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Jamil Chade

COP26: Fracasso em acordo ameaça deixar 28 milhões de brasileiros sem água

5.out.2021 - Moradores de Cidade Tiradentes, extremo leste da capital sofrem com falta de água. A dona de casa Maria José Reinaldo, 65, consegue lavar a louça com o pouco de água que ainda resta na caixa d"agua - 5.out.2021 - Marcelo Justo/UOL
5.out.2021 - Moradores de Cidade Tiradentes, extremo leste da capital sofrem com falta de água. A dona de casa Maria José Reinaldo, 65, consegue lavar a louça com o pouco de água que ainda resta na caixa d'agua Imagem: 5.out.2021 - Marcelo Justo/UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/11/2021 07h00

Um eventual colapso nas negociações em Glasgow, na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, abrirá caminho para uma transformação "irreversível" do modo de vida de bilhões de pessoas pelo mundo, com um impacto severo sobre o consumo e acesso à água.

Essa é uma das conclusões que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicará em seu próximo informe, previsto para fevereiro de 2022.

No novo documento, os cientistas deixam claro que o mundo deve se preparar para mudanças profundas nos próximos 30 anos. Segundo o rascunho do informe, obtido pelo UOL, a incapacidade de governos de limitar o aquecimento para 1,5° C e a falta de um plano de adaptação terão consequências devastadoras.

Um dos capítulos destacados pelos IPCC se refere especificamente à crise no acesso à água. "A insegurança hídrica causada pela escassez de água e a degradação da qualidade da água aumentarão com impactos subsequentes na subsistência, particularmente para populações vulneráveis", indicou.

"Com 3° C de aquecimento, estima-se que 170 milhões de pessoas serão afetadas por secas extremas. Em cenários mais extremos, projeta-se que as cidades serão negativamente afetadas por secas até 20 vezes mais frequentes até 2100 do que as secas mais severas do registro histórico", alerta.

"Mesmo um aquecimento de 2,7º C colocaria de 21 a 112 milhões de pessoas em estresse hídrico na Mesoamérica, 28 milhões no Brasil e até 31 milhões no resto da América do Sul", aponta o documento. No sul da Europa, mais de um terço da população estará exposta ao estresse hídrico.

Um impacto especialmente profundo ocorrerá nos centros urbanos. Segundo o IPCC, entre 2015 e 2020, as populações urbanas em todo o mundo cresceram em mais de 397 milhões de pessoas, sendo mais de 90% nos países mais pobres.

O resultado será um grupo ainda mais vulnerável, ampliando a desigualdade, a pobreza, a informalidade e a precariedade. Isso dificultará a adaptação e aumentará a vulnerabilidade à mudança climática.

"As mudanças climáticas, bem como fatores como a urbanização, estão aumentando a insegurança urbana quanto à água, pois os riscos climáticos como chuvas extremas e seca estão excedendo o desenho dos sistemas urbanos de água", disse.

Impacto para crescimento do PIB

O IPCC ainda faz uma correlação entre o desempenho econômico de países e a crise ambiental. No futuro informe, os cientistas apontarão que, de fato, essa já é a realidade nos últimos 50 anos. Os efeitos negativos seriam "substancialmente maiores em países de baixa renda do que em países de média a alta renda e, em alguns casos, efeitos positivos em países de alta latitude e renda".

"O aquecimento de temperaturas, a escassez de água, a seca e os eventos extremos tiveram impactos em quase todos os setores econômicos, em todas as regiões, com desafios específicos e algumas oportunidades para a produção de energia, extração de recursos naturais, turismo, comércio e finanças", constata.

Outra consequência ainda seria sentida na estabilidade política de diferentes regiões, diante de um aumento da pobreza, da fome e da queda do PIB:

"Os riscos climáticos podem ser um potencial multiplicador de risco de violência política e conflito armado em situações de fragilidade política e socioeconômica", diz.

"Os riscos climáticos podem influenciar a natureza, a duração e as características do conflito violento, mas não há evidência de que eles sejam os vetores diretos do conflito", indica. "Por outro lado, a alta qualidade ambiental e o acesso a áreas naturais sustenta o bem-estar humano e as sociedades pacíficas", completa.