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Jamil Chade


Bolsonaro é denunciado na ONU por ataques contra mulheres jornalistas

Presidente Jair Bolsonaro durante entrevista coletiva em Brasília -
Presidente Jair Bolsonaro durante entrevista coletiva em Brasília
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/07/2020 08h55

O presidente Jair Bolsonaro é, uma vez mais, denunciado no Conselho de Direitos Humanos. Desta vez, o ato se refere a seus ataques contra mulheres jornalistas. No total, entidades vão relatar em Genebra 54 casos de ofensivas do governo contra as profissionais.

A denúncia ocorre depois que a violência contra mulheres jornalistas foi apresentada nesta semana na entidade como tema da relatora especial das Nações Unidas sobre a Violência contra a Mulher, suas Causas e Consequência, Dubravka Simonovic. Em um informe detalhado, ela revela como governos têm usado instrumentos para desonrar, desacreditar e humilhar as jornalistas.

Para apresentar o caso brasileiro, a jornalista Bianca Santana tomará a palavra nesta terça-feira. Em maio, ela foi acusada pelo presidente de escrever 'fake news', depois que publicou um artigo sobre a relação entre familiares e amigos de Bolsonaro com os acusados de assassinar a vereadora Marielle Franco.

Ela fala em nome de diversas entidades, entre elas Agência de Notícias Alma Preta, Artigo 19, Casa Neon Cunha, Coalizão Negra por Direitos, Cojira-SP - Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de São Paulo, Federação Nacional dos Jornalistas, Instituto Marielle Franco, Geledés - Instituto da Mulher Negra, Gênero e Número, Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos, Instituto Vladimir Herzog, Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social e Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

Também apoiam a denúncia a Rede Nacional de Proteção a Comunicadores, Repórteres Sem Fronteiras, Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, Sempreviva Organização Feminista, Terra de Direitos e Uneafro Brasil.

Segundo ela, desde o início do atual governo, as jornalistas foram atacadas pelo presidente ou seus ministros por, pelo menos, 54 vezes[, um número sem precedentes na história recente do país. "O Estado brasileiro tem a obrigação de garantir um ambiente seguro para as mulheres jornalistas", diz Bianca Santana.

"As organizações apontam também a gravidade de um cenário em que agressões são reafirmadas, legitimadas e praticadas por autoridades públicas, inclusive pela cúpula do governo federal, violando obrigações assumidas internacionalmente pelo Estado brasileiro", afirma o grupo em um comunicado.

"Os casos, que articulam declarações públicas, ataques virtuais e consequências concretas na vida e na saúde de mulheres comunicadoras, criam um ambiente ainda mais hostil para o exercício da atividade profissional das jornalistas, para a liberdade de imprensa e para a participação de mulheres no espaço público", alertam as ong.

Brasil patrocina resolução pela liberdade de expressão

O governo, porém, vai usar a mesma sessão da ONU para patrocinar uma resolução em que pede a defesa da liberdade de expressão e de imprensa, gesto interpretado como "cínico" por parte de entidades nacionais e estrangeiras.

No início do ano, o governo já tinha sido alvo de questionamentos por conta de seus ataques contra as profissionais.

"Bolsonaro tem tratado a imprensa e os jornalistas como seus inimigos", alertou naquele momento Gustavo Huppes, da Conectas e em nome de diferentes organizações de imprensa no país. "De acordo com um relatório da Federação Nacional de Jornalistas, em 2019 quase dez ataques à imprensa foram feitos pelo presidente a cada mês", apontou.

"Os ataques não são apenas de mande através de declarações como também através de medidas concretas. Jornais foram proibidos de cobrir viagens presidenciais, por exemplo", atacou.

Em especial, Huppes apontou para a situação das mulheres jornalistas no Brasil. "Ofensas sexistas e misóginas, com a clara intenção de prejudicar a credibilidade e intimidar as jornalistas femininas estão se tornando mais comuns e aplicadas pelas autoridades governamentais, incluindo o próprio presidente", disse.

Entre as jornalistas citadas está Constança Rezende, além de Patrícia Campos Mello, Vera Magalhães e Miriam Leitão.

"Elas são vítimas de uma campanha de difamação, especialmente através das mídias sociais, que tem sido apoiada publicamente pelo presidente, importantes autoridades e membros do Congresso brasileiro", declarou.

Jamil Chade