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ONU afirma que "populismo e nacionalismo fracassaram" diante da pandemia

Durante campanha, Bolsonaro chegou a dizer que Conselho de Direitos Humanos da ONU não servia "para absolutamente nada"; ele discursa nesta terça na Assembleia Geral - Adriano Machado/Reuters
Durante campanha, Bolsonaro chegou a dizer que Conselho de Direitos Humanos da ONU não servia 'para absolutamente nada'; ele discursa nesta terça na Assembleia Geral Imagem: Adriano Machado/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/09/2020 08h16Atualizada em 22/09/2020 13h08

Durante a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), nesta terça-feira, o principal recado da entidade foi o de reforçar a ideia de que "populismo e o nacionalismo fracassaram" em lidar com a covid-19. O tom aponta como tais estratégias "pioraram as coisas" e que houve uma "desconexão entre liderança e poder".

Ainda que não haja uma referência a nenhum nome de chefe de Estado ou de governo, diplomatas que tiveram acesso aos documentos interpretam o tom como um recado claro a líderes como Bolsonaro ou Donald Trump, que optaram por minar o multilateralismo durante a crise.

O discurso ocorre depois que os primeiros resultados de avaliações internas nos organismos internacionais indicaram como governos que se recusaram a ouvir as recomendações científicas ou que menosprezaram uma coordenação global tiveram resultados negativos ao lidar com a pandemia. Para um dos relatores da ONU, tais governos violaram as obrigações legais que tinham de proteger suas populações.

A entidade é crítica a decisão de governos de buscar saídas nacionalistas para o abastecimento de vacinas contra a covid-19, criando uma concorrência desleal pelo mundo aos países mais pobres.

Ao marcar seus 75 anos, a ONU sabe que vive uma encruzilhada. Mas espera usar o evento que começa hoje para insistir que o mundo no século 21 precisa de uma resposta global aos desafios.

Ao longo dos últimos dias, o Brasil vem adotando um tom positivo sobre sua resposta à pandemia nos diversos discursos na ONU. Há uma semana, o Itamaraty indicou que os casos de covid-19 estavam desacelerando no país. Nesta semana, no Conselho de Direitos Humanos, foi a vez de o Brasil insistir que estava dando uma resposta tanto financeira como em termos sanitários, sem citar nem o número de mortes e nem reconhecer eventuais falhas.

Um dos mantras do governo brasileiro é de que não se pode dar espaço para a existência de um órgão internacional que dite o que países soberanos devem ou não fazer.

Num evento na segunda-feira, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, mandou um recado de volta a países que, como o Brasil, defendem a soberania como um valor máximo.

"A soberania nacional - um pilar das Nações Unidas - vai de mãos dadas com uma cooperação internacional reforçada, baseada em valores comuns e responsabilidades compartilhadas na busca do progresso para todos", disse.

"Ninguém quer um governo mundial - mas devemos trabalhar juntos para melhorar a governança mundial", completou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL