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Jamil Chade


Dois meses depois, Brasil agora pede para integrar aliança por vacinas

18.mai.2020 - Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva virtual - China News Service via Getty Images
18.mai.2020 - Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva virtual Imagem: China News Service via Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

26/06/2020 05h59

Após meses esnobando iniciativas da OMS e tecendo críticas à organização e sua direção, o governo brasileiro agora escreve para as principais entidades internacionais na esperança de fazer parte da aliança que está sendo construída para acelerar o desenvolvimento de vacinas e tratamentos.

Mas, para que faça parte, europeus e outros parceiros já avisaram: o Brasil terá de contribuir financeiramente.

O projeto é ambicioso e poderia ser decisivo. As entidades querem US$ 31,3 bilhões nos próximos doze meses para lidar com a pandemia do coronavírus. O grupo admite que o confinamento indefinido de populações como instrumento para lutar contra o vírus não é sustentável, ainda que tenha sido fundamental.

O projeto quer distribuir 500 milhões de testes até meados de 2021 aos países em desenvolvimento e 2 bilhões de doses de vacina, além de 245 milhões de tratamentos. Para o grupo, a aliança precisará imediatamente de US$ 13,7 bilhões.

Ainda que significativo, o volume é apenas uma fração do que tem sido o impacto da pandemia, estimado em US$ 337 bilhões por mês à economia global. Além disso, 100 milhões de pessoas podem ser jogadas a uma situação de pobreza.

A percepção é de que não há como manter as populações confinadas de forma indefinidas e instrumentos de testes serão necessários como resposta. Uma solução definitiva, porém, só viria com a vacina.

"Pode parecer muito dinheiro. Mas se não gastarmos bilhões, teremos prejuízos de trilhões", alertou Ngozi Okonjo-Iweala, enviada da OMS para a aliança.

Confinamento é insustentável. Mas testes precisam ser produzidos

Para o responsável pela área de diagnósticos da Aliança, Peter Sands, os confinamentos prolongados das populações não terão como continuar e a única solução é testar. Mas, para isso, investimentos terão de ser realizados.

"Nos países em desenvolvimento, o confinamento não é sustentável. Famílias precisam suas rendas e governos não têm como compensar essa perda de renda", disse. Ao mesmo tempo, o sistema de saúde não está dando conta. "O teste é a real resposta. Mas, para isso, precisam de diagnósticos", afirmou Sands, que é ainda o diretor-executivo do Fundo Global para a luta contra a Aids.

Sua meta é a de produzir e distribuir 500 milhões de testes em doze meses, além de treinar 10 mil pessoas. No total, a operação irá exigir US$ 6 bilhões, dos quais US$ 2 bilhões terão de chegar imediatamente.

Na próxima semana, o mundo atingirá 10 milhões de casos da doença. Mas o que assusta a OMS é de que, por enquanto, a pandemia continua a se acelerar. Por dia, são mais de 130 mil casos em média na última semana.

De acordo com a OMS, países com maior índice de transmissão serão alvos de uma operação emergencial, a partir de um estoque global. Mas critérios ainda serão estabelecidos. Nesse cenário, o Brasil poderia estar entre os locais considerados como prioritários.

No setor de terapia, o diretor-executivo da entidade Unitaid, Philippe Duneton, indica que serão necessários US$ 7,2 bilhões para produzir 245 milhões de tratamentos.

Mas a grande aposta é a vacina. Soumya Swaminathan, cientista chefe da OMS, estima que o esforço vai exigir US$ 18 bilhões. A brasileira Mariangela Simão, vice-diretora-geral da OMS, é quem pilota a operação de distribuição. "Teremos limites e precisamos ser realistas", afirmou. Um plano começa a ser detalhado agora para definir quem vai receber primeiro.

Também pesará as necessidades de saúde pública de cada país e a taxa de transmissão. Se vacina estivesse pronta hoje, o Brasil seria um dos principais destinos. Mas, como tal distribuição irá demorar pelo menos mais nove meses para ocorrer, a realidade pode mudar.

