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Jamil Chade


Irresponsabilidade de Bolsonaro causará extermínio em massa, dizem europeus

Indígenas e covid-19 - Edgar Kanaykõ Xakriabá Etnofotografia | antropologia
Indígenas e covid-19 Imagem: Edgar Kanaykõ Xakriabá Etnofotografia | antropologia
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/05/2020 06h27


Deputados europeus querem que a Comissão Europeia tome medidas contra o governo de Jair Bolsonaro diante de seu comportamento diante dos povos indígenas e o risco da pandemia do coronavírus.

Numa carta enviada por alguns dos deputados liderados por grupos de esquerda e ecologistas ao chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, Bolsonaro é acusado de traçar uma estratégia perigosa para a sobrevivência de tribos em diferentes partes do país. Além disso, o texto liderado pelos deputados portugueses Marisa Matias e José Gusmão, aponta que a "pandemia ameaça dizimar centenas de milhares de indígenas".

Nas últimas semanas, a resposta à pandemia no Brasil colocou o país sob forte pressão no exterior, com ex-ministros alertando para a situação de pária do governo. Denúncias em tribunais e à OMS foram apresentadas contra o presidente Bolsonaro. Alguns dos maiores artistas e intelectuais apresentaram uma petição liderada por Sebastião Salgado para que a situação dos indígenas fosse avaliada, enquanto algumas das maiores entidades do país ligadas ao povos tradicionais apelaram para a ajuda internacional.

Na UE, a pressão também cresce contra o país. De acordo com os deputados, Bolsonaro declarava antes mesmo de ser eleito que não demarcaria novas terras e flexibilizaria a proteção de áreas indígenas para permitir atividades como a mineração.

A carta denuncia uma série de medidas tomadas pelo governo e que ameaçam os direitos de indígenas e sua sobrevivência. O documento também acusa o governo por ações cujo objetivo é o de minar a capacidade de ação da Funai.

"Todas estas medidas têm como objetivo a assimilação forçada dos povos indígenas a negação da sua identidade étnica e a expropriação das suas terras que, de resto, se pretende que sejam usadas para a mineração e produção de petróleo e gás, além de expansão da agricultura baseada no uso massivo de agrotóxicos, colidindo além de tudo com os compromissos realizados no Acordo de Paris", alertam.

Pandemia

Mas a ameaça não se limita à questão de invasões. "Além dos ataques ao território, existem sérios riscos de contágios epidêmicos", indicam os deputados. "Se na terra indígena Yanomami os casos de malária aumentaram 70% em 2019 com as invasões dos garimpeiros, imagine-se o que poderá acontecer com o coronavírus", alertaram.

"A forma absolutamente irresponsável como o governo brasileiro tem tratado quer a ameaça da pandemia quer os direitos dos povos indígenas pode transformar a situação ja frágil destes povos num autentico extermínio em massa", denunciaram.

"Solicitamos ao Alto Representante da UE para a Ação Externa estabeleça um contato urgente com o governo brasileiro, na figura de seu presidente Jair Bolsonaro, no sentido de manifestar a reprovação face aos constantes ataques aos direitos originais dos povos indígenas", pedem os deputados a Borrell.

"A comunidade internacional não pode fechar os olhos ao que está acontecendo, ou corre o risco de se tornar cúmplice passiva deste flagelo", alertaram.

"Antes que a situação se agrave mais, é urgente agir e a UE tem esse dever de denuncia do atropelo de várias convenções internacionais", completam.

Jamil Chade