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Jamil Chade


Panelas e coronavírus ajudam a derrubar o governo...no Kosovo

Cidade de Pristina, no Kosovo - Marcel Vincenti/UOL
Cidade de Pristina, no Kosovo Imagem: Marcel Vincenti/UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/03/2020 20h48

Pela primeira vez, a pandemia de coronavírus ajuda a derrubar um governo. A vítima foi a administração do Kosovo, uma das regiões mais pobres da Europa e alvo de uma feroz disputa pelo poder, com forte envolvimento dos EUA.

Nesta quarta-feira, o Parlamento do Kosovo votou uma moção de censura contra o primeiro-ministro Albin Kurti. O governo de coalizão ruiu depois que a aliança que formava o executivo se desfez.

Oficialmente, um dos argumentos de desavença entre os ex-parceiros se referia à proposta de quarentena para enfrentar a doença. O país conta com apenas 60 casos confirmados e uma morte. Mas, na esperança de frear a doença, Kurti havia estabelecido o confinamento de 1,8 milhão de habitantes. Mas não declarou um estado de emergência.

Se esse tivesse sido o caminho legal, a lei prevê que o presidente do Kosovo teria mais poderes. O problema: o chefe-de-estado é um rival político de Kurti.

Há uma semana, o ministro do Interior do país foi demitido depois que também indicou que o estado de emergência deveria ser decretado, contrariando o primeiro-ministro, de esquerda.

Diante da briga política, a população de Pristina transformou todas as noites em uma manifestação. De suas sacadas, paus e panelas ecoavam pelas ruas vazias da capital. Durante a votação, um manifestante rompeu a quarentena para ir diante do Parlamento com um cartaz em que dizia: "vergonha de todos vocês".

Mas a pandemia é vista apenas como um instrumento para a disputa política. O motivo para a crise ia muito além e estava relacionada com a decisão do governo de rejeitar um plano de segurança do governo americano, na relação conturbada com a Sérvia.

Kurti era visto com desconfiança pela Casa Branca, que buscou criar condições nos bastidores para enfraquecer o primeiro-ministro.

Não por acaso, Washington aplaudiu a queda do governo, enquanto países europeus se mostraram preocupados. Em plena pandemia, o Kosovo agora não conta com um governo e, para que uma eleição seja realizada, a quarentena teria de ser suspensa.

Jamil Chade