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Jamil Chade

Pequim acusa Eduardo Bolsonaro de ameaçar a relação entre Brasil e China

Nas críticas, a China afirma que o Brasil deve deixar de seguir a retórica de extrema direita dos EUA, que, segundo Pequim, têm histórico recente de espíonagem internacional, numa provável menção ao caso da NSA, revelado pelo analista Edward Snowden - Pedro Ladeira/Folhapress
Nas críticas, a China afirma que o Brasil deve deixar de seguir a retórica de extrema direita dos EUA, que, segundo Pequim, têm histórico recente de espíonagem internacional, numa provável menção ao caso da NSA, revelado pelo analista Edward Snowden Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

24/11/2020 19h26

Embaixada da China no Brasil protesta ao Itamaraty e acusa Eduardo Bolsonaro, o filho do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, de realizar declarações "infames" e de colocar em risco a relação entre os dois países.

A nova crise ocorreu depois que o deputado federal do PSL-SP fez acusações contra Pequim no dia 23 de novembro. Nas redes sociais, ele indicou o Partido Comunista da China como "inimigo da liberdade" e insinuou invasões e violações às informações particulares de cidadãos e empresas.

Para Pequim, Bolsonaro "acusou o Partido Comunista da China e empresas chinesas de praticar espionagem cibernética e defendeu a iniciativa dos Estados Unidos [EUA] de criar uma aliança internacional que discrimina a tecnologia 5G da China".

"Tais declarações infundadas não são condignas com o cargo de presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados", ataca Pequim. "Prestam-se a seguir os ditames dos EUA no uso abusivo do conceito de segurança nacional para caluniar a China e cercear as atividades de empresas chinesas", aponta.

Os chineses ainda confirmam que a manifestação não ocorreu apenas nas redes sociais e que canais diplomáticos foram usados para apresentar uma queixa formal contra a atitude.

"Isso é totalmente inaceitável para o lado chinês e manifestamos forte insatisfação e veemente repúdio a esse comportamento. A parte chinesa já fez gestão formal ao lado brasileiro pelos canais diplomáticos", explicou.

"Ao longo dos 46 anos de relações diplomáticas, a parceria sino-brasileira conheceu um rápido desenvolvimento graças aos esforços de ambas as partes. A China tem sido o maior parceiro comercial do Brasil há 11 anos consecutivos e é também um dos países com mais investimentos no Brasil", insistiu

"Na contracorrente da opinião pública brasileira, o deputado Eduardo Bolsonaro e algumas personalidades têm produzido uma série de declarações infames que, além de desrespeitarem os fatos da cooperação sino-brasileira e do mútuo benefício que ela propicia, solapam a atmosfera amistosa entre os dois países e prejudicam a imagem do Brasil", disse.

"Acreditamos que a sociedade brasileira, em geral, não endossa nem aceita esse tipo de postura", escreveu Pequim.

"Instamos essas personalidades a deixar de seguir a retórica da extrema direita norte-americana, cessar as desinformações e calúnias sobre a China e a amizade sino-brasileira, e evitar ir longe demais no caminho equivocado, tendo em vista os interesses de ambos os povos e a tendência geral da parceria bilateral", alerta.

"Caso contrário, vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil", completa Pequim.

Contra-acusações contra os EUA

De acordo com o texto, são os americanos quem realizam atos que poderiam ferir os interesses brasileiros. "O governo chinês incentiva empresas chinesas a operar com base em ciência, fatos e leis enquanto se opõe a qualquer tipo de especulação e difamação injustificada contra empresas chinesas. Os EUA têm um histórico indecente em matéria de segurança de dados", alerta.

"Certos políticos norte-americanos interferem na construção da rede 5G em outros países e fabricam mentiras sobre uma suposta espionagem cibernética chinesa, além de bloquear a Huawei visando alcançar uma hegemonia digital exclusiva", acusa Pequim.

"Comportamentos como esses constituem uma verdadeira ameaça à segurança global de dados", alertam.

No texto, o chineses ainda lembraram do peso do país asiático para a economia brasileira. "Entre janeiro e outubro, as exportações brasileiras para a China foram de US$ 58,459 bilhões, respondendo por 33,5% do total de exportações do Brasil", escreveram. "As cooperações na telecomunicação e em outros setores foram construídas sobre bases sólidas e alcançaram avanços a passos largos", indicaram.

Nas redes sociais, Pequim ainda aponta como tem apoiado o Brasil no enfrentamento da pandemia da covid-19, "assegurando o suprimento de materiais, fornecendo assistência humanitária e compartilhando experiências".

"Os fatos comprovam, repetidas vezes, que a China é um amigo e um parceiro do Brasil e que a cooperação bilateral impulsiona o progresso de ambos os países e traz benefícios para os dois povos", indicou.

"Uma parceria bilateral estável e sadia está em sintonia com os interesses fundamentais e de longo prazo de ambas as partes, e, por isso mesmo, conta com o apoio de amplos setores da sociedade brasileira", defende.

"Devemos continuar a expandir nossa parceria em diversas áreas, sempre alicerçados no respeito mútuo, na igualdade e no benefício recíproco. Como firme defensora da segurança cibernética internacional, a China lançou a Iniciativa Global sobre Segurança de Dados a fim de construir um ambiente digital de abertura, equidade, imparcialidade e não discriminação", indicou o texto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL