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Jamil Chade

Pontes vai à OMS tentar desfazer imagem de governo negacionista

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/08/2021 04h00

O ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, se reuniu em Genebra, na Suíça, com a cúpula da OMS (Organização Mundial da Saúde) para mostrar o desenvolvimento de vacinas, diagnósticos e tratamentos desenvolvidos no Brasil. De férias, o diretor-geral da agência, Tedros Ghebreyesus, não esteve com o representante do governo de Jair Bolsonaro.

A reunião ocorreu em meio a um debate na CPI da Covidsobre a atuação do governo de Jair Bolsonaro(sem partido) na promoção de tratamentos sem comprovação científica. A Comissão Parlamentar de Inquérito decidiu sugerir o indiciamento do presidente por charlatanismo.

Nesta semana, a OMS ainda anunciou formalmente a decisão de aprofundar os estudos mundiais com três remédiosque potencialmente poderiam ser usados para pacientes graves e afetados pela covid-19.

Mas, segundo Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, cloroquina, remdesivir, lopinavire interferon mostraram "pouco ou nenhum efeito em pacientes hospitalizados". Já em outubro do ano passado esses remédios foram retirados dos testes.

No Brasil, o governo mobilizou sua diplomacia e parte do Estado na busca, compra e distribuição da cloroquina.

Na OMS, porém, os três remédios que continuarão a ser testados foram selecionados por seu "potencial de reduzir o risco de morte em pacientes hospitalizados". Trata-se de uma lista de remédios que já são usados para outras doenças. Artesunate, por exemplo, é usado contra a malária, enquanto imatinibé usado contra o câncer, e o infliximabé recomendado por doenças do sistema imunológico.

Acordo com OMS

Pontes, por sua vez, vai apresentar o desenvolvimento de projetos de vacinas brasileiras, diagnósticos e tratamentos, como o caso da nitazoxanida, conhecido como Annita. No início do ano, o Ministério da Saúde informou em carta a deputados que decidiu não incluir o produto na lista de remédios distribuídos para o tratamento da covid-19 na rede pública de saúde.

Na OMS, uma das propostas apresentadas é de que essa aproximação entre o Brasil e a agência se traduza num acordo de colaboração para o desenvolvimento de pesquisa.

Durante a reunião, que durou quase duas horas, a OMS ainda destacou a necessidade de que o mundo chegue a um acordo global para evitar pandemias no futuro. O processo está sendo negociado e estabeleceria obrigações por parte de cada um dos governos, diante de surtos. O tratado ainda estabelece a necessidade de troca de informações e permite uma maior ingerência internacional caso um surto afete um país.

O governo brasileiro não participou do lançamento da ideia de um novo tratado, liderado pela Europa e a OMS. Mas a esperança da agência é o de convencer o Brasil a apoiar a ideia.

Tanto o Brasil como a OMS ainda apostam no país como uma das bases da expansão de produção de vacinas, principalmente a partir de 2022. A entidade estima que o mundo precisará dobrar a capacidade de produção para atender a população do planeta e, para isso, será necessário ampliar os locais de fabricação de doses.

O Brasil, conforme Tedros já indicou no primeiro semestre do ano, é uma das esperanças para servir de "hub" para a produção e exportação de vacinas.

Governo Bolsonaro recupera projeto iniciado pelo PT

Pontes ainda aproveitou sua passagem por Genebra para se reunir com a direção do CERN, o centro europeu de pesquisas nucleares. Trata-se do local da criação da web e base do maior acelerador de partículas do mundo.

Em 2010, o Brasil assinou uma carta de intenções que deu início formal ao processo de adesão do País ao CERN. A partir de 2011, as negociações foram iniciadas e a entidade estipulou que o Brasil deveria pagar US$ 12 milhões por ano, como contribuição, uma fração pequena diante do orçamento de US$ 1,2 bilhão da instituição.

Dois anos depois e após realizar uma avaliação sobre a capacidade científica do Brasil, o CERN deu sinal verde para a adesão do país, que naquele momento estava sob o comando de Dilma Rousseff (PT).

Mas, sem um acordo para aprovar a adesão no Congresso Nacional e com questionamentos de parte da comunidade científica, o processo ficou parado. Impeachment, crise política, cortes no orçamento e indefinições arrastaram o processo de adesão por anos.

Pontes, em 2019, decidiu recuperar o projeto iniciado nos governos do PT. Uma das estratégias é estabelecer que o dinheiro para a contribuição anual ao CERN não venha de pesquisa. Mas do Itamaraty.

Como o processo havia se arrastado por dez anos, a entidade foi obrigada a refazer a avaliação sobre a capacidade científica do país. Ainda no primeiro semestre de 2021, o CERN voltou a dar uma chancela à adesão e, agora, a esperança da comunidade científica nacional é que o processo entre em sua fase final.