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Jamil Chade


"O pior está por vir", alerta secretário-geral da ONU

09.jan.2020 - Debate no Conselho de Segurança da ONU - Xinhua/Li Muzi
09.jan.2020 - Debate no Conselho de Segurança da ONU Imagem: Xinhua/Li Muzi
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/04/2020 10h00

Num recado duro ao mundo, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, fez um apelo para que governos e atores abram caminho para que milhões de pessoas sejam protegidas diante da pandemia. Num discurso nesta manhã em Nova Iorque e no momento em que a doença atinge mais de um milhão de pessoas, o chefe da diplomacia das Nações Unidas alertou sobre o risco da proliferação do vírus em locais como Síria, Afeganistão e em vários países africanos afetados por conflitos armados.

"O vírus mostrou a rapidez com que pode atravessar fronteiras, devastar países e pôr vidas em risco. O pior ainda está para vir", alertou.

Há dez dias, o apelo da ONU para um cessar-fogo mundial para abrir espaço para o combate à pandemia recebeu a adesão de dezenas de partes envolvidas em conflitos armados. Num levantamento publicado nesta sexta-feira, a entidade revela que grupos armados nos Camarões, República Centro-Africana, Colômbia, Líbia, Myanmar, Filipinas, Sul do Sudão, Sudão, Síria, Ucrânia e Iémen aceitaram a proposta de silenciar os canhões.

Mas nem sempre cumpriram suas promessas. "Essa é uma oportunidade para a paz, mas estamos longe disso. E a necessidade é urgente. A tempestade COVID-19 está agora chegando a todos estes teatros de conflito. Temos de fazer tudo o que for possível para encontrar a paz e a unidade de que o nosso mundo tanto precisa para combater o COVID-19. Temos de mobilizar cada grama de energia para a derrotar", insistiu.

O apelo a um cessar-fogo imediato em todos os cantos do globo tinha como objetivo dar espaço para a ação diplomática e ajudar a criar condições para salvar vidas nos locais mais vulneráveis à pandemia do COVID-19. "Este apelo teve as suas raízes num reconhecimento fundamental: Hoje só deveria haver uma luta no nosso mundo: a nossa batalha comum contra o COVID-19", explicou Guterres.

"Sabemos que a pandemia está a ter profundas consequências sociais, económicas e políticas, incluindo as relacionadas com a paz e a segurança internacionais. Vemos, por exemplo, no adiamento de eleições ou em limitações à capacidade de voto, em restrições sustentadas à circulação, na espiral do desemprego e outros fatores que podem contribuir para o aumento do descontentamento e das tensões políticas", alertou.

"Além disso, os grupos terroristas ou extremistas podem tirar proveito da incerteza criada pela propagação da pandemia", indicou.

Mas ele acredita que o apelo global ao cessar-fogo está ressoando em todo o mundo. Até agora, mais de 70 países, atores não estatais, redes e organizações da sociedade civil aderiram ao pacto. "Os líderes religiosos - incluindo o Papa Francisco - juntaram a sua voz moral em apoio a um cessar-fogo global", indicou.

Fragilidade

A ONU, porém, não tem ilusões de que essa situação é de extrema fragilidade. "Existe uma enorme distância entre declarações e atos - entre traduzir as palavras em paz no terreno e na vida das pessoas", admitiu Guterres.

"Há enormes dificuldades de implementação, uma vez que os conflitos se prolongam há anos, a desconfiança é profunda, com muitos estraga-prazeres e muitas suspeitas", alertou. "Sabemos que quaisquer ganhos iniciais são frágeis e facilmente reversíveis", apontou.

"E, em muitas das situações mais críticas, não temos visto qualquer recuo nos combates - e alguns conflitos até se intensificaram", admitiu.

Um dos exemplos é o do Iemen. Apenas das declarações de diferentes grupos de que iriam aderir ao cessar-fogo, realidade é que a violência disparou. A ONU quer agora convocar todos a uma negociação, justamente aproveitando a crise. "Apelo a todos os governos e movimentos envolvidos e aos seus apoiantes para que ponham fim ao conflito catastrófico e ao pesadelo humanitário - e venham até à mesa das negociações", disse Guterres.

Na Líbia, o governo e o Exército Nacional Líbio acolheram favoravelmente os apelos à suspensão dos combates. "No entanto, os confrontos escalaram drasticamente em todas as linhas da frente, obstruindo os esforços para responder eficazmente ao COVID-19", indicou o secretário-geral.

Por fim, no Afeganistão, enquanto os combates aumentavam, em 26 de Março, foi anunciada a formação de uma equipe para negociar com os Talibãs. "Creio que chegou o momento de o Governo e os Talibãs cessarem as hostilidades enquanto a COVID-19 paira sobre o país", completou.

Jamil Chade