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Jamil Chade


Acordo com Mercosul não está mais na agenda, diz líder de partido na Europa

Bandeiras dos países participantes da cúpula do Mercosul, realizada em Santa Fé, na Argentina - Divulgação
Bandeiras dos países participantes da cúpula do Mercosul, realizada em Santa Fé, na Argentina Imagem: Divulgação
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/06/2020 05h19

Na semana passada, o acordo entre Mercosul-UE sofreu mais um golpe. No Parlamento Holandês, uma moção foi aprovado pedindo que o governo do país não ratifique o acordo. Ainda que tal iniciativa não tenha um poder legal de determinar de forma definitiva o bloqueio do processo, a votação mostrou o mal-estar que existe hoje em relação ao Brasil e ao governo de Jair Bolsonaro. Atos parecidos foram realizados na Áustria e num parlamento regional na Bélgica.

Em entrevista à coluna, a deputada holandesa que liderou a campanha contra o Mercosul, Esther Ouwehand, explicou os motivos de sua iniciativa e deixou claro que, em seu país, o Parlamento não irá aprovar o tratado.

Assinado em meados de 2019 depois de 20 anos de negociações, o acordo comercial entre os dois blocos precisa ser ratificado por todos os países para entrar em vigor. Esther acredita que o projeto está fora da agenda da Europa neste momento e deixa claro que o governo de Jair Bolsonaro aprofundou a rejeição à ideia de uma abertura comercial ao Brasil.

Esther lidera modesto Partido para os Animais, grupo que conseguiu entrar pela primeira vez no Parlamento em 2006 e inovou ao estabelecer uma nova plataforma social. Naquele momento, tinham apenas dois dos 150 assentos. Nas eleições de 2017, chegaram a cinco deputados. Ao longo dos anos, o partido viu formações similares aparecem em outros países europeus e, hoje, contam com mais de 80 pessoas eleitas em diferentes níveis pelo continente.

Apesar de ter um peso marginal dentro de seu Legislativo, a deputada foi a responsável por costurar uma aliança com diversos grupos dentro do Parlamento que levou à votação contra o acordo.

Eis os principais trechos da entrevista:

O que é o seu partido?


Representamos um movimento que vai além dos interesses de curto prazo, normalmente econômicos. Somos conduzidos pela ideia de que temos de respeitar o outro, começando pelos mais vulneráveis. Automaticamente, defendemos um sistema econômico que não viole os direitos humanos. No lugar do ego, precisamos de mais eco.

Em 2019, vimos uma série de partidos verdes ou com agendas ecológicas vencendo eleições pela Europa. Por qual motivo a senhora acredita que tal tendência está ocorrendo neste momento?

A forma pela qual o sistema econômico está destruindo nosso futuro. Nós estamos trabalhando desde 1972. Mas os jovens estão preocupados com seu futuro. Há uma conscientização maior sobre isso. Fomos beneficiados por esse sistema. Mas agora o preço está sendo cobrado. Precisamos mudar, caso contrário o sofrimento humano será enorme.

E como o comércio entra nessa história da globalização e nesse sistema econômico?

Não se pode parar a globalização. Mas podemos ser mais inteligentes sobre ela. A ideia de que o mercado vai beneficiar a todos provou estar errada. Os mais vulneráveis continuam vulneráveis, o meio ambiente está ameaçado e os direitos humanos também. Ou seja, precisamos mudar a economia para que possa servir aos valores básicos: a vida, igualdade, tratamento decente, conservação do meio ambiente. Isso tudo é contraditório ao sistema comercial atual que apenas pensa qual será a forma mais eficiente de vender e como podemos produzir com o custo mais baixo. Esse custo mais baixo traz, na realidade, um preço humano elevado.

De uma certa forma, os atuais acordos comerciais cumprem essa função. Agora, a atual pandemia nos exigiu pensar de novo nas produções regionais e não estar dependente de alimentos produzidos do outro lado do mundo. Essa consciência, ainda que existia antes da covid-19, a realidade é que a pandemia explicitou essa situação. Essa consciência é, em parte, o que estava na base da resistência contra os acordos comerciais.

