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Jamil Chade

Stalin e a bola: quando as arquibancadas se convertiam em ameaça ao regime

O ditador soviético Josef Stalin - Getty Images
O ditador soviético Josef Stalin Imagem: Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/06/2021 04h38

Nesta coluna, mergulhamos no segundo capítulo da série Futebol e Política e que será apresentada ao longo da semana. Depois de explorar a relação entre fascistas e a bola, agora é a vez de contar como Stalin temia um certo inimigo que emocionava a milhares de pessoas nos estádios soviéticos nos anos 30.

A partida era válida pelas semifinais da liga soviética de 1939. Jogando em casa, em Moscou, estavam os já consagrados jogadores do Spartak, com seus uniformes reconhecidos em todo o extenso território da União Soviética, mesmo sem o poder de hoje da publicidade e das transmissões pela TV.

O líder do time era o hábil Nikolai Starostin, além de seus três irmãos, considerados estrelas dos anos 1930. Do outro lado, o Dínamo Tbilisi, da capital da Geórgia, exatamente a região de onde vinha o ditador Joseph Stalin. Uma vitória daria à equipe um lugar na grande final, e a tensão era escancarada, tanto em campo como nas arquibancadas, onde os torcedores se espremiam para acompanhar o clássico.

Após noventa minutos, o resultado não surpreenderia a ninguém. O Spartak, que entusiasmava multidões, havia derrotado o Tbilisi por 1 a 0, para delírio de seus torcedores, simples trabalhadores do chão das fábricas soviéticas. Mas o gol foi considerado polêmico, pelo menos pelas autoridades e pela polícia secreta de Stalin.

A bola teria de fato cruzado a linha. Mas, antes de tocar no chão, dentro do gol, um dos zagueiros do Tbilisi conseguiu afastá-la de forma espetacular, dando a impressão de que havia evitado a derrota.

Ainda assim, o juiz soviético validou o gol do Spartak, que o classificava para mais uma final. Mas a polícia secreta de Stalin simplesmente ordenou que a partida voltasse a ser disputada. O destino do árbitro nunca seria revelado. Não só ele não apitaria mais nenhuma partida, como seu paradeiro passou a ser um mistério, inclusive para sua família.

Alguns dias depois, os dois times voltavam a se enfrentar. O estádio em Moscou poucas vezes vira torcedores tão entusiasmados em incentivar a equipe da cidade a mais uma conquista. Ainda no vestiário, os jogadores do Spartak aguardavam para entrar em campo com o sentimento de obrigação de demonstrar que não haviam conquistado a primeira vitória por acaso.

Escutavam o grito da torcida e, em cada um, a sensação era de que a batalha não seria apenas contra onze jogadores do time adversário, mas contra todo um sistema que unia forças de oposição ao Spartak.

Assim que a bola rolou, as considerações políticas foram deixadas de lado. Em campo, mais um jogo duro, encardido, com faltas violentas. Mas, no final de uma partida eletrizante, o placar ficou em 3 a 2 para o time de Nikolai, conhecido por sua velocidade e técnica. Com o apito do juiz encerrando a partida, o astro do Spartak, exausto e tentando enxugar o suor do rosto, olhou para a arquibancada onde estavam os convidados especiais e viu uma cena que seria o sinal de que seu destino estava traçado.

Membros da cúpula da polícia secreta soviética, visivelmente irritados com o resultado, se levantaram de seus lugares, colocaram de volta seus impecáveis chapéus pretos e, sem dizer uma só palavra, abandonaram o estádio.

No dia seguinte, as autoridades optaram por uma decisão ainda mais drástica: mandaram prender Nikolai, com base em acusações feitas dois anos antes de que o jogador e líder do Spartak promovia um modelo de vida "antissoviético", um crime que até o fim do bloco comunista ninguém conseguiu explicar o que seria.

A prisão só foi abreviada graças ao primeiro-ministro Vyacheslav Molotov, que teria rejeitado assinar a ordem em uma iniciativa que até hoje não foi esclarecida. O próprio Nikolai estimou, décadas mais tarde, que o ato estaria ligado ao fato de que sua filha era muito amiga da filha de Molotov. Verdade ou não, a realidade é que Nikolai seria poupado ainda por alguns anos.

O Spartak iria à final e, pior, conquistaria mais um título soviético, para desespero da polícia secreta e das autoridades. Na grande decisão, o Spartak venceu mais um time ligado ao governo. Um arrasador 3 a 1 contra o Stalinets Leningrado e a taça estava garantida, a última entregue pela federação antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

O incidente deixaria claro que, para o Kremlin, o Spartak era um inimigo tão odiado quanto um dissidente em busca de liberdade de expressão em um dos regimes mais violentos da história. Pior, tinha o amplo apoio dos torcedores de Moscou.

Nos anos seguintes, Nikolai e seus irmãos seriam condenados e enviados a campos de trabalho forçado. Eles só sobreviveriam porque, ao chegar a esses locais, eram reconhecidos pelos demais prisioneiros e pelos guardas como grandes jogadores, o que lhes garantia acesso a alimentos e menor chance de ser torturados.

Mas o que fazia de Nikolai Starostin, um dos fundadores do Spartak, jogador, treinador e, anos depois, presidente do clube, alguém tão temido por um regime que tinha todo o poder em suas mãos? Se seus adversários poderiam ser os zagueiros dos outros times, seus maiores inimigos eram os próprios comandantes da repressão durante o regime stalinista.

Tudo começou em 1922. No bairro de Krasnaia Presnia, um pequeno estádio seria palco das origens do que o regime de Stalin, menos de vinte anos depois, decretaria como um de suas maiores ameaças internas: um time de futebol.

Naquele local, quatro irmãos — Nikolai, Aleksandr, Andrei e Petr — se uniram para começar a jogar futebol, introduzindo vizinhos e amigos no esporte que havia chegado do Reino Unido. Dez anos depois, aqueles mesmos garotos do bairro se juntariam para criar o que acabaria sendo o time mais popular da União Soviética, que até hoje ainda atrai o maior número de torcedores : o Spartak.

A criação do clube, sua história, sua base de apoio e até mesmo seus títulos passariam a ser um reflexo das contradições, dos absurdos e do terror que marcariam a fase intermediária do regime da União Soviética. Naquele período da história stalinista, o governo se apressava em dominar todas as esferas da atividade humana, e o esporte não foi diferente.

Nas arquibancadas, um grito silencioso de liberdade

A cada fim de semana, o Spartak e seus torcedores mandavam um recado poderoso ao ditador e a outros comandantes: o de que o governo podia reprimir, matar e suspender todos os direitos de um cidadão, mas a sociedade sempre encontrará uma forma sutil, subliminar e até irônica de dar um grito silencioso de liberdade, pelo menos ao escolher seu time de futebol.

Do lado oposto estava o Dinamo, criado ainda em 1923 pela polícia secreta, com o apoio das autoridades. Nos anos que se seguiriam, o confronto em campo entre os dois clubes marcaria o futebol soviético. Fora dos campos, a rivalidade se transformaria em um microcosmo da batalha vivida diariamente pela sociedade civil perante o poder soviético.

A realidade é que escolher um time e declaradamente torcer por uma vitória sobre o clube do exército ou da temida polícia secreta era uma das poucas liberdades autorizadas pelo regime soviético dos anos 1920 e 1930.

Sem pesquisas de opinião para avaliar a popularidade de um governo e muito menos eleições ou partidos, a reação dos torcedores diante de vitórias do Spartak era o que mais se parecia a um termômetro para medir o grau de resistência em relação a Stalin. E o ditador sabia disso.

O mais irônico é que, nas arquibancadas do Spartak, não estavam intelectuais pró-liberais, capitalistas ou grandes industriais. Grande parte dos torcedores era formada por trabalhadores de fábricas, que optaram por não torcer pelos clubes subsidiados pelo governo. Para o regime stalinista, ver o povo apoiando times não protegidos pelo regime era sinônimo de traição e quase um ato de resistência.

Rapidamente, o time do Spartak passava a ser chamado de "time do povo", com o maior público dos primeiros campeonatos soviéticos e inúmeros títulos. Com um estilo elegante, mas avassalador, o Spartak venceria os campeonatos soviéticos de 1936, 1938 e 1939. Nesse último ano, ainda conquistaria a Copa da União Soviética.

Era, porém, nas arquibancadas desses jogos emocionantes que a história não oficial da União Soviética se manifestava. Com uma máquina opressora em pleno funcionamento na segunda metade dos anos 1930, Moscou não tolerava nenhuma demonstração de oposição ao governo, algo acentuado à medida que ficava claro que os regimes fascistas na Alemanha e na Itália logo entrariam em guerra. Nas arquibancadas, porém, o sentimento de descontentamento e frustração do proletariado era exposto de modo caro.

Se todos na época sabiam os reais motivos da popularidade do time do Spartak, ninguém podia declarar. Na Rússia, todos sabiam dos sentimentos que um time com o nome do líder de uma revolta de escravos poderia despertar. Gritos de guerra como "Mate os policiais" ou "Mate os soldados" eram frequentemente entoados pelos torcedores do Spartak. Ditas fora dos campos, essas frases podiam significar anos de trabalho forçado na Sibéria.

Para Stalin, o problema é que ficava cada vez mais claro que convencer torcedores a apoiar um clube poderia ser mais difícil que qualquer estratégia de repressão.

Ainda assim, o Spartak e o próprio futebol acabaram entrando para a história como um espelho dos conflitos da sociedade soviética e de sua autocracia, da guerra pelo controle de um imaginário coletivo, de uma comunidade de escolha e da constatação de que o esporte não existe em um vácuo.

Já os irmãos Starostin, mesmo dentro de um regime repressivo, conseguiram abrir uma fresta na estrutura de poder e mantê-la viva. Para Robert Edelman, historiador da Universidade de San Diego, essa foi uma forma modesta e silenciosa de dizer "não" a Stalin.

Para muitos, entender a história do Spartak e dos irmãos Starostin é entender acima de tudo a vida cotidiana sob a tirania e o regime de terror de Stalin. Entender, portanto, o berro das manchetes escritas nos jornais esportivos no dia seguinte a uma partida é também entender uma sociedade.

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