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Jamil Chade

Produto que explodiu no Líbano poderia ir para oposição armada síria

Os bombeiros libaneses apagam incêndio no local de uma explosão no porto da capital Beirute - 4 de agosto de 2020 - STR / AFP
Os bombeiros libaneses apagam incêndio no local de uma explosão no porto da capital Beirute - 4 de agosto de 2020 Imagem: STR / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/08/2020 12h10Atualizada em 06/08/2020 17h59

Resumo da notícia

  • Documento oficial obtido pelo UOL detalha apreensão em 2012 de material que explodiu
  • Carga de nitrato de amônio teria sido apreendida de navio turco e seria remetida à Síria
  • Versão contraria informações e datas divulgadas a respeito da apreensão do material
  • Turcos vêm apoiando determinadas alas da oposição na Síria com armas e materiais

Documentos oficiais obtidos pela coluna revelam que o material que explodiu no porto de Beirute, nesta semana, foi apreendido depois de uma suspeita de que poderia chegar às forças de oposição na Síria, país que vive uma guerra de quase uma década.

A explosão destruiu uma parte significativa da capital do Líbano, matou mais de 150 pessoas e deixou mais de 5 mil feridos. Oficialmente, o governo indicou que a carga de nitrato de amônio havia sido de fato apreendida em um barco de bandeira moldava, em 2013.

Mas os relatos feitos por fontes libanesas a diplomatas estrangeiros, em documento datado de 5 de agosto, revelam outra possibilidade. O produto estaria num navio de bandeira turca, o Letfallah II, que teve sua carga apreendida em abril de 2012.

O confisco, segundo os documentos, ocorreu no porto de Trípoli, pelas autoridades libanesas. O conteúdo, segundo essas fontes, iria para "grupos de oposição armada na Síria".

Turcos, nos últimos anos, vêm apoiando determinadas alas da oposição na Síria. Fazer chegar material e armas para tais forças sempre foi um desafio.

Em 2016, segundo revelou o canal Al Jazeera, as autoridades portuárias já tinham alertado o governo sobre o risco de manter o material no local.

A versão entre membros da diplomacia internacional coloca em questão a narrativa usada nos últimos dias de que o incidente foi apenas uma má gestão do porto e de seus armazéns, ainda que isso possa ter sido também um fator.

Durante a guerra na Síria, a rivalidade entre iranianos, russos, turcos e o Catar transformou o Líbano num palco paralelo da crise.

Naquele momento, a guerra na Síria vivia seu auge e autoridades turcas falavam abertamente sobre a necessidade de que o ditador em Damasco, Bachar Al Assad, fosse destituído. O exército sírio, porém, contou com o apoio do Irã e da Rússia para resistir. Outro ponto de apoio de Assad era o Hezbollah, um dos polos de poder no Líbano.

Nas últimas horas, o governo libanês indicou que vai exigir que uma comissão de investigação traga os resultados de uma apuração nos próximos quatro dias. Mas entidades internacionais duvidam da capacidade do governo em Beirute de conseguir realizar uma apuração independente. Entidades como a Human Rights Watch e mesmo líderes libaneses já fizeram um apelo para que haja uma comissão internacional.

A explosão ainda poderá modificar o mandato das tropas da ONU no Líbano e que contam até mesmo com uma fragata brasileira. Se o foco inicial do grupo era impedir um confronto entre grupos internos e o Hezbollah, o trabalho poderia ser ampliado para também lidar com o tráfico de armas e de produtos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL