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Jamil Chade

Estrangeiros cortam pela metade investimentos no Brasil, diz ONU

Faixa de protesto na entrada da fábrica da Ford em Tabauté, após o anúncio da saída da montadora do país - Avener Prado/UOL
Faixa de protesto na entrada da fábrica da Ford em Tabauté, após o anúncio da saída da montadora do país Imagem: Avener Prado/UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

24/01/2021 15h00

Resumo da notícia

  • Informe às vésperas do início do Fórum Econômico Mundial revela "seca" de investimentos nos países ricos e menos nível no fluxo em 30 anos
  • Emergentes como a China e Índia resistiram e registraram aumento de investimentos em 2020
  • Chineses superaram americanos e se transformaram em maior destino de investimentos do mundo
  • Previsão da agência da ONU é de que recuperação nos fluxos de investimento ocorram apenas em 2022

A decisão da Ford de fechar fábricas no Brasil foi apenas a ponta de um ice-berg e a economia nacional vive uma das maiores quedas de investimentos diretos entre os países emergentes.

Às vésperas do início do Fórum Econômico Mundial, realizado neste ano de forma virtual, a ONU divulga neste domingo dados que mostram que os investimentos estrangeiros diretos no Brasil em 2020 registraram uma queda de 51% em comparação aos volumes de 2019. A redução é superior à média da queda mundial.

"No Brasil, o investimento diminuiu para 33 bilhões de dólares, enquanto o programa de privatização e as concessões de infra-estrutura pararam durante a crise pandêmica", indicou a Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento.

"As indústrias mais afetadas foram as de transporte e serviços financeiros, com quedas na entrada de fluxos de mais de 85% e 70%, respectivamente, e as indústrias de extração de petróleo e gás e automotiva, que registraram ambas uma queda (preliminar) de 65% nos fluxos", explica a ONU.

James Zhan, representante da Conferência da ONU para Desenvolvimento e Comércio (Unctad), alerta que a recuperação brasileira pode ser lenta, já que o que se registrou foi uma queda acentuada de investimentos em novas plantas de produção. Isso, segundo ele, seria uma indicação de que a retomada não ocorrerá de forma imediata, mesmo com o fim da pandemia.

"A recessão e o choque causado pela pandemia geraram um golpe para os investimentos no Brasil e na região. Vimos produção afetada", disse. "No curto prazo, podemos levar um tempo maior para que o Brasil se recupere, comparado com outras partes do mundo, como Europa", indicou.

No longo prazo, porém, a esperança é de que a reestrutura de cadeias produtivas pelo mundo possa também significar que haverá uma maior integração regional na América Latina, com oportunidades de investimentos e diversificação para o setor de tecnologia.

Mas, entre as grandes economias do mundo, apenas quatro tiveram quedas ainda mais profundas que o Brasil em 2020: Reino Unido, Itália, Rússia e Alemanha.

O volume de investimentos só não é menor que em 2009, quando a crise financeira global também abalou os fluxos para o Brasil e somou apenas US$ 26 bilhões.

O país ainda terminou 2020 como o quinto maior recipiente de investimentos do mundo, superado por Índia, Cingapura, EUA e China. Em 2011, há uma década, o Brasil já era o quinto maior receptor.

De uma forma geral, 2020 registrou um colapso nos investimentos globais, com queda de 42% e um total de US$ 859 bilhões. Em 2019, o volume havia chegado a US$ 1,5 trilhão. Os dados de 2020, portanto, mostram que os fluxos estão 30% abaixo do valor mínimo após a crise financeira global em 2009. A pandemia ainda colocou os investimentos em seu menor nível em 30 anos.


América Latina não resiste

O Brasil não foi o único a não resistir à pandemia. De uma forma geral, a América Latina viu uma queda de 37%, com um total de US$ 101 bilhões. De acordo com ONU, a região vive "uma das mais profundas recessões em todo o mundo em desenvolvimento". "Os investimentos em indústrias relacionadas ao petróleo e os fluxos de procura de mercado registraram quedas acentuadas. Entre as economias maiores, apenas o México experimentou um declínio de menos de 10%, graças aos lucros reinvestidos resilientes", disse.

Os fluxos para o Peru, Colômbia e Argentina caíram em 76%, 49% e 47%, respectivamente. No Chile, os fluxos caíram 21% para US$ 8,9 bilhões.


Investimentos nos países ricos "secou"

Mas nem todos sofreram da mesma forma. Na média, os países ricos viram uma queda de 69%, com um total de US$229 bilhões. Do declínio global de 630 bilhões de dólares, quase 80% foi contabilizado pelas economias desenvolvidas.

"Os fluxos para a Europa secaram completamente", disse a entidade, que aponta para uma fuga de recursos de US$ 4 bilhões. No Reino Unido, os investimentos foram nulos, enquanto houve um desinvestimento de US$ 150 bilhões na Holanda e na Suíça.

Considerando os 27 países da UE, a queda foi de 71%, com um total de investimentos de US$ 110 bilhões. Na Alemanha, o volume passou de US$ 58 bilhões em 2019 para US$ 23 bilhões em 2020. Quedas similares também foram registradas na Itália, enquanto a França viu um tombo de 39%, para US$ 21 bilhões.

Também foi registrada uma queda acentuada nos Estados Unidos (-49%) para $134 bilhões de dólares.

Superando EUA, China se transforma no maior receptor de investimentos do mundo

Já as economias emergentes resistiram, principalmente na Ásia. A queda de investimentos nos países em desenvolvimento foi de 12% e, no total, o bloco somou US$ 616 bilhões.

Com essa transformação, a participação das economias em desenvolvimento nos investimentos globais atingiu 72% - a maior participação recorde.

A China encabeçou o ranking dos maiores receptores de investimentos, superando todas as economias ricas. O ano ainda terminou com um aumento do fluxo para a China, de 4%. No total, o país atraiu US$163 bilhões em fluxos, deixando os EUA em segundo lugar.

O maior salto, porém, foi registrado na Índia que, em plena pandemia, viu os investimentos aumentarem em 13%, puxados por setor digital.

Já os fluxos caíram na Federação Russa, de US$ 32 bilhões em 2019 para US$ 1,1 bilhão devido à crise da COVID-19. "Além disso, a fraca demanda internacional por petróleo bruto e um conflito de preços com outros grandes produtores em abril de 2020 levaram os preços a níveis historicamente baixos, colocando uma pressão descendente sobre os investimentos no setor petrolífero", indicou a ONU.

Recuperação: apenas em 2022

Sem vacinas suficientes e com incertezas sobre as políticas econômicas, a ONU estima que a recuperação dos fluxos de investimentos ocorrerá apenas 2022. Para 2021, pode haver uma nova contração de até 10%, com uma "contínua pressão descendente". A queda de novos investimentos em produção em 2020 de 35% sugere que ainda não se vislumbra uma reviravolta nos setores industriais. Na América Latina, essa queda foi de 51%.

Uma das esperanças é o setor de infraestrutura, além de negócios nas indústrias tecnológica e farmacêutica.

Mas, para os países em desenvolvimento, as tendências representa "grande preocupação". "Estes tipos de investimento são cruciais para o desenvolvimento da capacidade produtiva e da infra-estrutura e, portanto, para as perspectivas de recuperação sustentável", diz.

Para a ONU, os riscos relacionados à última onda da pandemia, o ritmo da implantação de programas de vacinação e pacotes de apoio econômico, situações macroeconômicas frágeis nos principais mercados emergentes e a incerteza sobre o ambiente político global para investimentos continuarão a afetar os investimentos em 2021.