PUBLICIDADE
Topo

Jamil Chade

Meta de imunidade coletiva fica mais distante diante de variantes, diz OMS

Metrô de Tóquio durante hora do rush: máscaras, mas sem distanciamento social - SOPA Images/SOPA Images/LightRocket via Gett
Metrô de Tóquio durante hora do rush: máscaras, mas sem distanciamento social Imagem: SOPA Images/SOPA Images/LightRocket via Gett
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

04/08/2021 11h13

Resumo da notícia

  • Se inicialmente a OMS previa que seria necessário vacinar 70% da população para garantir a imunidade de rebanho, agora agência abandona projeção
  • OMS ainda alerta que 3ª dose da vacina em países ricos vai gerar amplo desabastecimento global

Atingir uma imunidade de rebanho contra a covid-19 será ainda mais difícil, diante da constatação de que as novas variantes do vírus são mais transmissíveis. O alerta é da OMS (Organização Mundial da Saúde), que mudou seu tom sobre a proteção comunitária e insiste agora que não sabe qual a taxa das populações que será necessária ser ultrapassada para que tal cenário seja obtido.

No início do ano, a OMS indicava que seria necessária a imunização por vacinas de 70% a 75% de uma população para que uma imunidade de rebanho fosse declarada. Na prática, isso poderia significar o controle da doença, ainda que sua erradicação seja um trabalho diferente.

Agora, porém, os técnicos da entidade admitem que não há mais como colocar uma taxa, principalmente diante de variantes mais poderosas e transmissíveis.

"Não sabemos qual o número para atingir a imunidade coletiva", disse Kate O'Brian, diretora de vacinas da OMS em uma coletiva de imprensa nesta quarta-feira, em Genebra.

"Ao vermos a expansão das variantes, isso significa que são mais transmissíveis e é necessário uma taxa maior de proteção para que haja imunidade coletiva", explicou. A OMS agora apenas indica que a vacinação terá de ser "substancial".

O alerta vem num momento no qual os números semanais da OMS revelam que a pandemia continua a se expandir. Na semana terminada no domingo, foram mais de 4 milhões de novos casos de contaminação. Para a entidade, tal avanço não tem qualquer relação com a eficácia das vacinas. Mas com a decisão de governos de abrir mão de medidas de controle social.

Mike Ryan, diretor de operações da OMS, explicou que outras campanhas de vacinação têm metas diferentes com relação às taxas para garantir a imunidade coletiva.

Segundo ele, a imunidade coletiva é a situação na qual o volume de pessoas vacinadas chega a tal proporção que, mesmo quem não estiver imunizado, ganha uma proteção indireta. "Os vacinados criam uma barreira. Não sabemos qual o valor para a covid-19", admitiu.

"Depende de como é a transmissão do vírus e estamos vendo variantes mais transmissíveis. E depende da proteção da vacina", explicou Ryan.

Moratória: 3ª dose de vacina irá gerar desabastecimento em países mais pobres

Diante de uma desigualdade cada vez maior na distribuição de vacinas e o fracasso no envio de doses aos países mais pobres, a OMS (Organização Mundial da Saúde) pede o estabelecimento de uma moratória na administração de uma terceira dose de vacinas. Isso, segundo a entidade, permitiria que o abastecimento possa ser realizado para os países mais pobres.

Alemanha e Israel já anunciaram que começarão a entregar uma terceira dose de vacinas para a população que já tenha sido completamente imunizada. Mas há um número crescente de países avaliando essa possibilidade, justamente diante da proliferação da variante delta, mais transmissível.

Para a OMS, não há ainda evidências científicas do impacto da terceira dose. Mas, acima de tudo, a preocupação da entidade se refere ao volume de produção e distribuição.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, alerta que, se o caminho de uma terceira dose for adotado, a escassez de vacinas para os países mais pobres será ainda mais dramática.

Segundo ele, nos países mais pobres, milhões de pessoas não podem ficar em casa e precisam "trabalhar para comer". "Eles trabalham para comer. Eles precisam de vacinas de forma urgente", disse.

Tedros não deixou de criticar governos que avaliam se lançar em nova etapa de vacinação de uma população já protegida. "Mesmo que milhões de pessoas esperem por vacinas, alguns países ricos caminham para uma dose extra. Mais de 4 bilhões de vacinas já foram administradas. Mais de 80%, porém, foram para os ricos e emergentes, mesmo que eles representam menos de 50% da população mundial", disse.

"Entendo a preocupação de governos com a variante delta. Mas não podemos aceitar que aqueles que já usaram estoques de doses usem ainda mais, enquanto os demais ficam desprotegidos", afirmou Tedros.

Ele relembrou que, em maio, a OMS lançou uma campanha para garantir que 10% da população de cada um dos países seja vacinada até o final de setembro. Mas, entrando no mês de agosto, a agência admite que a meta corre o risco de não ser atingida.

"Em maio, nos países mais ricos, existiam cerca de 50 doses administradas para cada cem pessoas. Hoje, a taxa é de cem doses para cada cem pessoas. Enquanto isso, os mais pobres têm uma taxa de 1,5 dose para cada 100 pessoas", constatou Tedros.

Para ele, uma terceira dose em alguns países levará a uma maior crise de abastecimento pelo mundo. "Precisamos de uma mudança urgente. A maioria das doses não pode ir para os países ricos. Mas para os pobres", disse.

"Pedimos uma moratória em doses extras até final de setembro, para permitir que a população em outros países sejam vacinadas", defendeu o diretor-geral.

Bruce Aylward, um dos principais nomes da OMS para a campanha de vacinação, admite que o mundo não está no caminho certo para atingir a meta de ter 10% da população de cada país vacinada até setembro. "Decisões terão de ser tomadas se quisermos sair dessa pandemia", alertou, numa referência ao fato de que a distribuição de países ricos aos mais pobres terá de ser ampliada.

"Há uma desigualdade cada vez maior. Na África, são menos de 2% da população vacinada, contra 50% nos países mais ricos", disse.

Ele também criticou governos que optam por vacinar jovens e crianças, enquanto idosos em outros países não estão protegidos. "Temos que estabelecer prioridades", disse. "Precisamos ser sérios e ter uma visão global", completou.

Para ele, o G-20 tem um papel fundamental em tomar tal decisão. "O destino da pandemia depende da liderança do G-20", alertou.