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Jamil Chade


No Itamaraty, descendente do Império diz que Brasil não tem problema racial

O assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, com Bertrand Orleans e Bragança no Itamaraty - Divulgação
O assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, com Bertrand Orleans e Bragança no Itamaraty Imagem: Divulgação
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/06/2020 20h23

Em pleno debate sobre a violência policial e os protestos contra o racismo no mundo, um descendente da família real afirmou num seminário do Itamaraty que o Brasil "não tem problema racial". A afirmação é de Bertrand de Orleans e Bragança, numa palestra promovida nesta terça-feira.

"Estão tentando criar esse problema", disse. "Aqui, todos nos damos bem", garantiu. Ao falar das qualidades do país, ele citou a existência de um povo "pacífico", mas também marcado pela "doçura e lealdade".

O convidado foi apresentado como uma pessoa que descende da casa real francesa, austríaca e portuguesa, além de uma "longa tradição de heróis, reis e santos".

Entre seus feitos está ainda a publicação de um livro sobre a "psicose ambientalista", numa crítica ao movimento verde. Na mesma palestra, ele ainda afirmou que a floresta tropical não pegava fogo, nem com "lança-chamas".

No material de promoção do evento, Orleans e Bragança foi apresentado como "S. A. I. R.". Ou seja, "Sua Alteza Imperial Real", um título que desapareceu no país com a chegada da República, há mais de cem anos. A palestra com o suposto nobre foi mais um encontro numa série promovida pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) - órgão ligado à chancelaria - para avaliar o mundo "pós-pandemia".

Questionado sobre o que deve ser feito para defender estátuas sob ataque nos EUA e Europa, ele da sua receita: "saber defender nossas tradições, apoiar nossa polícia".

O "príncipe" ainda apontou que o movimento monárquico "nunca foi tão forte como hoje". Segundo ele, "é mais fácil defender hoje os valores da monarquia que há dez anos".

Mas ele alerta: "não adianta impor uma monarquia de cima para baixo". Uma eventual volta dependeria de um pedido da nação.

Ele ainda tentou explicar o que é um monarca. "A fazenda é um pequeno monarca", disse. "Um português em sua padaria. Ele é o monarca", explicou. "A Monarquia Parlamentarista deu certo no Brasil", disse.

Mortes

No mesmo dia em que ele discursava no Itamaraty, mais de cem entidades brasileiras foram à ONU para denunciar o racismo no país.

Segundo a Coalizão Negra por Direitos, em 2017, dos mais de 65.000 homicídios no Brasil, 49.500 eram afro-brasileiros. "Entre 2007 e 2017, mais de 400.000 afro-brasileiros foram mortos sob violência policial, disputas entre gangues, mas acima de tudo, vítimas de discriminação racial histórica e racismo estrutural no Brasil", denunciaram as entidades.

"O brutal assassinato de George Floyd demonstra isso através das revoltas e manifestações nas ruas, e a demanda por justiça racial é global", afirmam as organizações. "No Brasil, apoiamos essa luta e esses protestos, e exigimos justiça para todos os nossos jovens e para a população negra", disseram.

"O Brasil é um país em dívida histórica com sua população negra. Não há democracia, cidadania ou justiça social sem o compromisso público de reconhecer o movimento negro como detentor de direitos e lutar contra a brutalidade policial", alertaram.

"Além disso, centenas de quilombolas estão ameaçados de expulsão de suas terras devido a projetos econômicos, especialmente na Amazônia brasileira", completaram.

Jamil Chade