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Jamil Chade


OMS lança investigação interna. Mas quer que governos se "olhem no espelho"

Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durate entrevista coletiva em Genebra -
Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durate entrevista coletiva em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

09/07/2020 08h22

Resumo da notícia

  • OMS diz que pandemia ainda se acelera e que não está sob controle
  • Agência faz anúncio de auditoria um dia depois de receber notificação oficial de retirada do governo americano

Pressionado e alertando que a pandemia "se acelera" e está fora de controle, Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, anuncia o início de uma avaliação independente de sua resposta à pandemia e de sua agência. Mas também quer que os governos "abram seus livros" e se "olhem no espelho" sobre como cada um deles respondeu à pior crise sanitária em décadas.

Em maio, governos aprovaram uma resolução pedindo a abertura de uma investigação em relação à resposta da OMS à crise. Governos como o do Brasil, EUA e outros questionaram a forma pela qual a agência reagiu em janeiro diante do vírus e da influência da China.

Agora, a decisão de anunciar o início do processo ocorre dois dias depois que o presidente americano Donald Trump oficializou su decisão de se retirar da entidade, o maior golpe político na história da OMS.

Nesta quinta-feira, Tedros fez o anúncio, indicando o nome de investigadoras independentes que irão lidar o processo, até novembro. Naquele momento, um primeiro informe será apresentado e, em maio de 2021, uma auditoria final será submetida.

Mas o diretor ainda sugeriu uma avaliação mais ampla que os governos mais críticos queriam: o exame também da ação de cada um dos países. "Precisamos ter um avaliação honesta. Não é um informe para colocar na prateleira", disse. "Esse é momento para auto-reflexão", disse.

O recado foi recebido por diplomatas como um alerta de que o exame independente vai querer também saber como cada um dos governos reagiu, se atendeu às recomendações ou se ignorou os alertas mundiais.

No caso brasileiro, a percepção interna na ONU e na OMS é de que vidas teriam sido salvas se o governo tivesse dado ouvidos às orientações. Jair Bolsonaro, ao lado de Donald Trump, foram considerados como os líderes num movimento de negação.

Agora, o trabalho será liderado por Helen Clark e Ellen Johnson Sirleaf, ex-primeiras-ministras da Nova Zelândia e Libéria, com uma equipe independente. As duas terão a missão de "entender o que ocorreu" e também o que se deve fazer para "impedir a mesma tragédia no futuro".

"O objetivo é de que o mundo esteja preparado para uma nova pandemia e que se possa dizer: nunca mais", afirmou Tedros. "O vírus sequestrou o mundo e isso precisa acabar", disse.

Maior ameaça é falta de líderes

Mas a OMS vai pedir para que governos em todo o mundo "abram seus livros" para as relatoras e que países sejam avaliados.

Segundo Tedros, o mundo sempre tirou lições de pandemias. Mas a covid-19 mostrou que muito mais terá de ser feito. "Por anos, avisamos que isso (pandemia) era inevitável. Apenas de todos os alertas, o mundo não estava pronto", lamentou. "Essa é um hora de uma reflexão honesta. Temos de olhar no espelho. Na OMS e governos. Todos", insistiu.

Para o diretor, o mundo está "no meio da maior batalha de nossas vidas". "A ameaçada não vai desaparecer e vai piorar", alertou.

"Precisamos olhar para nossas respostas nacionais e como compartilhamos informação. Como somos governados e se nossa arquitectura funciona", indicou. "Estamos prontos para ter uma reflexão honesta? E aprender as grandes lições", disse.

Num ataque frontal a presidentes pelo mundo, Tedros ainda alertou que a maior ameaça que o mundo atravessa não é o vírus. "A maior ameaça não é vírus. Mas a falta de liderança e solidariedade", disse.

Ele ainda criticou a divisão política no mundo, criada diante da pandemia. "Será que não podemos entender que as divisões entre nós é a vantagem para o vírus?", questionou.

"Essa é a crise definidora de nossa era e mostra que só juntos podemos avançar", insistiu. "O vírus sequestrou o mundo e isso precisa parar", defendeu. "O vírus não faz distinção política e explora desigualdades, aprofundando as diferenças entre nós. A lição crítica: quando é saúde, nossos destinos estão ligados", disse.

Descontrole e pandemia se acelera

Na OMS, o sentimento é de que não existe qualquer sinal por enquanto de um controle do vírus e Tedros lembrou hoje como até países ricos enfrentam problemas. "Na maior parte do mundo, o vírus não esta sob controle. Ele está piorando", disse.

Segundo o diretor, são mais de 544 mil mortes. "A pandemia ainda está se acelerando. O número dobrou em seis semanas", alertou.

De acordo com ele, a crise está desfazendo ganhos sociais de décadas, centenas de crianças estão perdendo a vacinação de outras doenças e estoques de remédios estão acabando para lidar com o HIV.

Uma parte do mundo pode ser jogada pelo abismo, disse. "As pessoas estão com fome. Podemos ver a pobreza visivelmente", insistiu. No total, o risco é de que o mundo conte com 270 milhões de novos famintos em 2020.

"Essa é uma crise sem precedentes", afirmou. "Não há resposta fácil e nem solução rápida. Mas alguns controlaram. precisamos aprender deles. A melhor defesa é sistema saúde forte", completou.

Jamil Chade