A sra. trouxe o assunto do acordo com o Mercosul para o Parlamento Holandês. Quais eram as preocupações?

Vemos três problemas. Um dele é a Amazônia. Esse acordo pode colocar pressão sobre a floresta. O outro ponto é a violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. Além disso, a situação das exportações brasileiras era também considerada. Os agricultores europeus são cobrados certos padrões, inclusive de sustentabilidade. Temos de proteger essa comunidade para que a transição a esse novo modelo possa ocorrer. E não os expor à concorrência brutal de países como o Brasil, onde a produção de carnes e outros temas ocorre de outra forma.

Mas o acordo entre a UE e o Mercosul também foi uma sinalização política. Como a situação no Brasil é hoje considerada no exterior?

Estamos muito preocupados com o governo de Jair Bolsonaro, principalmente sua forma de lidar com a Amazônia e os povos indígenas. Sabemos que as negociações entre o Mercosul e a UE começaram há 20 anos. Mas sob o atual governo, a preocupação sobre o que ocorreria com esse acordo apenas foi aprofundada.

Não há muita simpatia por Bolsonaro por aqui, para dizer de forma suave. É muito importante apoiar pessoas pelo mundo que estão sob governos brutais, como o de Bolsonaro. O povo indígena brasileiro veio até a Europa e nos pediu que déssemos apoio à sua causa. E eles nos disseram que se aprovássemos o acordo, estaríamos premiando Bolsonaro por tudo o que ele faz. Sempre escolhemos apoiar as pessoas que defendem os direitos humanos e o meio ambiente.

Já vimos votações similares ao que ocorreu na Holanda em outros lugares, como num parlamento regional na Bélgica e na Áustria. A sra. acha que haverá muita resistência pela Europa ao acordo ou são apenas votações isoladas?

Acho que a oposição mostrou que essa resistência é possível. A questão é que, para entrar em vigor, o acordo terá de ser ratificado por todos os países. O nosso claro "não" ao tratado, portanto, significa que o acordo está fora da mesa. A Comissão Europeia simplesmente não pode ir adiante. Nosso Parlamento não ratificará o acordo. O acordo, tal como ele é, não está mais na agenda. Vamos manter essa posição e não vamos descansar.

Tentei por anos colocar o assunto na agenda de meu parlamento. Foram seis tentativas, até que finalmente tínhamos os votos necessários. Tivemos uma maioria, que incluiu desde a extrema-direita à extrema-esquerda. O governo holandês, que é a favor do acordo, pode tentar fazer alguns truques para convencer a Comissão Europeia. Mas a realidade é que não vão conseguir.

Mas há quem acuse vocês de estarem usando a questão climática para justificar o protecionismo comercial.

O protecionismo não é uma palavra ruim. Eu acho que é muito sensato proteger o meio ambiente, os direitos humanos e proteger setores vitais, como agricultores. Sabemos que o protecionismo é usado de uma forma negativa e entendo. Mas precisamos pensar o que é de fato a proteção de uma população e acho que proteger a produção de alimentos para sua população é algo vital para uma comunidade.

Precisamos proteger nossos agricultores para que que cumpram o Acordo de Paris, que protejam o meio ambiente, para que haja saúde animal.

Se estamos pedindo que os fazendeiros façam tudo isso, temos a obrigação moral de os proteger de uma concorrência brutal do Brasil.

Qual a imagem que o Brasil tem hoje em seu país?

Adoramos o Brasil e seu povo. É uma imagem de simpatia, de pessoas que gostam de natureza. Mas a imagem do governo é muito ruim. Estamos muito preocupados. O governo age como Trump e não conseguimos entender. Vimos e apoiamos as pessoas que saiam nas suas janelas no Brasil com panelas. Esperamos que o povo consiga virar a página. O Brasil é o símbolo do mundo, com sua natureza e povo lindo.

Jamil Chade