicou.

Para completar, muitos dos 81 parceiros humanitários da ONU na Venezuela suspenderam suas atividades devido a medidas de quarentena. "As restrições de combustível levaram à escassez em certas áreas, resultando em preços mais altos de combustível e restrições à coleta em massa", constatou.

O temor da ONU é de que a falta de financiamento para a resposta humanitária é um desafio fundamental.

Jamil Chade