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Jamil Chade

Merkel: conservadora, de direita e terrivelmente democrática

Chancelar alemã, Angela Merkel, teve tremores durante uma cerimônia oficial - Kay Nietfeld/dpa/AFP
Chancelar alemã, Angela Merkel, teve tremores durante uma cerimônia oficial Imagem: Kay Nietfeld/dpa/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

26/09/2021 04h00

Em 16 anos, tive o privilégio de ouvir Angela Merkel dezenas de vezes. Em cúpulas, em palanques, coletivas de imprensa, em seminários e, mais recentemente, em eternos zooms. Mas, em todos eles, sempre houve um aspecto que me marcou sobre a líder conservadora e de direita: seu compromisso inabalável com a democracia.

Talvez um dos momentos mais marcantes foi escutá-la no centenário da OIT (Organização Internacional do Trabalho), a organização que muitos no Brasil acreditam ser apenas um "antro" de sindicatos, bolivarianos e comunistas.

Em 2019, Jair Bolsonaro chegou a ser convidado para o evento. Mas decidiu mandar alguém do terceiro escalão do governo para representa-lo.

Pois bem, quem fez questão de viajar até Genebra para "agradecer" a OIT por todos seus trabalhos não foi o regime cubano, nem o venezuelano e nem o chinês. Mas sim a líder da Europa conservadora: Angela Merkel.

Ao subir ao pódio, o que ela diria deixaria confuso parte daqueles que bajulam o poder hoje no Brasil. Ela não mediu as palavras: estava preocupada com a crescente desigualdade social hoje no mundo. "Precisamos fazer mais esforços para garantir que o crescimento da economia signifique progresso social", disse, numa frase que hoje no Brasil seria imediatamente classificada de comunista.

Antes mesmo da pandemia chegar, ela alertava que, no campo social, o mundo vivia retrocessos. "A injustiça social parece crescer", alertou. Ela ainda ressaltou: "a pobreza num lugar ameaça a prosperidade em todos os lugares". Merkel deixou claro que o mundo precisa lutar pela "paz social e preservar a dignidade humana". Segundo ela, a paz num país requer "justiça social".

Naquele discurso, ela defendeu a criação de fundos para acidentes de trabalho, para desenvolver novas diretrizes para ajudar os pais a criar seus filhos, garantir salário mínimo, a defesa dos imigrantes e até o estabelecimento de padrões trabalhistas mínimos em acordos comerciais.

Merkel afirmou que o trabalho infantil é inaceitável e soltou uma frase que, de novo no contexto brasileiro, estaria ameaçada de ser tratada nas redes sociais como "mimimi". "Crianças não devem trabalhar nos campos, mas em seus sonhos", disse.

O discurso também deu amplo espaço ao poder da mulher e Merkel deixou claro que não há alternativas: o estado (sim, o estado) precisa entrar para garantir a igualdade de gênero no mundo do trabalho.

Segundo ela, foi só com leis duras que, na Alemanha, as empresas passaram a ter um número equilibrado de mulheres e homens em seus conselhos. Nem mesmo tendo uma mulher no poder, segundo Merkel, o setor privado se moveu de forma voluntária neste sentido

Ao longo de seu discurso, ela culpou seu próprio país pela barbárie da guerra e não tentou justificar a história. Merkel fez ainda uma forte defesa do multilateralismo e disse que, 100 anos depois da criação da OIT, ela é tão necessária como em 1919.

Mas Merkel alertou: muito ainda resta por fazer. A chanceler insistiu que a forma de se mostrar um rosto humano na sociedade é garantindo um "trabalho decente" e um "local mais justo" para o emprego.

Deixou o palco sob aplausos, inclusive dos sindicatos.

Seu mandato está chegando ao final e, ao longo de seu governo, certamente errou ao exigir cortes pela UE que jogaram milhões na miséria. Ela também errou num receituário desastroso para a crise do euro, cobrando de governos ações por um desequilíbrio que apenas beneficiou a Alemanha. Ainda errou em, de forma egoísta, apenas culpar os gregos por uma crise que tinha mais de um responsável

Ela salvou a moeda única e o projeto da Europa. Mas criou um exército de descontentes, muitos dos quais foram buscar na extrema-direita uma falsa resposta a seus problemas.

Mas, ainda assim, a líder da direita liberal mostrou diante dos representantes dos trabalhadores que sabe que uma sociedade justa se constrói com mais direitos. Não, ela não pediu o fim do capitalismo, nem atacou aos bancos e muito menos denunciou a elite financeira.

Mas deu um claro sinal de que sabe que a justiça social é a melhor receita para os negócios, para o crescimento da economia e para a paz. E, claro, o pilar da democracia.