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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Em recado, OMS pede que Queiroga alinhe posição com estados e ouça ciência

Jair Bolsonaro com Marcelo Queiroga - Divulgação
Jair Bolsonaro com Marcelo Queiroga Imagem: Divulgação
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/03/2021 13h58

Resumo da notícia

  • Tedros diz que OMS está "muito preocupada com Brasil" e aponta que mortes dobraram em um mês
  • Entidade alerta que covid-19 no Brasil ainda está se acelerando e que expansão é "rápida".

A Organização Mundial da Saúde (OMS) manda uma mensagem ao novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e pede que o governo federal alinhe sua posição com a política dos governos estaduais, criando uma resposta "coerente e coesa" para frear a pandemia da covid-19. A agência também faz um apelo para que o novo ministro ouça a ciência.

Nos últimos dias, decisões de governos estaduais têm sido atacadas pelo governo federal, que chegou a questionar medidas de confinamento e restrições em tribunais. Nesta segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro chegou a falar que o Brasil é "um exemplo" no combate à pandemia e tem criado polêmica entre peritos da OMS por continuar a defender medidas que já se provaram fracassadas.

Nesta segunda-feira em sua coletiva de imprensa em Genebra, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, voltou a qualificar a crise brasileira como "muito preocupante" e apontou que não há qualquer sinal de que o país seja um exemplo positivo. Ele destacou como, em um mês, o número de mortes dobrou no país. Entre 15 de fevereiro e 15 de março, a taxa passa de 7 mil por semana para 15 mil. "Isso é um salto enorme", declarou.

"O número de mortes aumenta. O número de casos aumenta. O Brasil precisa levar isso a sério", disse. "Tanto o governo como o povo", insistiu. Tedros pediu que o país faça um "esforço coordenado" para sair da crise e aponta que apenas com todos os atores é que Brasil vai conseguir reverter a tendência de alta.

O que preocupa a OMS é que os números "continuam a aumentar rapidamente e se aceleram". "Estamos preocupados com mortes", disse Tedros, que congratulou o novo ministro e estendeu um sinal de que quer trabalhar com o governo brasileiro.

Mariangela Simão, vice-diretora da OMS, também apontou para a necessidade de que haja uma coordenação entre os diferentes níveis de governo no Brasil. "Ao ministro Marcelo Queiroga, desejamos muita competência e firmeza no enorme desafio que tem hoje o Brasil", disse.

"A mensagem extremante importante - e que ele já se posicionou - é que políticas de saúde sejam baseadas em evidências cientificas", afirmou.

"E que as políticas de saúde sejam alinhadas com as três esferas de governo", disse a vice-diretora. "Isso é extremamente importante num momento em que o Brasil enfrenta um perfil mais homogêneo da epidemia", explicou.

Segundo ela, em períodos anteriores, havia uma concentração de casos em certas regiões. "Agora, existe uma disseminação por todas as regiões do Brasil e, mais do que nunca, pelo SUS que haja um alinhamento das posições baseadas na evidência científica", insistiu Mariângela.

"É um desafio", disse Michael Ryan, diretor de operações da OMS, sobre a mudança de ministros. Mas ele insistiu que o Brasil precisa de uma "ação coordenada" entre Brasília e os estados e municípios. "Os números estão aumentando e a pressão no sistema de saúde continua bem elevada", insistiu.

Ryan indicou que a crise brasileira foi alvo de um debate entre a OMS e a Organização Panamericana de Saúde.

"Não falamos ao ministro o que deve fazer. Mas o que o Brasil precisa é maior integração entre municipalidades, estados e governo federal e alavancando a capacidade e conhecimento", afirmou Ryan. "O Brasil é um líder em saúde pública e tem sido um líder global nisso. O que precisa ocorrer é alavancar tudo isso. Desejamos sorte ao novo ministro e pedimos que trabalhe o mais próximo possível com os estados e que construa uma resposta coerente e coesa que possa ser mantida ao longo do tempo", disse.

Números em alta

Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS, estimou que o Brasil vive "momentos muito difíceis" e que a nova variante do vírus aumentou a transmissão e criou mais pressão sobre o sistema de saúde.

Segundo ela, das 27 unidades federativas, 25 estão com ocupações de leitos acima de 80% de sua capacidade nas UTIs. "Em média, tivemos mais de 70 mil novos casos no Brasil por dia e mais de 2 mil mortes, nesta semana", afirmou. "O Brasil está sob um peso enorme. Mas o Brasil tem muita experiência. Estamos trabalhando com estados", disse. Na região, a Opas avalia o abastecimento de material para ajudar os governos neste momento.

Num dos momentos da coletiva de imprensa, não faltou ironia. Numa confusão entre quem falaria primeiro, Ryan comentou que Tedros estava tentando ligar seu microfone para "certamente congratular o novo ministro".

OMS: concentração de vacinas em ricos é "escândalo moral"

Para a OMS, o mundo está "fracassando" em sua campanha de imunização. Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, ainda fez um duro ataque contra países ricos que, ao longo dos últimos meses, acumularam uma grande proporção de vacinas no mundo, deixando os países mais pobres sem qualquer quantidade significativa de doses.

"Em janeiro em avisei que estava à beira de catástrofe e fracasso moral. temos como parar essa fracasso. Mas é chocante como pouco foi feito", afirmou. Segundo ele, a diferença entre ricos e pobres "cresce a cada dia e fica cada vez mais grotesco".

Tedros criticou governos que, nos últimos dias, têm iniciado a vacinação de jovens, quando não há sequer doses suficientes para proteger a população mais vulnerável em países em desenvolvimento. "Essa vacinação de jovens ocorre às custas de idosos e profissionais de saúde em outros locais", alertou.

Para o diretor da OMS, o comportamento dos países ricos faz economias em desenvolvimento se perguntar o que eles querem dizer exatamente quando usam a palavra "solidariedade". "É um escândalo moral", insistiu Tedros.