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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

OMS tenta obter vacinas para o Brasil, mas pede que país exerça liderança

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/04/2021 15h12

Resumo da notícia

  • Pela primeira vez desde o início da pandemia, chefe da diplomacia brasileira se reuniu com direção da OMS
  • Agência tenta garantir entrega de vacinas já encomendadas pelo Brasil, apesar da escassez mundial de doses
  • OMS, porém, fez um apelo para que o Brasil exerça sua "liderança histórica" em saúde pública

A cúpula da Organização Mundial da Saúde indicou que vai tentar antecipar entregas de vacinas ao Brasil. Mas a agência fez um apelo para que o país "exerça" sua liderança histórica no combate a surtos, produção de vacinas e resposta a crises sanitárias, uma espécie de pedido diplomático interpretado como uma recomendação para que o governo abandone a postura isolacionista e negacionista que tem marcado o comportamento da gestão de Jair Bolsonaro na pandemia.

Essa foi a conclusão de uma reunião mantida nessa quarta-feira entre o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, e o novo chanceler Carlos França. O encontro foi o primeiro de um chefe da diplomacia do Brasil com a direção da OMS desde o início da pandemia, há mais de um ano.

As decisões do governo de esnobar esforços multilaterais para lidar com a pandemia, as críticas constantes contra a OMS por parte do Planalto, a recusa em se envolver em respostas coordenadas foram algumas das estratégias adotadas pelo Itamaraty em 2020. Para a OMS, a liderança do Brasil em saúde pública teria sido fundamental para reverter o quadro global. A aposta em Genebra agora é de que, com mudanças tanto no Itamaraty como na pasta da Saúde, uma nova etapa de cooperação entre o Brasil e a OMS possa ser iniciada, ainda que um ano inteiro tenha sido desperdiçado.

Nos bastidores, a entidade acredita que apenas uma campanha de imunização não será suficiente para lidar com a pandemia no país e pediu que o governo atue em outras frentes, como em medidas de saúde pública.

Na próxima semana, uma nova reunião está sendo costurada entre o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e Tedros, marcando uma aproximação entre a agência internacional e o governo de Jair Bolsonaro, presidente que passou meses criticando a OMS e seu diretor.

Fontes que estiveram na reunião nesta quarta-feira indicaram à coluna que a OMS sinalizou que tentará ampliar as entregas de doses de vacinas da Covax ao Brasil. Uma sinalização no mesmo sentido já havia sido dada aos governadores na semana passada, indicando que o mecanismo poderia enviar 4 milhões de doses ainda em abril e mais 4 milhões em maio.

Mas não há garantias ainda, por conta da escassez do produto no mercado mundial. "Faremos o possível e o impossível para que isso ocorra", indicou representantes da OMS.

A entrega ao Brasil não seria um aumento no volume de doses em comparação ao que já estava programado. O problema é que, diante dos problemas de entregas de vacinas, da produção abaixo do esperado em algumas fábricas e da necessidade da índia em abastecer seu mercado interno, todo o cronograma da Covax foi afetado.

Para o mundo, o mecanismo esperava destinar 100 milhões de doses até o final de março. Até agora, foram apenas 40 milhões. No caso do Brasil, a entidade tinha sinalizado que enviaria entre 10 milhões e 14 milhões até junho. Mas, até agora, despachou ao país apenas 1,2 milhão.

Fora do encontro, porém, o sentimento na OMS é de que a pandemia não será freada apenas com campanhas de imunização e que o governo brasileiro precisa agir em outras frentes, especialmente no que se refere a medidas de distanciamento social, testes, isolamento e rastrear contatos de pessoas contaminadas.

O conselheiro da OMS, Bruce Aylward, na semana passada, chegou a falar numa coletiva de imprensa que o surto no Brasil vivia um momento de "inferno".

"Powerhouse de vacinas"

Nas redes sociais, o Itamaraty afirmou que Tedros aplaudiu o ritmo de vacinação no país e indicou que a conversa ainda tocou em áreas de cooperação.

A OMS está criando uma força tarefa para avaliar medidas concretas para ampliar a produção de vacinas pelo mundo. Uma das apostas é justamente na capacidade produtiva de locais como Fiocruz e Instituto Butantan, que poderiam atender toda a região latino-americana no futuro.

A agência está convencida de que o mundo não pode depender mais de poucos produtores de vacinas e que o Brasil terá um papel crítico na construção de uma nova estrutura mundial de abastecimento. A OMS chegou a qualificar o país de "powerhouse" da produção regional.

Tedros, no mês passado, afirmou que estava disposto a enviar uma equipe técnica ao Brasil para avaliar medidas para ampliar a produção de vacinas, o que foi recebido de forma positiva pelo Butantan.

A OMS ainda convidou Queiroga para participar da coletiva de imprensa com jornalistas de todo o mundo. A meta seria a de explicar a situação do país.