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Jamil Chade

Em telegrama, Itamaraty admite risco de barreira da China contra Brasil

Bolsonaro presenteia Xi Jiping com camiseta do Flamengo - Reprodução/Twitter
Bolsonaro presenteia Xi Jiping com camiseta do Flamengo Imagem: Reprodução/Twitter
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/06/2020 14h41

Num alerta enviado pela embaixada do Brasil em Pequim, o Itamaraty admite que existe o risco de que as exportações nacionais de carnes sejam alvos de barreiras por parte da China. Hoje, mais de um terço das vendas de carne do Brasil ao exterior tem o mercado chinês como destino.

O documento foi transmitido, em primeiro lugar, para o Itamaraty, em Brasília. A chancelaria, por sua vez, retransmitiu o texto para o setor privado no dia 17 de junho (quarta-feira), na esperança de alertar os exportadores.

O texto é claro: "na esteira do novo foco de COVID-19 em um mercado de alimentos nesta capital (Pequim), no dia 11/06/2020, as autoridades locais estão adotando medidas preventivas que poderão afetar as exportações brasileiras de produtos cárneos para o mercado chinês".

De acordo com a embaixada, pesquisadores do Centro para Prevenção e Controle de Doenças (CPCD) anunciaram que, segundo dados preliminares, "o vírus seria de uma variedade que passou por mutação na Europa". "O CPCD estuda a hipótese de que a contaminação possa ter ocorrido por meio de salmão importado. Embora pescados não possam ser vetores da doença, argumenta-se que o produto poderia ter sido contaminado durante a captura ou o transporte", diz o documento.

"Como medida preventiva, o Bureau Municipal para Regulação de Mercado anunciou que reforçará a inspeção sobre alimentos frescos e carnes congeladas. Diversos municípios chineses, por sua vez, determinaram a suspensão da importação e comercialização de pescados e carne bovina importados", indicaram.

O texto diz que, segundo empresários brasileiros, "grandes empresas importadoras foram orientadas por autoridades governamentais a realizar testes de ácido nucleico em amostras de carnes importadas, durante o processo de desembaraço aduaneiro".

"Devido aos custos e incertezas, alguns importadores suspenderam as compras e solicitaram que cargas já contratadas não sejam embarcadas", informa a embaixada.

"A depender dos resultados da investigação sobre a origem da contaminação no mercado de alimentos de Pequim, as autoridades chinesas poderão, eventualmente, impor restrições à importação de produtos cárneos brasileiros e/ou solicitar maiores informações sobre as medidas preventivas adotadas pelos frigoríficos para evitar a contaminação dos alimentos a serem exportados", completa a nota do Itamaraty.

Pandemia

Criticada internamente pela cúpula do governo brasileiro, a China é o principal destino das exportações nacionais e colocou a Ásia como destino de mais de 42% de todas as vendas nacionais. Essa posição ficou ainda mais consolidada durante a pandemia.

Entre janeiro e abril, as exportações brasileiras para a América do Norte caíram 18,5% e ainda sofreram uma contração de 21% para a América do Sul. Uma queda de 3,5% também foi registrada na Europa. Já para a Ásia, a alta foi de 15,5%, com a China registrando sozinha um salto de 11%.

Contando apenas o mês de abril, a China chegou a comprar 53% de tudo o que o Brasil exportou em termos de volumes.

De acordo com a FGV, a China representa 32,5% das exportações brasileiras nos cinco primeiros meses do ano. Quase 80% desse total é composto por commodities. As carnes, sob risco de um novo embargo, representam 10% de tudo o que o Brasil vende para a China.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL