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Jamil Chade

OMS: sem ação do governo, mortes subirão no Brasil e país ameaçará o mundo

 Mike Ryan e Tedros Adhanom Ghebreyesus - Reuters
Mike Ryan e Tedros Adhanom Ghebreyesus Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/03/2021 13h56

Sem medidas sociais sérias, agressivas e urgentes no Brasil, o número de mortes pela covid-19 vai aumentar ainda mais e o país será uma ameaça para a região sul-americana e para o mundo. A declaração é da cúpula da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, nesta sexta-feira, fez um alerta sobre a crise sanitária brasileira e mandou um recado ao governo de que, da forma que está agindo, não conseguirá frear a pandemia.

"A situação é muito preocupante. Estamos profundamente preocupados", disse. "Não é só o número de novos casos que aumenta. Mas de mortes também", insistiu Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

"Para frear a transmissão e ter um impacto significativo, deve haver medidas sociais sérias", defendeu. "As medidas que devem ser tomadas devem ser as mais sérias possíveis para que haja algum progresso significativo", insistiu Tedros.

Ele deixou claro que a responsabilidade é de governantes para que assumam uma "mensagem clara" sobre qual é a real situação no país e para que adotem medidas concretas e consistentes.

"Se não forem tomada medidas sérias, a tendência de alta que está inundando o sistema de saúde e que está superando sua capacidade vai resultar em mais mortes", alertou Tedros.

"A situação no Brasil piorou, com alta incidência de casos e aumento de mortes em todo o país", disse Mike Ryan, diretor de operações da OMS. Segundo ele, há um rápido crescimento da ocupação de leitos de UTI, com mais de 96% em alguns locais ou se esgotando em termos de espaço. "Há pouca capacidade e resiliência sobrando no sistema", disse.

"Gostaríamos de ver o Brasil ir em uma direção diferente. Mas isso vai exigir um enorme esforço para que isso aconteça. O sistema está sob pressão agora. Enquanto muitos países da América Latina estão indo em uma boa direção, o Brasil não está", afirmou.

"Isso precisa ser levado a sério no Brasil", insistiu Ryan. "Não tenho dúvida de que a Saúde brasileira, a ciência e o povo podem reverter isso. A questão é se eles terão o apoio que necessitam para fazer isso", alertou, num recado direto ao governo.

Segundo ele, houve uma melhora na situação do estado do Amazonas. Mas outras partes vivem um novo drama. "Algumas regiões estão sob uma ameaça extrema", disse, apontando para o Centro-Oeste e Sul.

Ryan também destacou que está preocupado diante do aumento da taxa de testes positivos e do número de letalidade, refletindo a pressão sobre o sistema e a falta de tempo que os profissionais de saúde contam.

Variantes

O chefe de operações não escondeu que continua preocupado com uma maior transmissibilidade e virulência por parte do vírus no Brasil, em especial por conta da mutação P1.

"Não a consideramos como uma variante que preocupa por seu impacto nacional. Mas por ter uma implicação além das fronteiras nacionais", disse Ryan.

Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS, voltou a insistir sobre o fato de que a variante no Brasil é "preocupante", pois indica maior transmissibilidade. "Quanto mais casos você tenha, maior vai ser a exigência sobre os hospitais e essa situação em locais já com capacidade esgotada poderia levar a maior número de mortes", disse.

Segundo ela, porém, medidas de distanciamento funcionam e podem ser usadas para frear a crise. "Usar máscaras e distanciamento funcionam e, em vários países, essas medidas estão levando a transmissão para baixo", insistiu Van Kerhove, que defende maior testagem, monitoramento e isolamento de casos positivos. Para a especialista, ainda que a variante seja um risco maior, há como controla-la.

Sem medidas sérias, mortes aumentarão ainda mais

Já Tedros Ghebreyeus, diretor-geral da OMS, indicou que ficou "realmente confuso" diante do fracasso do Brasil em lidar com a crise, apenas de o país ter um sistema de saúde pública que seria um "modelo" em termos de atendimento comunitário.

"Esperava que o sistema pudesse ter um desempenho melhor", afirmou, lembrando de suas diferentes visitas ao país para conhecer o monitoramento de doenças pelo território nacional. "Mas é contra as nossas expectativas", lamentou.

"Já passamos de 2 mil mortes por dia. Está ficando muito sério e acho que, começando pelo governo, todos os atores precisam levar a sério", insistiu Tedros.

Ameaça global

O diretor-geral insistiu que, diante do cenário, o Brasil é uma ameaça global. Segundo Tedros, alguns países sul-americanos estão em melhor situação que o Brasil. "Mas se a situação no país continuar a ficar séria, como está, os países vizinhos serão afetados", disse. "E não é apenas a região. Isso poderia ir além", alertou.

Tedros insistiu que, enquanto o vírus ganhar terreno em alguma parte do mundo ou sofrer mutações, ele continuará a ser um risco "ainda maior".

Questionado se o Brasil é uma ameaça sanitária global, Ryan foi claro em apontar para os riscos. "O Brasil é uma grande nação e âncora importante na América do Sul e no mundo. O que acontece no Brasil importa globalmente", disse. "O Brasil sempre foi um exemplo positivo em termos de saúde pública e um dos primeiros e eliminar a pólio", disse. Mas ele também deixou claro: "o que ocorre negativamente também importa".

A declaração ocorre no momento em que os dados revelam que o Brasil é o novo epicentro da pandemia. Com 2,7% da população mundial, o país acumula 15% de novos casos de infecções.

Se o número global de infectados desde janeiro de 2020 ainda coloca os EUA na primeira posição mundial com 29 milhões de casos, os técnicos europeus alertam que uma avaliação mais precisa do atual estágio da pandemia apenas pode ser feito se forem considerados os últimos 14 dias.

O período é determinado com base na incubação do vírus. Saber onde ocorreram as contaminações nessas duas semanas, de acordo com os pesquisadores, é saber onde está a crise hoje no mundo.

Neste período, o mundo registrou 5,4 milhões de novos casos da covid-19. 858 mil deles, porém, ocorreram apenas no Brasil, 15% do total. A população brasileira, porém, representa apenas 2,7% do planeta. Nos EUA, foram 798 mil novos contaminados em 14 dias.