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Jamil Chade


Jamil Chade

"Corpos foram atirados de prédios": libanês relata caos em Beirute

O médico radiologista libanês Joseph Daoud - Imagem cedida ao UOL
O médico radiologista libanês Joseph Daoud Imagem: Imagem cedida ao UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/08/2020 04h04

"Horror, dor, destruição e mortes. Essa é a situação. É de partir o coração". Foi assim que o profissional de saúde, Joseph Daoud, explicou as primeiras 24 horas depois da explosão que abalou sua cidade, Beirute, e enterrou uma parte da histórica capital libanesa.

Daoud trabalha como radiologista sênior num dos principais hospitais do país e, em relato para a coluna, ele detalha o que viu dentro dos corredores, no atendimento e nas ruas. No front para tentar salvar vidas, o libanês expõe também a indignação da sociedade contra o poder.

Assim que a pandemia começou a atingir o Líbano, Daoud, com 39 anos de idade, se apresentou como voluntário para uma força-tarefa que lidaria com a covid-19. "Sou apaixonado pelo meu trabalho. Quero ajudar meus irmãos", explicou.

Além da pandemia, o país vivia um de seus piores momentos de sua história recente, com instabilidade política, recessão e desemprego em massa. "A crise era profunda. Todos estavam afetados", contou.

"Por meses, a direção dos hospitais tentou evitar que a crise chegasse aos funcionários. Mas, num certo momento, não houve o que fazer e o hospital demitiu um terço de seus profissionais", disse. "Foi uma decisão difícil. Mas era pela sobrevivência", admitiu.

"Vivíamos dia após dia. Estava sendo muito duro. A situação econômica era traduzida em preços elevados para itens básicos. Estávamos sobrevivendo dia após dia. Mas pelo menos dizíamos que tínhamos sorte de ter trabalho, de não ter sido contaminados pelo coronavírus. Mas o que ocorreu agora foi uma espécie de bomba nuclear sobre todos nós", lamentou.

"Os que podiam agarravam um corpo na rua"

O libanês respira fundo para relatar os segundos seguintes à explosão. "Foram prédios chacoalhando, corpos sendo atirados para fora de apartamentos e prédios", afirmou. Daoud conta que os pacientes chegaram de todas as formas possíveis aos hospitais. "Todos os que podiam agarravam um corpo na rua e levavam para o hospital", disse. "Carros, ambulâncias, motos e mesmo carros do Exército transportavam pessoas", disse.

O problema, segundo ele, é que vários hospitais foram duramente afetados pela explosão, o que exigia em primeiro lugar que os pacientes já internados nesses locais fossem levados para outros hospitais. "E não se esqueça que estamos em plena pandemia", indicou.

"A situação foi e continua catastrófica em todos os hospitais da cidade. Todos estão lotados. Tudo. Os andares, as salas de operação, UTI e todas as áreas perto dos hospitais também", afirmou.

Em seu hospital, a destruição afetou de forma importante a estrutura do prédio e a capacidade das equipes para salvar vidas. "Há sérios danos em todos os andares", disse.

Se não bastasse, os médicos à disposição eram insuficientes. "Os médicos estavam em casa. Tinham sido demitidos. Não temos gente nas equipes médicas".

"O responsável precisa pagar", diz Daoud (em foto de arquivo pessoal) sobre explosão - Imagem cedida ao UOL - Imagem cedida ao UOL
"O responsável precisa pagar", diz Daoud (em foto de arquivo pessoal) sobre explosão
Imagem: Imagem cedida ao UOL
Sem plano, ordem foi fazer o possível

O que logo Daoud percebeu é que não existia um plano de emergência e ninguém entre as autoridades sabia o que fazer. "Fomos nós que estabelecemos os planos. Naquela mesma hora", disse. "Não havia um plano sequer. Como? Como é que uma cidade não conta com um plano de crise? O que estão fazendo? Não tinham nada. É muito triste", lamentou. A ordem era de que cada uma das equipes avaliasse quem poderiam salvar, considerando os equipamentos que tinham à disposição.

Indignado, ele insiste que os responsáveis pelo desastre precisam pagar pelo que fizeram. "O responsável precisa pagar por isso", disse.

Sua reação, porém, vai muito além de uma questão de Justiça diante da explosão. Para ele, o país está "de joelhos" depois de anos de um caos administrativo e político.

"Não temos governos. O que existe no Líbano são tribos, com seus benefícios e cujo objetivo é vencer o outro. E a população é irrelevante. Podem morrer, com a condição de que os líderes sobrevivam", disse.

"Não há mais sonhos, nem esperança"

"Há anos sabemos que são assim. Vivíamos sabendo que era assim. Para essas pessoas no poder, não existíamos. Dia após dia, sugavam nossas vidas, nosso sangue. Sugavam nossos sonhos. Eles destruíram o Líbano e meu amado local de trabalho", disse. "São vampiros", criticou.

A crise é tão profunda que, segundo ele, a população não consegue neste momento sequer retirar dinheiro de suas próprias contas nos bancos para arcar com a emergência. "Se uma pessoa quer arrumar sua casa do impacto da destruição, não há dinheiro", afirmou. O local de trabalho de seu pai foi destruído, assim como de seu irmão.

Daoud espera que a explosão tenha despertado o mundo para a falência política que vive seu país. "Vocês [a imprensa internacional] são a nossa voz. O mundo precisa saber o que ocorre dentro do Líbano. Nossa classe política é composta pelos melhores poetas do mundo. Ouça as entrevistas que eles dão. São frases lindas. Chego a ficar arrepiado", disse, em tom de ironia.

"O Líbano é o país mais bonito do mundo. Mas aqui não há mais vida. Não há mais sonhos, nem esperança. Estamos mortos", completou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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