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Nova gripe espanhola mataria 80 milhões hoje, diz avaliação global

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

14/09/2020 04h38Atualizada em 14/09/2020 11h35

Resumo da notícia

  • Em informe preparado antes mesmo da crise, especialistas já alertaram que o mundo "não estava preparado"
  • Problema não se trata de falta de tecnologia, mas sim de liderança política, apontaram especialistas
  • Custo para remediar crise gerada pela covid-19 é 500 vezes maior do que seria o da prevenção, diz relatório
  • O que o mundo gastará com impacto da pandemia financiaria medidas de prevenção por 500 anos

A covid-19 transformou o planeta. Mas uma parcela fundamental da crise foi da politização do vírus. Um levantamento realizado por especialistas antes mesmo da crise se instalar alertava que o mundo "não estava preparado" para uma pandemia das proporções daquela que, em 1918, ficou conhecida como gripe espanhola.

Hoje, segundo eles, o maior problema para lidar com a pandemia não é a falta de tecnologia ou conhecimento. Mas a falta de liderança política para assumir responsabilidades e a inexistência de uma real cooperação internacional.

Essa ausência de liderança custou caro. O que o mundo já gastou diante da atual pandemia para socorrer suas economias e trabalhadores seria o equivalente a 500 anos de gastos com medidas de prevenção. Ou seja, impedir uma nova crise custaria uma fração do custo que o vírus está gerando no planeta.

O documento foi preparado por um grupo composto por nomes como Gro Harlem Brundtland, ex-diretora-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Victor Dzau, presidente da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos (EUA), Chris Elias, presidente de programas globais da Bill & Melinda Gates Foundation, e Anthony Fauci, diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases, dos EUA, além de outros.

Juntos, eles formam parte do Conselho para o Monitoramento Global, entidade independente estabelecida pela OMS para avaliar a resposta do planeta à crise.

A constatação do informe realizado antes da crise era clara: se algo parecido à gripe espanhola voltasse a ocorrer, até 80 milhões de pessoas morreriam no mundo hoje. O planeta ainda perderia 5% de seu PIB (Produto Interno Bruto).

Agora, a avaliação é de que a pandemia já custou US$ 11 trilhões e pode gerar mais US$ 10 trilhões em perda de renda.

Para evitar tal caos, os especialistas faziam um apelo: líderes globais precisam assumir suas responsabilidades e investir para preparar seus sistemas de saúde.

"Entre 2011 e 2018, a OMS acompanhou 1483 eventos epidêmicos em 172 países. Doenças propensas a epidemias como influenza, Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), Ébola, Zika, peste, febre amarela e outras, são presságios de uma nova era de surtos de alto impacto, potencialmente de rápida propagação, que são mais frequentemente detectados e cada vez mais difíceis de administrar", alertou o grupo em seu primeiro informe e antes de eclodir a crise.

"O mundo não está preparado para uma pandemia de um vírus respiratórios virulentos e em rápida evolução", avisaram.

"A pandemia global de influenza de 1918 adoeceu um terço da população mundial e matou até 50 milhões de pessoas, o equivalente a 2,8% da população total. Se um contágio semelhante ocorresse hoje com uma população quatro vezes maior e tempos de viagem em qualquer lugar do mundo inferiores a 36 horas, 50 a 80 milhões de pessoas poderiam perecer", alertaram.

"Além dos trágicos níveis de mortalidade, tal pandemia poderia causar pânico, desestabilizar a segurança nacional e afetar seriamente a economia e o comércio global", indicaram os especialistas.

Em termos econômicos, tal cenário aniquilaria quase 5% da economia mundial. "Uma pandemia global nessa escala seria catastrófica, criando um caos generalizado, instabilidade e insegurança. O mundo não está preparado", insistem.

Para os especialistas, "líderes em todos os níveis detêm a chave". "É responsabilidade deles priorizar a preparação com uma abordagem de toda a sociedade que assegure que todos estejam envolvidos e todos estejam protegidos", sugerem.

Nesta segunda-feira, um segundo informe será submetido à agência, num evento com o diretor-geral, Tedros Ghebreyesus. Ele usará o informe para pedir que governos não adotem posturas negacionistas em relação ao vírus e que invistam em saúde pública.

Um dos principais recados do novo relatório vai no mesmo sentido da crítica à falta de liderança já apontado antes da crise começar.

"Em 26 de março de 2020, o G20 realizou a Cúpula Extraordinária de Líderes do G20 sobre a covid-19, assumindo uma série de compromissos para abordar as dimensões de saúde pública, econômica e multilateral, e propondo uma iniciativa global sobre preparação e resposta a pandemias. Os países membros do G20 já tomaram medidas em relação a muitos desses compromissos. Entretanto, as tensões geopolíticas tornaram difícil para o G7 e o G20 chegar a um consenso sobre questões-chave e tomar medidas coletivas em relação aos compromissos assumidos", apontam os especialistas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL