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Jamil Chade


Investimentos serão cortados em 50% em 2020; Brasil já está sendo atingido

Plataforma de petróleo na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro - Pilar Olivares
Plataforma de petróleo na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro Imagem: Pilar Olivares
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/06/2020 02h00

Os fluxos de investimentos para a América Latina devem diminuir pela metade em 2020 e o Brasil já está sendo atingido de maneira profunda. Os dados estão sendo publicados nesta terça-feira pela ONU. No mundo, a pandemia do coronavírus deve fazer o montante de investimentos recuar em 15 anos e, segundo os especialistas, há um potencial de modificar até mesmo a forma de produção.

De acordo com o informe anual da entidade, a América Latina deve ser uma das mais afetadas. Em 2019, a região recebeu US$ 164 bilhões, dos quais US$ 72 bilhões foram exclusivamente ao Brasil. Neste ano, a queda pode ser de 55%.

Para a agência, a pandemia gera tanto uma agitação política e social quanto evidencia as fraquezas estruturais da região. "Isso empurra as economias da região para uma profunda recessão e exacerbando os desafios para atrair investimentos estrangeiros", disse o diretor de Investimentos da Conferência da ONU para Desenvolvimento e Comércio, James Zhan.

Segundo ele, commodities, turismo e transporte estão entre os mais severamente atingidos.

"Os baixos preços do petróleo e das commodities prejudicarão os investimentos nas principais economias da América do Sul - Colômbia, Brasil, Argentina, Chile e Peru - que dependem do investimento estrangeiro direto (IED) nas indústrias extrativas", disse o estudo. Na indústria manufatureira, o setor automotivo e têxtil estão sofrendo choques tanto de oferta quanto de demanda.

Os primeiros indicadores mostram uma queda de 36% no número de novos projetos anunciados no primeiro trimestre deste ano na América Latina. A projeção é ainda considerada como sendo conservadora, pois a maior parte do impacto sobre os projetos será evidente a partir de abril, quando as quarentenas começaram a ganhar contornos sociais e econômicos.

No Brasil, os dados do primeiro trimestre em termos de fluxo de equity mostram uma queda de 50%. Outro fator que deve pesar no país é a crise no setor de extração de petróleo. Pelo mundo, dados mostram queda de demanda e nos preços, o que já se traduz em queda de investimentos. No Brasil, porém, a extração de petróleo representa 32% dos investimentos.

No setor de energia, investimentos estrangeiros sofreram queda de 77% no primeiro trimestre no Brasil. O número de novos projetos no setor caiu em 25%, contra uma queda de 40% na mineração. No setor automotivo, a queda de investimentos nos primeiros três meses do ano foi de 64%. Para completar, a ONU estima que o programa de privatizações deve ser adiado.

O resultado foi sentido em toda a América Latina. O número de aquisições estrangeiras na região, por exemplo, diminuiu a cada mês em relação à média de 2019. Em abril, a contração foi de 78%.

As paralisações, a queda da demanda e o acesso limitado ao comércio estão empurrando as empresas para perdas consideráveis. Desde o início de fevereiro, grandes empresas da região revisaram suas expectativas de lucros para o ano fiscal de 2020 em mais de 50% para baixo, mais do que empresas de outras regiões.

Na avaliação da ONU, os sinais de relaxamento de medidas de distanciamento social podem prolongar a crise de saúde na região, o que também ameaça a própria recuperação. Além disso, as economias da região serão fortemente afetadas pela desaceleração da demanda global, particularmente em seus parceiros comerciais, notadamente a China e os Estados Unidos.

No mundo, recuperação só começa em 2022

De acordo com o informe, a média de contração de investimentos no mundo será de 40% em 2020. O ano de 2019 havia fechado com US$ 1,54 trilhão em fluxos de capital. Mas o tombo traria o novo nível para menos de US$ 1 trilhão pela primeira vez desde 2005.

A queda não terminará em 2020 e, para o próximo ano, a contração deve ser de mais 10%. Uma recuperação, portanto, só seria recomeçada em 2022.

"O panorama é altamente incerto. As perspectivas dependem da duração da crise de saúde e da eficácia das políticas que mitigam os efeitos econômicos da pandemia", disse o secretário-geral da UNCTAD, Mukhisa Kituyi.

A perspectiva de uma recessão profunda levará as empresas multinacionais a reavaliarem novos projetos. De acordo com a entidade, as 5 mil maiores empresas do mundo viram seus ganhos caírem em média em 40%, com algumas indústrias mergulhando em prejuízos. Lucros menores, portanto, representam queda de investimentos.

"Os primeiros indicadores confirmam o imediatismo do impacto", diz a ONU. "Tanto os anúncios de novos projetos de investimento quanto as fusões e aquisições internacionais caíram mais de 50% nos primeiros meses de 2020, em comparação com o ano passado", apontou.

Aumento do fluxo ao Brasil em 2019 permitiu superar Reino Unido e Alemanha

A queda em 2020 ocorre depois de um aumento do fluxo de investimentos para a região em 2019. O ano viu um incremento de 10% no fluxo, impulsionado pelo Brasil, Chile e Colômbia.

O Brasil registrou um aumento de 20% nos investimentos, atingindo US$ 72 bilhões. O capital foi atraído pelas indústrias de extração de petróleo e gás e eletricidade e apoiados por um programa de privatizações.

Com o aumento, o país do nono maior destino de investimentos no mundo em 2018 para a sexta colocação, superando Reino Unido, Alemanha ou França.

"As condições econômicas pareciam melhorar no país, e um amplo programa de privatização foi lançado em julho como parte dos esforços do governo para relançar a economia. Durante os primeiros nove meses de 2019, o governo levantou cerca de US$ 20 bilhões através de privatizações e desinvestimentos, US$ 1,4 bilhão em pagamentos por direitos de operação de infra-estrutura e cerca de US$ 3 bilhões em "vendas de ativos naturais", constituídos principalmente pelas áreas de exploração de petróleo da Petrobras controladas pelo Estado", apontou a ONU.

"A primeira e maior dessas privatizações envolveu uma empresa de distribuição de gás - Transportadora Associada de Gás - comprada por um consórcio de investidores liderados pela Engie (França) por quase US$ 8,7 bilhões", indicou.

"Para 2020, o governo esperava poder vender mais US$ 35 bilhões de ativos; entretanto, como a pandemia do coronavírus está levando a economia de volta à recessão, a volatilidade associada à crise piorou as condições de venda, forçando as autoridades a adiar a maior parte das vendas anunciadas de ações", afirmou a ONU.

"Da mesma forma, as transações que aguardam aprovação regulatória foram interrompidas. Elas incluem, por exemplo, a tão esperada venda da Eletrobras - a maior concessionária de energia da América Latina - e a venda de oito refinarias pela Petrobras no valor de US$ 10 bilhões", constatou a ONU.

"As vendas de ativos de exploração e produção de petróleo provavelmente serão as mais afetadas pela queda nos preços do petróleo, que apagou mais da metade do valor de mercado da Petrobras", alertou. "A indústria de energia renovável atraiu um número crescente de projetos nos últimos anos também está passando por uma desaceleração após o surgimento da COVID-19. O governo está adiando indefinidamente uma série de leilões de ativos de transmissão e geração até que a pandemia se instale", completou.

Já os investimentos da região no mundo cresceram em 2019 e atingiram US$ 42 bilhões. Os maiores aumentos foram registrados no Brasil, México e Chile. De acordo com a ONU, as empresas brasileiras parecem ter suspendido sua prática de repatriar recursos de suas subsidiárias no exterior para financiar operações em casa. Um dos motivos seria a queda da taxa de juros doméstica.

Da posição de número 160 no mundo, em 2018, o Brasil subiu para a 20a colocação como maior investidor no mundo. No ano passado, foram US$ 16 bilhões de fluxo para fora do país. Pesou nessa conta a aquisição da loja de departamentos Éxito (Colômbia) do Groupe Casino (França) pela Cia Brasileira de Distribuição por quase US$ 1,1 bilhão.

Jamil Chade