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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Na OMS, Queiroga pede dose, omite 400 mil mortes e quer "olhar para frente"

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

30/04/2021 10h03

Resumo da notícia

  • Em coletiva de imprensa ao lado da cúpula da OMS, Queiroga disse que espera que todos os brasileiros sejam vacinados até o final do ano
  • Tedros Ghebreyesus fez alerta de que, apesar da queda no número de casos nas últimas semanas, a situação é ainda preocupante

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que espera que todos os brasileiros estejam vacinados até o final do ano e faz um apelo internacional para que governos estrangeiros liberem os imunizantes para acelerar a campanha de vacinação no país, caso tenham doses extras.

Mas, em um longo discurso durante uma conferência de imprensa nesta sexta-feira com a participação da cúpula da OMS em Genebra, o chefe da pasta omitiu as 400 mil mortes registradas no Brasil e falou sobre a importância de se "olhar para frente".

A participação de Queiroga numa coletiva oficial da OMS representa uma mudança na postura, pelo menos no que se refere ao discurso, do governo brasileiro diante do organismo internacional.

Acusado no exterior de crimes, pressionado pela CPI e visto como ameaça global, o governo usou o palanque oferecido pela agência para defender suas ações do governo e vender outra imagem para a imprensa estrangeira sobre o presidente Jair Bolsonaro, cujo nome foi repetido de forma insistente pelo ministro.

Para ele, a prioridade é a vacinação e aposta que, até o final do ano, todos os brasileiros serão beneficiados. Mas o ministro brasileiro indicou que, com mais doses de vacinas de forma imediata, o Brasil poderia acelerar a campanha de imunização no país, evitando novas mutações do vírus. Para Queiroga, as doses extras poderia ajudar a conter a fase crítica da doença.

Ao longo de 20 minutos de um discurso repleto de vácuos sobre a realidade nacional, ele descreveu as medidas adotadas pelo governo e a reserva, segundo ele, de mais de 500 milhões de doses. "A prioridade é acelerar a vacinação", disse. "Entendemos que a contenção da crise sanitária e recuperar atividade econômica dependem de nosso plano de vacinação", afirmou.

Omitindo a demora do governo em buscar parceiros no exterior e as recusas do Planalto nos contratos com as empresas em diversas ocasiões, Queiroga insistiu que Brasília optou por "diversificar" o abastecimento de doses, com parceiras para transferência de tecnologia e produção local, além da participação no sistema da OMS, a Covax.

Também num sinal de mudança de discurso, ele elogiou a China por autorizar a exportação de insumos e destacou como o primeiro lote da Pfizer já tinha sido entregue.

Queiroga, citando "ação diligente e responsável", explicou como o Brasil gastou US$ 150 milhões para reservar doses da Covax. Mas não explicou, ao ser questionado pela coluna, o motivo pelo qual o Brasil apenas escolheu o menor número de doses no acordo, com 10% da população nacional e nem se essa opção havia sido um erro.

O chefe da pasta preferiu vender ao mundo a ideia de que o Brasil tem "o maior programa público de vacinação do mundo" e que já aplicou 41 milhões de doses. Uma vez mais, omitiu que diversas cidades não contam com doses para completar o segundo imunizante a pessoas que já receberam a primeira leva.

Evitando em falar nas metas não atingidas de vacinação, Queiroga apenas citou que o país atingiu o recorde de 1,7 milhão de aplicações de doses em um dia e que tem capacidade para 2,4 milhões.

"Teremos doses suficientes"

Sem explicar ao mundo a dimensão da crise no Brasil, Queiroga garantiu que o governo atua de forma "incansável" para receber vacinas.

Ele rejeitou que houve atraso na vacinação e diz que tudo começou assim que os produtos foram aprovados. "Começamos quando a lei permitiu", disse, citando ainda como Bolsonaro também defendeu a vacinação.

Durante a coletiva, o ministro disse que está na "iminência" de assinar um acordo de 100 milhões de doses com a Pfizer, sem explicar como seus antecessores sequer responderam às cartas de empresas que ofereciam o produto ainda em 2020.

"Tema doses suficientes para o segundo semestre e esperamos até o final de 2021 ter a população inteiramente vacinada", disse.

Ele, porém, criticou a imprensa por trazer desinformações sobre a AstraZeneca, o que estaria levando a uma hesitação

No esforço de defender a ação do governo, ele indicou que os indígenas estão sendo atendidos e que já contam com doses suficientes para todos os povos. "Mais de 75% deles já foram a primeira dose e 500 mil doses já foram aplicadas", afirmou.

Marcelo Queiroga também buscou romper a imagem de que o governo é insensível às mortes e de que aposta na ciência, depois de declarações de Bolsonaro que ecoaram pelo mundo. "Expressamos nossos sentimentos às vítimas", disse. "A saúde é um direito de todos e dever do estado".

"Buscamos fortalecer o sistema de saúde", disse, citando os mais 19 mil leitos de UTI com investimentos de US$ 2 bilhões, 345 mil equipamentos de proteção e mais de 57 milhões de seringas e agulhas.

Segundo ele, houve um esforço para orientar a população brasileira sobre a adoção de "medidas cientificamente comprovadas".

Mas o ministro também destacou como tenta conciliar medidas sanitárias e garantia de emprego e renda, com US$ 50 bilhões num pacote que chegou a 60 milhões de pessoas.

