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Jamil Chade

A 'guerra ao terror' dos EUA teve um vencedor: a China

Bandeira da China e dos EUA - ALY SONG
Bandeira da China e dos EUA Imagem: ALY SONG
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

11/09/2021 11h38

Poucas horas depois dos ataques contra os EUA, em 2001, o presidente chinês Jiang Zemin redigiu um telegrama e enviou ao presidente George W. Bush. O sinal era de solidariedade, com uma demonstração de "profunda simpatia" ao povo americano. Um mês depois, os dois líderes teriam seu primeiro encontro, no qual o foco de combate ao terror foi colocado no centro da mesa. Ao terminar a reunião, Bush declarou como ele não tinha dúvidas de que a China estaria "ao lado dos EUA" durante um "período difícil".

20 anos depois, o cenário é bastante diferente. A "guerra ao terror" liderada pelos americanos não apenas consumiu esforços diplomáticos e dinheiro da maior potência do mundo, mas também revelou crimes cometidos pelos EUA em prisões secretas pelo mundo, tortura e abusos de direitos humanos.

O impacto para a reputação da "terra da liberdade" foi real, minando inclusive sua credibilidade internacional como a voz da democracia.

Enquanto isso, mais de US$ 6,4 trilhões seriam gastos nesse esforço americano, o que hoje é considerado como um dos maiores erros estratégicos do país.

Desafios globais acabaram sendo colocados em segundo plano por anos. Mas para analistas e mesmo funcionários do estado americano, tal gasto ocorreu em detrimento de sua própria modernização de infraestrutura, desviou verbas de um eventual reforço de sua presença na Ásia e, acima de tudo, de um foco em manter sua superioridade econômica.

Enquanto isso, Pequim usaria os 20 anos de guerras americanas para ampliar seu poder. Se em 2001 a economia chinesa representava apenas 7% do PIB mundial, ela chegará ao final do ano com uma participação de quase 18%, e superando os EUA.

Foi ainda neste período que a China passou a ser o maior parceiro comercial de mais de cem países pelo mundo, avançando sobre regiões que tinham sido "abandonadas" pela diplomacia americana.

Os chineses também se aproveitaram ainda da "guerra ao terror" dos EUA para justificar uma repressão contra dissidentes. Tudo isso funcionou, pelo menos ao prisma da China.

20 anos depois de correr para mostrar solidariedade com os EUA, a declaração oficial do governo chinês para marcar o 11 de setembro é a prova cabal de que, em diplomacia, não existe vácuo de poder e que opções de política externa determinam a posição de um país no mundo.

Ao comentar a data, o Ministério de Relações Exteriores da China fez um apelo para que o mundo coopere na luta contra o terrorismo. Mas deixou claro que a mensagem não seria apenas de solidariedade.

Para Pequim, chegou o momento de os EUA tirarem "uma lição profunda" dos 20 anos de guerra no Afeganistão e insistiu que, neste período, o terrorismo não foi derrotado e de fato cresceu.

20 anos após o abalo sísmico no planeta, a China se sente forte o suficiente para dar uma lição de moral em seu grande rival, numa declaração que foi interpretada no mundo diplomático como um claro sinal de que Pequim pode ter sido a grande vencedora da "guerra ao terror".