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Desmatamento recorde desmente discurso do Brasil na COP26

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/11/2021 07h37

Novos números do desmatamento publicados nesta sexta-feira desmentem a estratégia do governo brasileiro na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas de vender uma ideia ao mundo de que está comprometido com uma política ambiental sólida.

Nesta sexta-feira, enquanto um pavilhão do governo brasileiro em Glasgow tentava construir uma imagem verde do país, um informe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais revelava o pior mês de outubro desde que o banco de dados foi criado.

A área de alertas detectada pelo Deter no mês de outubro, portanto, foi de 877 km², uma alta de 5% em relação a 2020 e recorde da série histórica de cinco anos.

"O dado do Deter é um lembrete de que o Brasil que circula pelos corredores e pelas salas da COP26, em Glasgow, é o mesmo onde grileiros, madeireiros ilegais e garimpeiros têm licença do governo para destruir a floresta", diz o Observatório do Clima.

"O governo ainda não divulgou o Prodes neste ano — o dado oficial do desmatamento, também medido pelo Inpe, de agosto de um ano a julho do ano seguinte, costuma estar disponível no começo de novembro", destacou.

"Na conferência do clima, o regime de Jair Bolsonaro vem tentando apresentar uma imagem de país preocupado com a crise climática: sob pressão internacional, assinou acordos multilaterais contra o desmatamento e as emissões de metano, vem deixando seus diplomatas trabalharem de forma construtiva na negociação e montou um esquema gigantesco de propaganda com ajuda dos lobbies do agro e da indústria", afirmam.

"Em casa, porém, é que reside o tal "Brasil real" de que tanto fala o ministro Joaquim Leite (Meio Ambiente): um país que desmontou as políticas de combate ao desmatamento, maior causa de emissões de gases de efeito estufa, que gastou centenas de milhões de reais em operações militares inócuas e que tem ao menos cinco projetos de lei no Congresso que anistiam o roubo de terras, acabam com o licenciamento ambiental e ameaçam as terras indígenas, barreiras mais eficazes contra a devastação", diz a entidade

"As emissões acontecem no chão da floresta, não nas plenárias de Glasgow", afirma Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. "E o chão da floresta está nos dizendo que este governo não tem a menor intenção de cumprir os compromissos que assinou na COP26."

Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, cobra do governo transparência sobre o destino dos recursos que estão sendo usados no Exército para as operações na região. "Por enquanto, esses investimentos não estão surtindo efeito", afirmou. "Estamos na mesma tendência de desmatamento do ano passado. Não houve queda", disse.

Constrangimento

Os números criam um constrangimento ao ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, que passou dias insistindo que o "futuro verde" do Brasil já era uma realidade. Em seus discursos, ele omitiu a alta no desmatamento e, ao ser questionado pela imprensa, insistia em dar respostas evasivas.

Um dos principais compromissos assinados por mais de cem países em Glasgow foi o de lutar contra o desmatamento das florestas até 2030. O Brasil aderiu à iniciativa, criando uma meta de acabar com o fenômeno ilegal até 2028. O tema era um dos maiores pontos de constrangimento internacional para o país e a adesão serviu, acima de tudo, para desmobilizar chantagens nas negociações.

Mas, sem credibilidade, o governo brasileiro não conseguiu convencer nem ambientalistas e nem cientistas de que o compromisso será cumprido. Além de não ser legalmente vinculante, o pacto não obriga o governo a agir imediatamente. Na prática, Bolsonaro usou a iniciativa para se blindar e, ao mesmo tempo, não ter de tomar medidas concretas.

Tanto o vice-presidente da Comissão Europeia, Franz Timmermans, como o enviado americano John Kerry fizeram declarações no mesmo sentido: sem medidas concretas, não há como trabalhar com o Brasil e promessas não serão suficientes.

Mas, para ambientalistas, o governo americano pecou em dar crédito ao Brasil. Para Diane Ruiz, do Greenpeace, "Kerry está legitimando a destruição florestal com seus acordos florestais na COP26" e "permitindo que Bolsonaro avance mais na destruição das florestas e no abuso dos direitos humanos".

"O Brasil está planejando atingir seu objetivo de reduzir o desmatamento ilegal, legalizando mais desmatamento", disse. "Quando a delegação brasileira retorna de sua turnê de relações públicas em Glasgow, seu Senado está apressando a votação de uma legislação que recompensaria e incentivaria a apropriação de terras, uma atividade criminosa responsável por pelo menos um terço de todo o desmatamento na Amazônia brasileira", alertou.