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Jamil Chade

Brasil diz na OMS que poderá fornecer vacinas aos países mais pobres

Marcelo Queiroga em depoimento à CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado
Marcelo Queiroga em depoimento à CPI da Covid Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/05/2021 06h52

Mergulhado em uma polêmica sobre propostas para a compra de vacinas que foram ignoradas e com dificuldades para manter a produção de doses, o governo brasileiro afirmou na OMS nesta terça-feira que o país está "pronto" para fornecer vacinas aos países mais pobres.

O discurso dos representantes do Itamaraty ocorreu no segundo dia da Assembleia Mundial da Saúde, o principal encontro da OMS no ano e que determina as estratégias de combate ao vírus.

"O Brasil está pronto para contribuir aos esforços globais contra a covid-19, por meio do fornecimento de doses de vacinas produzidas localmente", disse a delegação brasileira.

Não houve qualquer referência sobre quando isso poderia ocorrer e nem quais seriam os destinos das doses. Mas a coluna apurou que o caminho avaliado seria por meio da Covax, instrumento criado pela OMS para distribuir vacinas aos países mais pobres.

O discurso se contrasta com uma situação nacional que está distante de uma garantia de abastecimento de doses para a população brasileira. Na semana passada, tanto a Fiocruz como o Instituto Butantan ficaram sem insumos para produzir vacinas, milhões de pessoas tiveram a segunda dose atrasada e metas de imunização não foram cumpridas nos últimos meses.

Não há tampouco uma vacina nacional autorizada e, em locais como Goiás, a campanha de imunização foi suspensa nesta semana. "Neste momento, falar algo assim é delírio", afirmou o senador Humberto Costa, ex-ministro da Saúde. Ele não descarta que isso possa ocorrer no futuro, principalmente por meio do Instituto Butantan. Mas não vê nada neste sentido no curto prazo.

Números inflacionados

Na segunda-feira, ao abrir a Assembleia Mundial da Saúde, o ministro Marcelo Queiroga apresentou um cenário de vacinação no país que não condiz com o levantamento realizado diariamente pelo consórcio de imprensa do qual o UOL faz parte.

"Hoje, nossa maior esperança para permitir o retorno gradual e seguro à normalidade é a ampla vacinação. Até o momento, o SUS já distribuiu mais de 90 milhões de doses de vacinas e vacinou mais de 55 milhões de pessoas, dentre as quais mais de 80% de indígenas", disse o ministro na OMS.

Nos números do consórcio, porém, são 41,9 milhões de brasileiros que receberam pelo menos uma dose de imunizante. Até o momento, 20,6 milhões de pessoas foram beneficiados por duas doses.

Com a crise sanitária na Índia e o atraso no fornecimento de doses por parte das grandes empresas, a OMS sabe que o mecanismo internacional de distribuição de doses corre o risco de não conseguir atingir sua meta de vacinar 20% da população dos países mais pobres até o final do ano.

O apelo da OMS, portanto, é para que governos que tenham doses extras possam destinar uma parcela de seus estoques para também vacinar os países mais pobres. O alerta da agência é de que, enquanto a disparidade vingar, a ameaça da pandemia continuará para todos, inclusive para os países com elevadas taxas de vacinação.

Durante a reunião na manhã desta terça-feira, a agência destacou como, nos países ricos, a taxa de vacinação era 75 vezes os números registrados nos países mais pobres do mundo e alertou que essa disparidade precisava ser superada.

Em março e em abril, durante diferentes reuniões com ministros brasileiros, a cúpula da OMS fez um apelo para que o Brasil volte a assumir sua "liderança histórica" em saúde. O chamado não ocorreu por acaso. A agência acredita que a atual capacidade de produção de vacinas não será suficiente para abastecer o mundo em 2021 e que, portanto, o fornecimento de doses terá de ser diversificado.

Uma das apostas, principalmente para o final de 2021 e 2022, seria a produção doméstica brasileira e um fornecimento para a região latino-americana e outros destinos entre os países em desenvolvimento.