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Jamil Chade

Brasil supera Índia e volta a ter maior número de casos e mortes na semana

Brasil tem média de mortes por covid acima de 2 mil pelo quinto dia seguido - EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Brasil tem média de mortes por covid acima de 2 mil pelo quinto dia seguido Imagem: EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/06/2021 13h05

Resumo da notícia

  • Novos dados da OMS indicam que, pelo menos oficialmente, os registros no Brasil voltam a superar casos na Índia
  • Novas contaminações no Brasil representam 20% do total mundial
  • De acordo com OMS, mundo vive oito semanas de queda de contaminações; Brasil vai no sentido contrário
  • Dúvidas sobre os números indianos foram levantadas; mas OMS trabalha só com os dados oficiais e indica que subnotificação ocorre em outras locais

Na semana que registrou 500 mil mortes no Brasil pela covid-19, dados publicados nesta segunda-feira pela OMS (Organização Mundial da Saúde) indicam que o país voltou a superar a Índia em número de novos casos oficiais nos últimos sete dias e, uma vez mais, lidera a expansão da doença e dos mortos no mundo.

No período de uma semana que terminou no dia 20 de junho, foram 508 mil novos casos confirmados no país, contra 424 mil oficialmente registrados na Índia.

Cientistas e pesquisadores questionam os números indianos e apontam que o volume real seria bem maior do que as autoridades em Nova Déli estão registrando. Mas a OMS tem como política trabalhar apenas com os dados oficiais oferecidos por cada um dos governos e já alertou que a subnotificação não é um problema exclusivo de indianos.

Independente da situação oficial ou real indiana, no caso do Brasil, os dados apontam para uma expansão da contaminação. Na semana anterior, o mapeamento da OMS indicava 449 mil novos contaminados no país.

De acordo com Mike Ryan, diretor de operações da OMS, a taxa de infecção no país por cada um milhão de pessoas é 30 vezes superior ao que existe no Japão, sede das Olimpíadas.

Nos últimos dois meses, as cidades indianas viveram verdadeiros dramas, diante de uma explosão de casos. Nas últimas semanas, porém, os números oficiais foram reduzidos depois de um período longo de confinamento. Existe, porém, questionamentos sobre os números indianos que são oficialmente registrados. Mas é com esses dados que a OMS faz seu mapeamento.

A lista dos locais com maior número de infecções é completada pela Colômbia, com 192 mil, e Argentina, com 140 mil. Os EUA aparecem apenas na décima posição, com 57 mil casos na semana.

Em números totais desde o início da crise, o Brasil ocupa a terceira posição, com um total de 17,8 milhões de casos confirmados. EUA e Índia ainda superam o cenário brasileiro, com 33,1 milhões e 29,9 milhões de pessoas contaminadas, respectivamente.

A contagem das mortes também mostra que o Brasil voltou a liderar o ranking mundial. Foram 14,5 mil óbitos no país em sete dias, contra 13,8 mil na Índia e 4,1 mil na Colômbia. Os EUA, que lideraram a crise por tantos meses, aparecem apenas na oitava posição, com 1,5 mil mortes em uma semana.

A expansão dos casos no Brasil vai na direção contrária da média mundial. Nesta segunda-feira, Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, comemorou a "boa notícia" de ver o mundo registrar a oitava semana consecutiva de redução de novos casos, com 2,5 milhões em todos os países. O Brasil, porém, representa 20% dos novos casos.

A OMS também comemora a sétima semana consecutiva de queda em mortes, com 64 mil vítimas em uma semana. Tedros, porém, alerta que os números continuam elevados. "São 250 novos casos de contaminação por minuto e seis mortes", lamentou.

Segundo ele, se houve um avanço real nos países ricos para controlar a doença, outras regiões do mundo registraram um salto importante nas contaminações. Na África, por exemplo, a alta na semana foi de 40% e, em alguns países do continente, os números triplicaram.

A chegada de variantes, falta de vacinas, maior interação entre as pessoas e falta de medidas de isolamento são algumas das explicações para o salto. Além do continente africano, uma tendência similar é registrada na América Latina e certas regiões da Ásia.

Variante Delta é nova ameaça global

Outra preocupação da OMS é a expansão da variante Delta (primeiro registrada na Índia) por mais de 90 países pelo mundo. De acordo com a entidade, diante de uma população não protegida, a mutação pode gerar um colapso nos sistemas de saúde e gerar uma nova fase inédita na crise sanitária.

De acordo com Ryan, a variante já provou ser mais transmissível que a mutação no Reino Unido e, portanto, aumenta também a letalidade diante da incapacidade do setor de saúde em lidar com o aumento de casos.

Para a OMS, a única saída é acelerar a vacinação nos países em desenvolvimento.

Produção de vacinas na África

Num esforço para garantir uma maior produção de vacinas no mundo, a OMS ainda anuncio nesta segunda-feira um acordo para a transferência de tecnologia e a criação de um centro de fabricação de doses na África do Sul.

"Os países pobres não podem depender dos ricos. Já vimos isso com a Aids, com a diabete e o acesso à insulina", disse Tedros. "Depender apenas de algumas empresas para produzir a vacina é perigoso", alertou.

O novo centro de produção é apoiado pela França e vai na direção promovida pela OMS de ampliar a fabricação em diferentes regiões. "Cada continente deve ter capacidade de produzir suas próprias vacinas", disse Emmanuel Macron, presidente da França.

Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, comemorou a iniciativa. "Isso é histórico para a autodeterminação do continente", disse.

De acordo com a OMS, uma vez transferida a tecnologia, as primeiras vacinas sul-africanas devem chegar ao mercado em nove meses. Hoje, apenas duas de cada cem pessoas no continente africano foram vacinadas contra a covid-19.