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Sem verba, OMS vê ameaçado projeto para garantir distribuição de vacina

PIERRE-PHILIPPE MARCOU / AFP
Imagem: PIERRE-PHILIPPE MARCOU / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

11/08/2020 04h06

Documentos da OMS (Organização Mundial da Saúde) apresentados a governos de todo o mundo na semana passada revelam que a agência teme que seu projeto de criar um estoque mundial de vacinas contra a covid-19 e garantir sua distribuição está fortemente ameaçado.

Em abril, a entidade fechou um acordo com a Europa para lançar uma iniciativa pela qual o mundo se uniria para a produção de vacinas, tratamentos e diagnósticos para permitir que a pandemia fosse superada. A ideia era a de evitar, a todo custo, uma repetição do cenário da aids, que, por anos, manteve países mais pobres distantes de tratamentos.

Pelo projeto, uma espécie de fundo global seria criado para, de um lado, estocar a vacina que venha ao mercado e, de outro, garantir uma distribuição justa ao mundo. A meta era a de evitar uma guerra comercial e o princípio de que apenas aqueles com recursos teriam acesso ao produto.

Depois de meses de análises, chegou-se à conclusão de que o projeto iria requerer US$ 31 bilhões. Desse total, US$ 18 bilhões iriam para acelerar o desenvolvimento de vacinas, comprá-las e garantir a distribuição para cerca de 90 países mais pobres do mundo.

Contudo quase quatro meses depois, as duas rodadas de arrecadação de fundos para o projeto resultaram em um volume insuficiente de recursos. Juntos, os dois eventos garantiram US$ 3,8 bilhões, em maior parte de doações europeias.

A meta da OMS é a de garantir um fundo com 2 bilhões de doses até o final de 2021. Com esse montante, cada país receberia o equivalente a 20% de sua população, o suficiente para imunizar trabalhadores do setor da saúde e idosos com mais de 65 anos.

Mas documentos revelam que, hoje, os acordos estipulam apenas 300 milhões de doses. O déficit, portanto, é de 1,7 bilhão de doses.

"Nacionalismo sanitário"

Se o fundo mundial está seco, a OMS constata que os países mais ricos do mundo já se anteciparam para fechar acordo com empresas privadas e, assim, garantir o abastecimento de suas populações. É o que dentro da agência está sendo chamado de "nacionalismo sanitário".

Individualmente, governos de países ricos e alguns emergentes já fecharam acordos para serem abastecidos por 1 bilhão de doses. Além disso, a União Europeia fechou contratos para mais 400 milhões de doses.

Na organização, a preocupação é de que o mundo não consiga restabelecer o crescimento de sua economia enquanto a pandemia não for freada, inclusive na periferia do sistema internacional.

Na segunda-feira, sem entrar em detalhes, Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, fez um apelo por recursos, alertando que existe um "hiato substancial" nas contas. Segundo ele, o valor necessário pode parecer elevado. Mas é apenas uma fração dos US$ 10 trilhões que governos tiveram de injetar em suas economias para evitar um colapso social.

Parceira do Butantan mantém conversas com a OMS

Na busca por abastecimento, a OMS tem proliferado contatos com produtores de todo o mundo. Um deles é a Sinovac, empresa chinesa que fechou um acordo com o Instituto Butantan para produzir uma vacina contra a covid-19.

No final de junho, a empresa manteve encontros com a cúpula da Organização Mundial da Saúde com a meta de apresentar detalhes sobre o desenvolvimento do remédio e alinhar padrões e troca de informação com a instituição internacional.

Naquele momento, ao lançar o esforço internacional por um consórcio capaz de acelerar a produção de vacinas, a cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, confirmou que havia mantido "discussões preliminares" com a Sinovac sobre "colaborações futuras". Ela também indicou que, naquele momento, a agência e as empresas estavam "intercambiando documentos, assinando acordos de confidencialidade" para que os dados pudessem ser compartilhados.

Um dos pontos destacados pela OMS naquele momento era o de garantir que todas as empresas conduzindo testes realizassem as pesquisas dentro de um padrão para que o processo eventual de pré-qualificação seja acelerado, uma vez que se conheça os resultados. Dias antes, a organização havia mantido uma reunião longa com fabricantes chineses e suas agências reguladoras.

Vacina produzida em SP consta em mapeamento da agência

Um mapeamento realizado pela OMS também inclui a vacina contra a covid-19 que está sendo produzida e pesquisada entre a empresa chinesa Sinovac e o Instituto Butantan.

O documento, de 31 de julho, cita o esforço paulista ao lado de outras iniciativas, como a da Universidade de Oxford e outros 24 candidatos à vacina que estão em fase avançada de pesquisa. Além da Sinovac, outras quarto empresas e agências chinesas também estão na fase 3 de testes de suas vacinas.

A OMS deixa claro que a lista não significa o seu endosso imediato aos produtos e nem uma chancela da qualidade, inclusive por não se saber ainda os resultados das pesquisas.

A Sinovac já havia recebido um sinal positivo da agência para a pré-qualificação de uma vacina contra Hepatite A.

Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan, confirmou à coluna que vem conversando com a Sinovac sobre uma futura inserção da vacina no mundo. Ele também vem sendo procurado pela Organização Panamericana de Saúde e governos como o da Colômbia e Argentina, interessados no processo.

Num primeiro momento, porém, a produção da vacina estará destinada ao mercado doméstico, com uma eventual capacidade de fabricação de 60 milhões a 80 milhões de doses.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL