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Jamil Chade

Sistema de espionagem que Bolsonaro ensaiou compra visou 180 jornalistas

O vereador Carlos Bolsonaro com seu pai, o presidente Jair Bolsonaro - Geraldo Magela | Agência Senado
O vereador Carlos Bolsonaro com seu pai, o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Geraldo Magela | Agência Senado
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/07/2021 18h51

Estamos sob ataque. Há um plano e um objetivo. As vítimas não são os jornalistas. Mas sim a democracia e a liberdade.

Neste domingo, alguns dos principais jornais do mundo revelaram como repórteres, colunistas e editores de todo o mundo foram alvos de uma possível espionagem por meio de um software criado por uma empresa de Israel. Pelo menos 180 profissionais estavam em uma lista obtida pela imprensa internacional e que revela o interesse de clientes em espionar os telefones desses jornalistas.

O software Pegasus foi criado pelo grupo NSO, de Israel. De acordo com publicações como "The Washington Post", "The Guardian" e "Le Monde", uma lista de até 50 mil números de telefone pode ter sido alvo do sistema nos últimos cinco anos. Os documentos foram inicialmente obtidos pelas entidades Anistia Internacional e a Forbidden Stories.

Nem todos esses números chegaram a ser hackeados. Mas a lista inclui profissionais de meios como "The Wall Street Journal", CNN, "The New York Times", Al-Jazeera, France 24, Radio Free Europe, Mediapart, "El País", Associated Press, "Le Monde", Bloomberg, "The Economist", Reuters e Voice of America.

De acordo com os jornais, dois dos números de telefone pertencem a mulheres próximas do jornalista saudita Jamal Khashoggi, morto por um esquadrão saudita em 2018 na Turquia. A lista ainda traz o número de telefone de um jornalista mexicano que foi assassinado.

Muitos desses jornalistas estavam em locais como Azerbaijão, Barein, Hungria, Índia, Cazaquistão, México, Marrocos, Ruanda, Arábia Saudita e Emirados Árabes.

Em maio, o UOL revelou com exclusividade como Carlos Bolsonaro ensaiou a compra do mesmo equipamento. A licitação em questão era a de nº 03/21, do Ministério da Justiça, no valor de R$ 25,4 milhões. O lobby do filho do presidente abriu um racha entre o Planalto e parte da inteligência brasileira. Carlos Bolsonaro, na época, ironizou a reportagem.

Agora, as revelações apontam que a espionagem contra jornalistas não é uma iniciativa de amadores ou governantes isolados que, desesperados, optam por silenciar a imprensa e ativistas. Os detalhes das reportagens mostram que o trabalho é sistêmico, profissional e amplo.

Um dos usuários do sistema estaria na Hungria, país comandando por Viktor Orban e um dos poucos aliados de Jair Bolsonaro pelo mundo. Ao longo de uma década, as autoridades de Budapeste conseguiram estrangular a imprensa e a guinada autoritária no país do Leste Europeu passou a ser consideradas como referências em Brasília.

Alguns meses antes da pandemia começar, em uma viagem para a capital da Hungria, estive com um dos poucos editores independentes que ainda consegue sobreviver financeiramente no país. O local do encontro foi um centro cultural alternativo, sede de movimentos progressistas e LGBT sob ataque.

No meio de nossa conversa numa mesa afastada das demais, um homem se aproximou dizendo que admirava muito a coragem do jornalista húngaro. E ofereceu uma cerveja. O editor agradeceu, encerrou o diálogo com o estranho e sequer tocou no copo oferecido durante toda a noite, que permaneceu naquela mesa como uma espécie de símbolo da desconfiança que vivem profissionais sob constante ataque e monitoramento.