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Jamil Chade

Bar é reaberto antes da escola e 600 milhões de alunos continuam sem aulas

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Imagem: Unsplash
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/07/2021 07h33

Resumo da notícia

  • Unicef faz apelo para que governos priorizem medidas que permitam reabertura segura de escolas e que não aguardem pelas vacinas
  • Entidade estima que prioridade na reabertura precisa ser repensada em diversas partes do mundo
  • "Escola deve ser a última a fechar e a primeira em abrir", diz porta-voz da Unicef

Um ano e meio depois da eclosão da pior crise sanitária em décadas, a Unicef —organização da ONU para a infância— alerta que mais de 600 milhões de crianças pelo mundo continuam fora das salas de aula. Para a entidade, o impacto será devastador para toda uma geração e ameaça comprometer a renda dessa população em cerca de US$ 10 trilhões ao longo de suas vidas.

O alerta é claro: governos não podem esperar pela vacinação de seus professores para buscar formas seguras de reabrir suas escolas. Numa coletiva de imprensa em Genebra nesta terça-feira (27), a Unicef também criticou governos que colocaram a reabertura de bares como prioridade, antes dos locais de ensino.

Isso não pode continuar. Embora reconheçamos que os líderes em todo o mundo são frequentemente obrigados a lutar com a impossível escolha entre fechar suas comunidades ou ajudar a facilitar a disseminação em massa de uma doença perigosa, as escolas deveriam ser as últimas a fechar e as primeiras a reabrir.
James Elder, porta-voz da Unicef

"Há provas claras de que as escolas primárias e secundárias não estão entre os principais motores da transmissão", insistiu Elder.

Metade dos países asiáticos ainda vive uma situação de fechamentos de escolas, com a perda até agora de mais de 200 dias de aulas.

Mas alguns dos períodos mais longos sem escola foram registrados na América Latina, onde 18 países ainda vivem com estabelecimentos de ensino parcialmente ou completamente fechadas.

No sul e leste da África, 40% das crianças estão fora das escolas.

Em 2021, a suspensão das aulas nessa região do mundo afetou 45 milhões de crianças. Antes da pandemia, 37 milhões já não frequentavam as salas de aula.

"Educação, segurança, amigos e alimentação foram substituídos por ansiedade, violência e gravidez na adolescência", disse Elder.

Segundo ele, Uganda é o exemplo do que pode ocorrer quando se fecham as escolas. "Entre março do ano passado e junho deste ano, houve um aumento de mais de 20% na gravidez entre as pessoas de 10 a 24 anos", disse.

A Unicef também destaca que a solução online para milhões de alunos é ainda uma realidade distante.

"Para pelo menos um terço das crianças em idade escolar do mundo, o aprendizado à distância está simplesmente fora de alcance. Em todo o Leste Asiático e no Pacífico, a Unicef estima que mais de 80 milhões de crianças não tiveram acesso a nenhum ensino à distância durante o fechamento das escolas", explicou.

As escolas de Uganda estão fechadas há 306 dias e o país tem a menor conectividade à Internet em casa, com 0,3% da população atendida. No Sul do Sudão, são 231 dias de fechamento escolar completo e novamente menos da metade das crianças em idade escolar têm acesso à Internet em casa.

Abandono

Na África do Sul, o fechamento de escolas significa que de 400 mil a 500 mil alunos abandonaram a escola ao longo dos últimos 16 meses. De acordo com a Unicef, o Banco Mundial estima uma perda de 10 trilhões de dólares em ganhos ao longo do tempo para esta geração de estudantes.

"Não estamos falando de desenvolvimento; mas de economia. A escolaridade aumenta os ganhos em 10% ao ano", disse.

O temor da Unicef é de que as perdas que crianças e jovens incorrerão por não estarem na escola "podem nunca ser recuperadas". "Este choque terá impactos negativos duradouros, portanto devemos usá-lo como uma oportunidade para acelerar - para reimaginar a educação", defendeu.

Num apelo aos governos, a entidade faz cinco recomendações:

1. Reabrir, mesmo sem que a vacina tenha chegado.

"As escolas devem reabrir o mais rápido possível. A reabertura das escolas não pode esperar que todos os professores e alunos sejam vacinados. Com a escassez global de vacinas que assola os países de baixa e média renda, a vacinação dos trabalhadores da linha de frente e daqueles que correm maior risco de doenças graves e morte continuará sendo uma prioridade".

2. Buscar as crianças que estavam fora de aula.

"À medida que as escolas reabrem, precisamos estender as matrículas para aquelas crianças que já estavam fora da escola antes do COVID-19. Isto pode ser feito removendo barreiras financeiras, fornecendo recursos de aprendizagem, afrouxando os requisitos de matrícula e oferecendo programas flexíveis, tanto na escola como em programas não formais", defende.

Para a Unicef, matricular todos os novos ingressantes na escola, independentemente da idade, é uma "estratégia chave". "Em alguns países, funcionários do governo e funcionários da escola fazem visitas de porta em porta para que todas as crianças se matriculem. Também precisamos mudar as políticas que proíbem meninas grávidas de ir à escola e permitem que meninas grávidas e jovens mães voltem à escola", defende Elder.

3. Transferência de recursos.

A entidade pede o aumento nas transferências de dinheiro para os mais vulneráveis, inclusive aumentando o financiamento através de um mecanismo de financiamento global e perdão de dívidas.

4. Governos e doadores devem proteger o orçamento da educação.

5. Ampliar a distribuição de vacinas para os países mais pobres.