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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Símbolos monárquicos e religiosos geram críticas contra Araújo no Itamaraty

O ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, durante live - Reprodução
O ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, durante live Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/02/2021 04h00

Quando o chanceler Ernesto Araújo apareceu no vídeo para fazer seu discurso na abertura do Conselho de Direitos Humanos da ONU, nesta semana, um objeto em sua mesa chamou a atenção: uma bandeira da Ordem dos Cavaleiros de Cristo.

Oficialmente, o Itamaraty explica que "a referida bandeira faz parte da decoração do Gabinete do Ministro, não tendo sido colocada especialmente para a gravação".

"Trata-se, como se sabe, da primeira bandeira histórica do Brasil, razão pela qual o ministro lhe tem especial apreço", explicou a chancelaria. No ano passado, em outra participação do ministro na Assembleia Geral da ONU, a mesma bandeira também podia ser vista.

Mas, entre diplomatas e mesmo historiadores, a presença da bandeira é alvo de questionamentos. Dentro do Itamaraty, as vozes mais críticas alertam que sua exposição é "usurpação de espaço público".

Ex-chanceleres ouvidos pela coluna afirmaram que a bandeira não fazia parte da decoração de seus escritórios. Questionado se o símbolo em algum momento esteve em sua mesa, o ex-ministro Celso Amorim foi enfático. "Claro que não", disse. "Sou republicano e acredito no Estado laico", insistiu. Ele ainda conta que, em sua gestão, retirou um retrato de Pedro II da entrada de seu gabinete e o transferiu para o cerimonial, "onde ficam objetos de arte históricos".

Para o historiador e escritor Eduardo Bueno, a Ordem de Cristo é herdeira dos Templários, movimento que na Idade Média estabeleceu a rota entre a Europa e a Terra Santa. Ela teve um papel fundamental no financiamento das navegações dos monarcas em Lisboa, inclusive ao Brasil. "Trata-se de uma missão colonizadora de expansão da fé cristã", diz.

Não por acaso, em 26 de Abril de 1500, o ato de Frei Henrique de Coimbra de realizar a primeira missa em terras brasileiras contou com um estandarte da Ordem Militar dos Cavaleiros de Cristo, ao lado do altar.

Para Bueno, a ideia de um chanceler brasileiro aparecer em um vídeo na ONU com a bandeira da Ordem de Cristo é dar uma mensagem que "o espírito das Cruzadas está vivo". "É um sinal de confronto de civilizações e de que qualquer um que não seja cristão é um inimigo", afirmou.

ONU Araújo - Youtube  - Youtube
Imagem: Youtube

Monarquia

Para embaixadores, o uso da simbologia não é apenas uma questão de uma pessoa com um caráter "fanfarrão" ou "amante da história". Os diplomatas, temendo retaliações por parte do ministro, optaram por se manter no anonimato.

Mas insistem que a exibição de tais símbolos tem causado comentários de escárnio, principalmente depois que outro episódio mostrou que Araújo não vê problemas com referências até mesmo da monarquia.

Há cerca de dez dias, o chanceler fez uma live para um canal bolsonarista na qual explicou a política externa do país ao lado de uma bandeira do Brasil Imperial. O símbolo, porém, foi abandonado em 19 de novembro de 1889, por decreto assinado pelo Marechal Deodoro da Fonseca. Para Eduardo Bueno, há um sentido de "contestar a ordem republicana" ao fazer tal aparição.

O Itamaraty explicou que "a bandeira, que faz parte do cenário do estúdio do Terça Livre, também é uma bandeira histórica de nosso país, a primeira do Brasil independente".

"Recorda-se que ambas (bandeiras), assim como as demais bandeiras históricas brasileiras, são exibidas no desfile de Sete de Setembro e tradicionalmente expostas no Itamaraty em ocasiões de gala", explicou a chancelaria.

O flerte com a monarquia não se limita ao uso da bandeira. O Itamaraty, no ano passado, escalou Bertrand de Orleans e Bragança para uma palestra. Trineto de dom Pedro II, o convidado foi apresentado pelos organizadores do debate como uma pessoa que descende de uma "longa tradição de heróis, reis e santos". Entre seus feitos está ainda a publicação de um livro sobre a "psicose ambientalista", numa crítica ao movimento verde.

Mas foi no material de promoção do evento que uma vez mais o reconhecimento da monarquia ficou evidente. Orleans e Bragança foi apresentado como "S. A. I. R.". Ou seja, "Sua Alteza Imperial Real", um título que desapareceu no país com a chegada da República, há mais de cem anos.

Cristãos x Muçulmanos

Essa não é a primeira vez que o chanceler aparece ao lado de símbolos polêmicos. Em 2019, num périplo por governos populistas de direita na Europa, ele publicou em suas redes sociais uma foto diante de um quadro do rei Jan Sobieski, em Varsóvia. Em 1683, o monarca derrotou os exércitos otomanos, que avançavam para tomar Viena. Historiadores consideram que a vitória do monarca polonês deu início à derrota do império otomano pela Europa, freando sua expansão.

Mas vários estudos rejeitam a ideia simplista de que, em Viena, o conflito era entre o apenas cristianismo e o mundo muçulmanos. O acadêmico Iam Almond, por exemplo, revela em uma obra de 2009 como protestantes e muçulmanos agiram juntos para tentar avançar em direção à cidade de Viena. Os otomanos ainda tinham como aliados no ataque o rei francês Luis XIV.

O uso da figura do rei polonês, porém, deu sinais claros de ter saído do controle. Nos últimos anos, a vitória em Viena passou a ser usada pela extrema-direita europeia, como um sinal de que o continente deveria se unir contra a imigração, principalmente de muçulmanos.

Entre os políticos e atores conservadores da sociedade polonesa, o resgate da imagem do rei serve como um sinal de que a Polônia tem uma missão de proteger o cristianismo na Europa.

Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump, também citou, em um discurso, a vitória na batalha de Viena para dar um exemplo de como o islamismo deveria ser barrado na Europa.

Mais recentemente, o terrorista ultra-nacionalista que matou 50 muçulmanos na Nova Zelândia usou "Viena 1683" como uma das inspirações para cometer um massacre, no início do ano. Em uma foto de suas armas, que ele mesmo publicou nas redes sociais, o terrorista colocou a referência à batalha de Viena marcada em destaque em uma delas.

Em 2011, o extremista norueguês Anders Breivik, foi outro que usou "Viena 1683" como fonte de inspiração para cometer um atentado e defender sua posição anti-imigração. O manifesto de Breivik se chamava "2083", como uma forma de comemorar os 400 anos da batalha vencida em Viena pelo rei polonês.