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Jamil Chade


Brasil não depositou um centavo sequer à FAO em 2020 e tem 2ª maior dívida

Logo da FAO na sede da organização, em Roma - Alessandro Bianchi
Logo da FAO na sede da organização, em Roma Imagem: Alessandro Bianchi
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/07/2020 05h23

Quando a cúpula da FAO se reunir na semana que vem, em Roma, para seu encontro anual, delegados vão receber e debater um documento que traz o Brasil como destaque. Não se trata de uma avaliação sobre o avanço no combate à fome no mundo. Mas sim dos devedores da organização.

Hoje, o Brasil soma a segunda maior dívida de um país com a FAO, superado apenas pelos EUA. Em 2020, nenhum centavo foi depositado nas contas da entidade.

No total, segundo os documentos oficiais, o Itamaraty deve US$ 4,4 milhões e 7,1 milhões de euros em relação às contribuições obrigatórias que deveriam ter sido pagas em 2019. O dinheiro financia as atividades da entidade que serve como principal braço da ONU na luta contra a fome no mundo.

Somando os pagamentos de 2020, que tampouco foram realizados, o Brasil deve US$ 12,4 milhões e outros 12,7 milhões de euros. Para equilibrar entre as diferentes moedas, o orçamento da FAO é dividido em euros e dólares,

O Brasil só não deve mais que os EUA, com um buraco de US$ 19 milhões e 26 milhões de euros. A diferença, porém, é que a contribuição brasileira para a entidade é apenas uma fração do que os americanos teriam de destinar.

Um ano depois da conclusão do mandato de quase uma década do brasileiro José Graziano da Silva no comando da FAO, o Brasil faz parte de uma vergonhosa lista de cerca de 50 países que não enviaram sua parcela de dinheiro para a entidade em 2020.

A lista, porém, é formada quase que exclusivamente por países extremamente pobres da África, além de Venezuela e Irã.

O problema não se limita à FAO. Rejeitando o multilateralismo, o Brasil deixou de pagar as organizações internacionais. Se os problemas de contribuição já existiam no governo de Dilma Rousseff, eles explodiram sob a gestão de Ernesto Araújo. Na ONU, o Brasil também soma a segunda maior dívida do mundo com a entidade.

Araújo, que vem solicitando que diplomatas saiam em busca de seus feitos em um ano e meio para tentar se manter no cargo, tem assustado a comunidade internacional com seu tom radical no combate ao comunismo, insinuando que são essas entidades internacionais que estariam na liderança de uma agenda progressista ameaçadora para os interesses nacionais.

O resultado é a inesperada aliança do Brasil a países como a Arábia Saudita em temas como direito das mulheres e gênero.

Jamil Chade