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Jamil Chade

Suspeita de corrupção de Trump é um alerta a todos nós?

31.mai.2020 - Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro também fazem manifestação a favor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em ato em Copacabana, no Rio - Saulo Angelo/Estadão Conteúdo
31.mai.2020 - Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro também fazem manifestação a favor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em ato em Copacabana, no Rio Imagem: Saulo Angelo/Estadão Conteúdo
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

04/01/2021 13h52

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"Então, olhe. Tudo que eu quero fazer é isso. Eu só quero encontrar 11.780 votos, que é um a mais do que nós temos. Porque ganhamos no Estado". As frases são de Donald Trump, numa conversa nada republicana obtida pelo Washington Post e que revela o presidente americano tentando pressionar uma autoridade na Geórgia a encontrar votos que permitissem que ele declarasse sua vitória no estado.

Trump não venceu na Geórgia e as revelações do Washington Post abriram uma crise profunda no Partido Republicano, com vozes importantes alertando sobre o crime que Trump estaria cometendo.

Em paralelo, dez ex-ministros da Defesa da maior potência militar do mundo publicaram uma carta na qual pedem que a transição de poder ocorra dentro das regras da democracia. A lista inclui diferentes políticos e ultraconservadores como Dick Cheney e Donald Rumsfeld.

Humilhando as regras democráticas, aparentemente disposto a promover fraude e deixando claro seu desprezo pelo estado de direito, Trump deve servir como um sinal de alerta a todos.

A imprensa, um republicano com forte sentido da democracia e um sistema sólido podem ter evitado um dos maiores escândalos políticos em décadas.

Mas se Trump fracassou e esbarrou em um sistema mais forte que ele, o que devemos pensar de tantos outros países onde instituições não são sólidas e onde partidos são meros veículos para controlar o poder?

Mito e exemplo a ser seguido para muitos populistas pelo mundo, Trump fez escola ao implementar uma estratégia de poder e de comunicação repetida em diferentes partes. (Nunca é demais lembrar que Ernesto Araújo, o chanceler, descreveu Trump como a única pessoa que poderia salvar o Ocidente).

E, por essa mesma razão, temos de nos preocupar com o que a atitude do americano significa.

Sim, precisamos nos perguntar por qual motivo líderes charlatães têm a obsessão de silenciar e matar a credibilidade da imprensa.

Sim, precisamos perguntar por qual razão abandonamos nossa tradicional postura internacional para acompanhar o governo de Trump em todas as votações internacionais.

Sim, temos de perguntar por qual motivo o presidente Jair Bolsonaro insistiu em dizer que suas fontes apontavam para uma fraude na vitória dos Democratas. Sim, precisamos saber por quais motivos ficamos para o final da fila no reconhecimento da vitória de Joe Biden. O que estávamos esperando?

A disposição de Trump de corromper uma eleição não é um assunto apenas do eleitor americano. Em jogo, está a democracia. Lá e em outros países pelo mundo.