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Jamil Chade

Repercussão de nomeação de Crivella ameaça sua aprovação por sul-africanos

O presidente Jair Bolsonaro e o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, participam da inauguração de uma escola cívico-militar; prefeito tenta aproximação buscando apoio para a reeleição - THIAGO RIBEIRO/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
O presidente Jair Bolsonaro e o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, participam da inauguração de uma escola cívico-militar; prefeito tenta aproximação buscando apoio para a reeleição Imagem: THIAGO RIBEIRO/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

15/06/2021 04h41

Nos bastidores, o governo brasileiro teme que a repercussão negativa da nomeação de Marcelo Crivella para ocupar o cargo de embaixador do Brasil na África do Sul "trave" sua aprovação pelas autoridades de Pretória.

No início de junho, o Brasil submeteu aos sul-africanos o nome do novo embaixador, uma praxe diplomática. Crivella ainda precisa passar por uma sabatina no Senado. Mas sem um sinal verde por parte dos sul-africanos - um agreement, no jargão diplomático - não haveria sentido em manter o projeto.

Mas, desde a revelação de sua nomeação, a repercussão de que ele sequer tem hoje acesso a seus passaporte retido pela Justiça, a pressão do movimento evangélico e sua prisão no final de 2020 abriu uma nova preocupação dentro do governo.

O temor é de que os sul-africanos passem meses sem dar uma resposta, uma forma diplomática também de indicar que não estão satisfeitos com o nome proposto. O veto explícito a um embaixador estrangeiro causaria um abalo nas relações bilaterais. Portanto, o caminho de menor atrito seria o de "não decidir".

Essa não seria a primeira vez que o Brasil passa por uma situação parecida. Na última década, o governo de Cuba sentou sobre o nome de um embaixador sugerido pelo Planalto e uma segunda opção teve de ser buscada.

Fontes diplomáticas também confirmam que o governo sul-africano está acompanhando de perto o que ocorre entre os bispos brasileiros e as autoridades em Angola.

Do lado dos sul-africanos, a relação com o Brasil é considerada como estratégica e negociadores olham com desconfiança colocar tal dimensão sob uma lógica de arranjo doméstico entre o governo e movimentos religiosos no país.

Foi em parte pelo esforço do Brasil que a África do Sul passou a fazer parte dos diálogo dos Brics e também de um processo entre o Itamaraty e Índia, o IBAS. Ao longo dos anos, a pressão por acesso a remédios contra a Aids também aproximou os dois países, que se consideram como os principais polos de poder de suas respectivas regiões.

Na prática, o gesto de sentar sobre a aprovação de um nome obrigaria o governo brasileiro a buscar um outro nome. Se não bastasse, o Brasil é hoje representado em Pretória por um dos embaixadores mais experientes do Itamaraty, Sérgio Danese, reconhecido por seu profissionalismo e um nome da chancelaria que tem se dedicado a estudar e publicar sobre a política externa brasileira.

O contraste com Crivella, segundo diplomatas, não tem como ser mais explícito.

A lei permite que o presidente escolha quem ele quiser para ser seu embaixador no exterior. Mas a tradição diplomática brasileira raramente abriu espaço para quem não era da carreira diplomática. Um dos últimos a ocupar um cargo nessa condição foi o ex-presidente Itamar Franco, que foi embaixador em Portugal e na Itália.

Mas, dentro do Itamaraty, o sentimento é de irritação. Inconformados, diplomatas fizeram chegar ao ministro Carlos França a insatisfação.