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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Com Biden ausente, Bolsonaro não desfaz desconfianças internacionais

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/04/2021 11h38

A comunidade internacional recebeu com hesitação o discurso do presidente Jair Bolsonaro durante a Cúpula do Clima, apesar de reconhecer que existem sinalizações claras de que o Palácio do Planalto sabe que está sob pressão e que não havia mais espaço para acusações contra governos estrangeiros.

Entre os pontos positivos, diplomatas envolvidos nas negociações climáticas destacaram a decisão de Bolsonaro de antecipar em dez anos a neutralidade de carbono no Brasil, para 2050. Além disso, ele prometeu zerar desmatamento ilegal até 2030 e dobrar orçamento para fiscalização e monitoramento. Também foi recebida com uma certa dose de alívio a decisão do presidente de não fazer acusações contra líderes de outros países.

Para organizadores da COP 26, no final do ano, Bolsonaro sinaliza que está disposto a negociar, ou pelo menos evitar um isolamento ainda maior. Diplomatas americanos também comemoraram de forma contida o tom do brasileiro, acreditando que se trate de uma brecha que poderá ser aproveitada. "Mas a hesitação ocorre por conta da dificuldade em levar Bolsonaro a sério", alertou um negociador.

Segundo fontes diplomáticas, o que foi dito ainda não é suficiente. O Brasil não deu sinais e nem detalhes sobre o que pretende fazer para atingir as metas sinalizadas. O que governos e agências internacionais insistem é que, a partir de agora, o Planalto terá de "provar" que não se trata apenas de mais um discurso.

"A "prova" não será num próximo discurso. Mas em dados mensais de desmatamento, que serão acompanhados de perto", alertou um negociador europeu.

Um dos temores de capitais europeias e mesmo na ONU é de que o desmatamento ilegal não seja erradicado, como prometido. Mas que áreas para que isso ocorra sejam ampliadas e regras flexibilizadas.

Quanto à promessa de aumentar recursos, o que entidades querem saber é o que isso representa em termos aos volumes de financiamento dessas mesmas agências. Na ONU, relatorias denunciam o fato de que, nos últimos dois anos, Bolsonaro desmantelou sistemas de fiscalização, cortando recursos de forma ampla.

Lugar sem prestígio

O lugar da participação de Bolsonaro na cúpula também foi alvo de comentários. Se por anos o país era um dos líderes no debate e um dos primeiros a falar nas reuniões, desta vez Bolsonaro ficou em uma posição intermediária na fila, atrás mesmo da Argentina e outros países emergentes.

A lista de oradores, sempre um ponto crítico no protocolo diplomático, começou com o anfitrião Biden, seguido imediatamente por Xi Jinping, líder chinês. França, Rússia, Alemanha, Itália, Ilhas Marshall, Bangladesh, Indonésia, Reino Unido, África de Sul e outros tomaram o microfone antes do Brasil.

Biden sequer estava na sala quando Bolsonaro falou. Naquele momento, ele havia ido para o Salão Oval, receber informações sobre inteligência. O presidente americano voltaria para outras sessões do debate.

Para a Human Rights Watch, houve uma mudança de tom no discurso de Bolsonaro, ainda que ele não tenha abandonado por completo a narrativa de que o Brasil não é o culpado pela crise climática no mundo. Na avaliação da entidade, há um sentimento de que o presidente brasileiro está "sob pressão".

"O problema é que ele tem zero credibilidade e o mundo sabe de sua ação sabotando a capacidade do Brasil de atingir essas metas", alertou Daniel Wilkinson, um dos representantes da entidade.

No país, essas foram algumas das reações ao discurso:

"Sabemos que essa retórica é uma mentira. O projeto de morte e destruição de Bolsonaro continua o mesmo: retirada de nossos direitos, legalização de crimes socioambientais e a descontinuidade das políticas de proteção à floresta amazônica. Até agora não houve sequer um diálogo desse governo com os povos indígenas para enfrentamento às invasões de nossas terras, por isso é legítimo o nosso pedido de um canal direto com o governo norte-americano para assuntos ligados à Amazônia brasileira. É fundamental que o presidente Joe Biden estabeleça um diálogo junto ao governo brasileiro com bases na garantia da preservação da vida e da biodiversidade do planeta em contraponto ao fortalecimento de políticas anti-indígenas", Sonia Guajajara, coordenadora executiva da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).

"O Brasil sai da cúpula dos líderes como entrou: desacreditado. Bolsonaro passou metade de sua fala pedindo ao mundo dinheiro por conquistas ambientais anteriores, que seu governo tenta há dois anos destruir. Não seriam três minutos de discurso numa videoconferência que poderiam reverter isso. O fato é que ninguém mais acredita em Bolsonaro. O atual governo completou com louvor o Projeto Pária, alijando o Brasil de uma agenda na qual um dia fomos protagonistas e que deveríamos liderar", diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

"Bolsonaro não respeita seu próprio povo e nosso direito ao território. Sob seu governo, o reconhecimento de comunidades quilombolas caiu ao menor patamar da história. Para nós, sua palavra não tem valor algum e a pandemia nos mostrou seu lado mais sombrio. Seu governo negou aos povos indígenas e comunidades quilombolas o acesso universal à água potável. Este é Bolsonaro e qualquer acordo com ele está fadado ao fracasso", declarou Biko Rodrigues, articulador nacional da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas).

"É preciso que os grandes chefes de Estado entendam que a Amazônia é a casa de milhares de povos e comunidades tradicionais. Somente é possível cuidar da floresta reconhecendo e valorizando seus verdadeiros guardiões. A grande ignorância por parte do governo Bolsonaro é não reconhecer que a gestão da Floresta Amazônica não cabe somente ao governo, mas a todos os cidadãos e, principalmente, aos povos e comunidades tradicionais, que são partes dessa floresta e mantêm viva e pulsante. Por isso, é que precisamos ser ouvidos e participar das discussões sobre o futuro da Amazônia", afirma Joaquim Belo, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas.

"O Presidente Bolsonaro mais uma vez fez um discurso que não condiz com a realidade de seu governo. Desde o 1o dia de seu mandato, seu governo tem se esforçado para destruir as políticas de proteção socioambientais, adotando falas racistas que incentivam a violência contra povos originários, quilombolas e outras populações ribeirinhas e das florestas, reconhecidamente os principais defensores das florestas. É preciso lembrar que durante seu governo, tivemos desmatamento e queimadas em níveis históricos, projetos de lei que colocam em risco a própria sobrevivência desses povos e da democracia, como os PLs que alteram a legislação de licenciamento ambiental e as que permitem atividades empresariais como a mineração em terras indígenas, o que tem demonstrado o racismo climático como forma de atuar de seu governo. Suas políticas e falas, ao contrário do afirmado hoje, tem agravando a crise climática ainda mais", disse Julia Neiva, da entidade Conectas Direitos Humanos.