Exame sobre como Brasil atuou diante da pandemia

Altamente política, a participação de Queiroga no evento da OMS viu a entidade adotar um tom de moderação diante do governo brasileiro que tanto havia criticado.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral, foi evasivo ao responder a uma pergunta da coluna se achava que o governo brasileiro deveria ser examinado por sua resposta à pandemia.

"Para qualquer governo, fazer avaliação é rotina. nos ajuda a aprender, entender sucesso e melhorar", disse. "Mas cabe a cada país usar suas regulações para fazer sua avaliação", disse.

Queiroga disse que também defendia "avaliações periódicas". Mas insistiu que o grande legado é a necessidade de fortalecer o sistema de saúde. "Uma análise precisa ser feita de forma global, para tirar lições".

Sem quebra de patentes

Apesar de pedir vacinas e uma distribuição "justa", Queiroga deixou claro que o Brasil não seguirá a proposta de países emergentes de pedir a suspensão de patentes de vacinas. Para ele, o caminho é o estabelecimento de acordos "consensual" entre empresas e governos para a transferência de tecnologia.

Não por acaso, o ministro não citou a vacina como "bem público global", mas sim a "vacinação como bem público global". Ele também quer uma missão da OMS para ajudar o país a ampliar sua produção, inclusive para poder exportar para a região.

Num esforço de superar uma profunda crise de credibilidade internacional, Queiroga ainda defendeu o SUS e investimentos em saúde, um dos temas caros na OMS. "A emergência da pandemia necessitou a necessidade de fortalecer saúde pública", disse.

Tedros faz alerta e OPAS diz que mortes poderiam ter sido evitadas

Durante o evento, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, citou os 400 mil mortos no Brasil, mas indicou que o número de novos casos começa a cair. Ele, ainda assim, insiste que não é o momento de "baixar a guarda".

Para ele, a pandemia no Brasil hoje ameaça os ganhos feitos nos últimos 30 anos na construção da saúde pública.

"Nas ultimas semanas, atenção estava na índia. Ao mesmo tempo, muitos outros vivem intensa transmissão e Brasil é um dos deles que foi mais atingido", disse. "Desde novembro, o Brasil enfrenta uma fase aguda da crise, com aumento de mortes e hospitalização, inclusive entre jovens", disse. Em abril, as UTIs do país estavam com sua ocupação quase total.

Segundo Tedros, o número de casos e hospitalização cai. "É boa notícia e esperamos que continue a tendência. Mas a pandemia mostrou que não podemos baixar a guarda", disse.

Para ele, o governo precisa manter medidas de distanciamento social, isolamento de casos e testes.

Já Sylvan Aldighieri, da Organização Panamericana de Saúde, reconheceu que parte das mortes no Brasil e mas Américas poderia ter sido evitada se as medidas de distanciamento não tivessem sido relaxadas. "O mais importante é implementar medidas de saúde pública", defendeu.

"Infelizmente, nos últimos três meses, com feriados levando grandes movimentos de pessoas, vemos que em muitos países houve uma implementação sub-ótima das medidas", disse. "Em todos os países, quando houve um relaxamento, tivemos mortes que poderiam ter sido evitadas", lamentou.

Mariângela Simão, vice-diretora da OMS, afirmou que a agência vê "com extrema tristeza com esse nível de letalidade" da doença no Brasil. Mas também insistiu sobre a importância do distanciamento e medidas sociais. Para ela, mortes podem ser evitadas quando países reduzem a transmissão.


Histórico de tensão

Por meses, o governo de Jair Bolsonaro atacou a OMS, seu diretor e fez questão de anunciar que não iria seguir as recomendações da entidade. O Palácio do Planalto ainda questionou a aproximação dos chineses à agência e levantou a possibilidade de seguir caminhos parecidos ao dos EUA, deixando a OMS.

Em 2020, num dos poucos eventos internacionais do qual participou o ex-ministro Eduardo Pazzuelo, o general não citou as mortes no país e disse que o Brasil era "líder na recuperação de doentes". Já a ex-embaixadora do Brasil, Maria Nazareth Farani Azevedo, chegou a dizer que o governo agia de forma "consistente" contra o vírus.

Mas, na prática, o governo brasileiro menosprezou mecanismos criados pela OMS, não mandou ministros ou responsáveis para encontros e ainda optou por comprar o número mínimo de vacinas dentro da Covax.

A aliança estabeleceu que governos poderiam comprar doses que seria equivalentes a 10% ou 20% de suas populações. O Brasil optou, depois de resistir por muito tempo, que adquiria o menos volume possível, de 10%.

Mas a chegada de Queiroga na pasta, a queda de Ernesto Araújo, a pressão diante de 400 mil mortes e o estabelecimento de uma CPI levaram o Brasil a adotar um novo tom. O ministro da Saúde se reuniu com Tedros e o novo chanceler, Carlos França, seguiu o mesmo exemplo, ainda que o encontro entre as cúpulas tenha ocorrido apenas um ano depois da eclosão da pandemia.

Para a OMS, a mudança no tom foi recebida como uma brecha para restabelecer contatos com o governo brasileiro e ajudar a mudar a trajetória da crise. Nos bastidores, a agência mundial havia tecido duras críticas contra o governo.