Um dos planos é de que se crie um estoque central e que permitiria que a vacina fosse destinada aos locais que enfrentem um surto. Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, afirmou nesta sexta-feira que o Itamaraty solicitou seu ingresso no projeto. "Damos as boas vindas", disse o executivo, sem dar detalhes.

Carta do Itamaraty

Em abril, quando o projeto foi lançado, o Itamaraty sequer foi convidado para a cúpula. Naquele momento, o Ministério da Saúde informou à coluna que tinha "outros projetos" de aliança. Foram necessários quase dois meses para uma mudança de postura. Entre os dias 8 e 9 de junho, o governo brasileiro enviou cartas aos principais atores envolvidos no projeto indicando a vontade de participação. Além da OMS e da UE, a iniciativa conta com entidades como a Unitaid e Gavi, líderes na distribuição internacional de tratamentos e vacinas.

"O acesso a produtos de saúde acessíveis, seguros, de qualidade e eficazes é uma prioridade máxima permanente para o Brasil, tanto em fóruns internos como internacionais", escreveu a embaixadora do Brasil na OMS, Maria Nazareth Farani Azevedo. "Isto só foi reforçado no caso da Covid-19", disse. "Como foi dito pelo Brasil e muitos outros, somente o acesso universal e rápido a uma solução econômica, segura, rápida e eficaz nos tornará igualmente seguros e capazes de superar a pandemia", escreveu.

Para se credenciar para a aliança, o Itamaraty indicou que "no nível doméstico, o Brasil empreendeu uma série de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação envolvendo os setores público e privado, academia e start-ups em um esforço considerável para combater a Covid-19 através de novos testes, vacinas, respiradores, aplicativos para smartphones e outras tecnologias".

"Em conjunção com nosso compromisso político e nossa agenda diplomática no acesso a medicamentos, o Brasil tem uma reconhecida comunidade científica e capacidade reconhecida para fabricar produtos de saúde, incluindo vacinas, e empresas farmacêuticas nacionais de primeira classe e institutos públicos", escreveu a diplomata.

Na visão da embaixadora, tais elementos "credenciam" o Brasil par ser um "parceiro chave" para alcançar as metas estabelecidas pela aliança.

A coluna apurou, porém, que os demais parceiros querem saber do Brasil quanto é que o governo vai enviar em recursos para o projeto, algo que a carta do Itamaraty não esclarece. Todos os participantes, inclusive os africanos, anunciaram ainda em abril o envio de dinheiro para um fundo comum.

Pelo projeto, a vacina que for produzida será de acesso universal e patentes não serão obstáculos para garantir que populações tenham acesso ao produto. "Queremos que haja um entendimento claro de que a vacina será um bem público mundial", disse nesta semana o ministro da Saúde da França.

Por enquanto, porém, não está definido de que maneira a participação brasileira ocorreria. Mas esperança é de que haverá uma espécie de cota extra de eventuais vacinas para os países mais afetados.

Hoje, o Brasil é o país que registra o maior número de casos nos últimos 14 dias, período de incubação do vírus.

Enquanto o projeto começa a ganhar forma, a OMS começa a desenhar nos bastidores sua estratégia de como realizar a vacinação em massa, a partir de 2021.

Num primeiro momento, as primeiras doses serão enviadas para os profissionais de saúde. A ideia é de que essa parcela da população precisa estar protegida para poder cuidar dos infectados.

Em segundo lugar, a vacinação será destinada às pessoas com mais de 65 anos, as mais afetadas e com maior taxa de mortalidade.

Não há, porém, um acordo sobre como tal produto, uma vez confirmada sua eficiência, será distribuído pelo mundo.

A realidade, segundo Tedros Ghebreyesus, é que o mundo vai precisar de vacinas e diagnósticos "em quantidade sem precedentes e numa velocidade sem precedentes". Andrew Witty, administrador da aliança, esse é um "desafio único no mundo". Além da produção, o grupo terá de chegar a um acordo para que os novos remédios não fiquem penas nas mãos dos mais ricos.

Jamil Chade