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Jamil Chade


OMS: coronavírus pode "nunca desaparecer" e virar doença "endêmica"

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, durante entrevista coletiva em Genebra - Denis Balibouse
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, durante entrevista coletiva em Genebra Imagem: Denis Balibouse
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/05/2020 13h43

O coronavírus pode se transformar em uma doença endêmica e nunca desaparecer, se ações firmes não forem tomadas. A declaração foi dada pela OMS que, nesta quarta-feira, insistiu que, mesmo com uma eventual vacina, os desafios de controlar a doença serão importantes. Apesar do alerta, a entidade destaca que o futuro da pandemia está nas mãos de líderes e da sociedade e que governos já provaram que a crise pode ser controlada.

Numa entrevista ao jornal Financial Times nesta quarta-feira, a cientista-chefe da agência, Soumya Swaminathan, havia indicado que o mundo poderia precisar de quatro ou cinco anos para lidar com a crise. Hoje, já são mais de 4 milhões de casos em praticamente todos os cantos do mundo, uma transmissão que surpreendeu até os técnicos de maior experiência na OMS.

Michael Ryan, diretor de operações da entidade, explicou horas depois que tal projeção poderia ter sido feita diante da ausência de uma vacina. Mas admitiu que, entre os diferentes cenários, está a possibilidade de que a Covid-19 se "transforme em outro vírus endêmicos nas comunidades" e "nunca desaparecer".

"Temos um novo virus entrando na população pela primeira vez. Portanto, é muito difícil prever quando vamos vencer", disse.

"É importante colocar isso sobre a mesa. Esse vírus pode se tornar mais um vírus endêmico em nossa comunidade E pode nunca desaparecer. O HIV nunca desapareceu. Encontramos as terapias e as pessoas não tem mais o mesmo medo", disse. "Não estou comparando as duas doenças. mas precisamos ser realistas", afirmou.

Segundo ele, mesmo com a chegada eventual de uma vacina, nada garante que haverá um rápido controle da doença. Ryan relembra como o mundo, apesar de ter outras vacinas eficientes para outras doenças, continua vendo crianças morrer de doenças que tem hoje cura. "Em alguns casos, faltou vontade e determinação para fortalecer os sistemas de saúde", indicou.

"A ciência pode vir com uma vacina. Mas depois teremos de dar e as pessoas vão ter de aceitar tomar", afirmou. "Cada etapa desse processo tem desafios", disse. "Não há promessas, nem datas, pode ser um problema de longo prazo ou não", insistiu.

Segundo ele, para que haja um controle da Covid-19, o mundo precisará de um apoio político, financeiro e da comunidade. "Temos o controle sobre esse futuro", afirmou.

Para Ryan, mesmo com uma vacina, o mundo está "uma longa distância" até que se possa declarar um eventual fim da pandemia. "Temos de ser claros. Países estão tentando encontrar um caminho. Vamos estar nesse caminho por um longo tempo", disse, pedindo que governos permaneçam vigilantes.

Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS, complementou o comentário apontando que o futuro da pandemia está "em nossas mãos". "Vimos países controlar o vírus e suprimir transmissão. Não podemos esquecer disso. Está em nossas mãos e vemos esperança", apontou.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da entidade, também insistiu que "trajetória da doença está em nossas mãos".

Abertura precipitada pode aprofundar crise econômica

Outro alerta lançado nesta quarta-feira pela OMS se refere ao risco de aberturas precipitadas de medidas de distanciamento social. Na avaliação de Ryan, se a transição for realizada de maneira precipitada, o risco é de que haja uma aceleração da transmissão. Mas se governos não têm um sistema de saúde forte e capacidade de identificar casos, países vão levar dias ou semanas para entender que o afrouxamento não funcionou.

Nesse caso, as evidências serão o acúmulo de corpos de pessoas que não sobreviveram. "Não é a forma de descobrir que não funcionou. Precisamos ter monitoramento", alertou Ryan.

O risco, num caso de novo surto, é de que governos tenham de restabelecer medidas de quarentena. Nesse caso, quem mais vai sofrer é a economia, que pode não suportar um segundo confinamento.

"Para a economia, o pior é abrir sem estar preparado e não sei se as economias tem como aguentar isso", disse. "É o que eu chamo de u ciclo vicioso com um desastre na saúde e um desastre econômico", alertou.

Gênio

Ryan ainda deixou claro que a questäo de implementação de quarentenas precisa ser compreendida como parte de um pacote maior, que incluiria o fortalecimento do sistema de saúde. Ele criticou "pensamentos mágicos" de que basta fechar um país para conter o vírus. Mas também criticou quem acha que simplesmente pode abrir.

Segundo ele, não precisa ser um astrofísico para entender que o distanciamento social tem, como objetivo, reduzir o número de pessoas contaminadas. Mas insistiu que, num processo de reabertura, governos precisam estar preparados para agir se identificarem novos surtos.

Para ele, Alemanha, Coreia do Sul e China foram exemplares nessa ação rápida. "Precisamos aprender essas lições", disse.

Jamil Chade