PUBLICIDADE
Topo

Jamil Chade

Jornalistas são agredidos por seguranças de Bolsonaro em Roma

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

31/10/2021 14h04Atualizada em 31/10/2021 21h23

O terceiro passeio de Jair Bolsonaro pelas ruas de Roma em apenas três dias foi marcado pela violência de policiais italianos contra jornalistas. O presidente, depois de retornar para o centro da capital italiana ao concluir o G20, decidiu encontrar com apoiadores em uma rua atrás da embaixada do Brasil.

Depois de sair pelo balcão da embaixada no melhor estilo de Evita Peron para acenar aos apoiadores, Bolsonaro desceu para falar com os brasileiros. Fez um discurso que repetia seus principais motes na pandemia e fez fotos com os apoiadores, sempre sem máscara.

Mas a violência começou antes de sua aparição. Num certo momento, quando a repórter da Folha de S.Paulo deu um passo na direção de onde o presidente sairia, um policial a empurrou com força. Antes, uma produtora da Rede Globo foi intimidada por supostos populares.

Depois de um breve discurso, Bolsonaro indicou que sairia para caminhar. E, neste momento, diversos jornalistas passaram a ser empurrados e agredidos pelos seguranças que o acompanhavam.

Poucos minutos depois de Bolsonaro deixar a embaixada, a equipe da GloboNews foi agredida por policiais italianos, enquanto um deles levou um dos jornalistas com violência até o encostar em um carro. Já os apoiadores de Bolsonaro eram autorizados a ficar mais perto do presidente. O repórter da GloboNews levou um soco do segurança.

Antes disso, Bolsonaro se mostrou hostil com o trabalho do repórter da Globo. Ao ser questionado sobre por que não havia ido ao encontro do G20 pela manhã, o presidente respondeu: "É a Globo? Você não tem vergonha na cara."

Quando a reportagem do UOL foi filmar a violência contra os jornalistas da GloboNews e tentar identificar o policial italiano que cometeu a agressão, o segurança empurrou, agarrou o braço para torcê-lo e levou o celular. Instantes depois, jogou num dos cantos da rua.

O colunista do UOL e a repórter da Folha registraram queixa das agressões na polícia.

Todos os jornalistas que estavam oficialmente credenciados e portavam suas identificações claramente durante a caminhada do presidente Bolsonaro. Os policiais italianos estavam sendo acompanhados também por seguranças brasileiros.

"Esse episódio lamentável é reflexo direto dos atos do presidente. O comportamento dos seguranças espelha o de Bolsonaro, que reage com violência a quem simplesmente cumpre sua função ao seguir seus passos e o submeter a um contraditório que ele sempre busca evitar", disse Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL.

Em nota sobre o episódio, a Folha de S.Paulo afirmou: "A Folha repudia as agressões sofridas pela repórter Ana Estela de Sousa Pinto e outros jornalistas em Roma, mais um inaceitável ataque da Presidência Jair Bolsonaro à imprensa profissional."

Diante da confusão que se estabelecia, Bolsonaro abortou o passeio menos de dez minutos depois, e retornou para a embaixada.

Num raro momento mais próximo ao presidente, o UOL perguntou a Bolsonaro por qual motivo ele não irá para a Cúpula do Clima, em Glasgow. Ele apenas respondeu: "não te devo satisfação".

Nenhum dos policiais aceitou explicar se eram segurança da embaixada, privados ou do estado italiano. Da parte do governo brasileiro, membros da assessoria de imprensa acompanharam a caminhada e, em nenhum momento, intercederam ou saíram para ajudar os jornalistas.

Procurada, a Secom não respondeu sobre as agressões. Nenhum contato por parte da delegação brasileira foi realizado com os jornalistas depois dos acontecimentos.

Por meio de nota, a comissão de liberdade de expressão da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) repudiou as agressões contra os jornalistas. "É lamentável que incidentes como esse ocorram, refletindo uma postura frequente de desrespeito ao trabalho dos profissionais de imprensa", diz a entidade.