PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Jamil Chade


OMS: crise no Brasil exige união e políticos precisam se "olhar no espelho"

Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durate entrevista coletiva em Genebra -
Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durate entrevista coletiva em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

29/06/2020 13h41

Resumo da notícia

  • Segundo OMS, um quarto das mortes nas Américas ocorre no Brasil

Mergulhado em um surto que não dá sinais de perder força, o Brasil precisará de união nacional e maior coordenação entre os diferentes níveis de governos se quiser vencer o vírus. O alerta é da OMS que, diante de uma situação considerada com "difícil" nas Américas, aponta que chegou o momento de governos deixarem de lado a politização.

Num duro recado e respondendo a uma pergunta da coluna sobre o Brasil, a agência indicou que a pandemia não poderá ser vencida se o debate ideológico continuar.

A mensagem foi dada no momento em que o vírus completa seis meses e que a América Latina se consolida como principal epicentro da crise.

De acordo com a OMS, 26% de todos os casos e mortes no continente americano ocorrem hoje no Brasil. "Nas Américas, a situação é difícil", afirmou Mike Ryan, diretor de operações da OMS. Segundo ele, o Brasil hoje representa uma "grande proporções" de caso da região.

"O Brasil ainda enfrenta um grande desafio", disse, apontando para os mais de 30 mil casos diários nos 27 estados. Para o chefe de operações, uma estratégia ampla ainda precisa ser adotada, o que incluiria um maior trabalho par rastrear pessoas que tiveram contato com doentes.

Segundo ele, o Brasil precisa de um "resposta global em todos os níveis" e destaca que a taxa de infecção continua elevada. Para ele, centros urbanos densos, serviços ruins e dificuldades para atender pessoas no meio rural estão entre os principais desafios.

Ryan admite que seria errado subestimar o tamanho do país e elogia a capacidade dos cientistas. Mas, de uma maneira diplomática, deixou claro que parte das dificuldades vem da falta de coerência entre governos estaduais e o governo federal. Para ele, o país precisa maior coordenação entre esses níveis de governo.

En seu alerta, ele pediu que "esforços federais e estaduais sejam ligados de forma mais sistemática" e que o foco seja no controle da doença. Para Ryan, isso deve ocorrer de maneira consistente.

Ao responder a pergunta, o representante da OMS optou por não citar países específicos. Mas criticou a politização do vírus.

Para ele, a crise é de tal dimensão que sociedades e partidos precisam optar pela união, ainda que tal estratégia represente dar a um pessoa que estamos em descordo a liderança no processo.
"Não podemos deixar que a luta contra esse vírus seja uma luta ideológica. Não vamos vencer o vírus com ideologias", insistiu.

Em muitos países, o governo é o governo que temos naquele mometo. E precisamos encontrar um forma para que cada governo encontre uma saída.

evitar politizado vale para todos os lados. Dar apoio para um governo que possa naa7o ser de nossa escolha. é a dificuldade de uma união nacional. Quando opta por isso, não escolhe que lidera nessa luta. Esse é o desafio para todos os países.

Para Ryan, também chegou o momento de que "todos se olhem no espelho" e se questionem se de fato estão fazendo o suficiente. "Todos os políticos precisam se perguntar: estou fazendo o suficiente?". "Temos de ter uma conversa", afirmou. "Não podemos mais perder tempo", disse.

No dia 31 de dezembro de 2019, a agência receberia o primeiro alerta oficial de um surto na China. Um mês depois, a emergência global seria declarada, quando existiam apenas doze casos fora da China.

Hoje, são 10 milhões de infectados e mais de 500 mil mortes. Mas, acima de tudo, a OMS se diz preocupada com a alta no número de casos em países que, depois de obter um certo controle da doença, voltaram a registrar importantes aumentos de novas infecções.

No Brasil, são 1,3 milhão de casos e 57 mil mortes. Nos últimos 30 dias, o país foi o local que mais registrou novos casos no mundo. Em média, nos últimos dias, 20% de novos infectados no mundo estão no Brasil.


Rastrear

Insistindo que é o momento de governos "tomarem o lado da ciência", a OMS afirmou nesta segunda-feira que governos não devem esperar pela vacina para agir e que existem exemplos reais de países que frearam a doença por meio do rastreamento de pessoas que tiveram contato com doentes.

Testar e identificar casos, portanto, é considerado ainda pela OMS como "a melhor estratégia". "Funciona", disse Ryan, lembrando como governos de várias partes do mundo demonstraram que a estratégia teve êxito.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, rejeita o argumento de governos de que rastrear casos é difícil. "Essa é um desculpa esfarrapada", disse. "Não há desculpas", insistiu. Para ele, governos que estão fracassando na resposta são aqueles que justamente fracassaram nesse ponto de identificar os casos.

Politizada

Sem citar nomes, Tedros também criticou governos e lideranças que têm "politizado" a pandemia e insistiu que o vírus pode ser barrado, mesmo sem a vacina. Para isso, porém, governos precisam investir em testes, isolamento e rastreamento de casos.

"Há como parar o vírus", disse. "O governo precisa assumir sua responsabilidade e a comunidade precisa fazer seu papel", afirmou.

Na avaliação de Tedros, a Coreia do Sul é um exemplo de um país que conseguiu, sem a vacina, romper a cadeia de contaminação.

Jamil Chade