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Jamil Chade

Tutu: 'População de favela precisa de saúde. Não de armas apontadas'

O arcebispo Desmond Tutu, morto neste domingo e símbolo da luta anti-Apartheid  - AFP
O arcebispo Desmond Tutu, morto neste domingo e símbolo da luta anti-Apartheid Imagem: AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

26/12/2021 08h17

Uma das vozes mais poderosas da luta pelos direitos humanos na África, o premio Nobel da Paz Arcebispo Desmond Tutu passou a também a se envolver em debates internacionais nas últimas décadas de sua vida, inclusive diante da violência policial no Brasil.

Em entrevista ao colunista, ainda em 2008, Tutu deixou clara sua visão sobre a situação brasileira.

O arcebispo sul-africano, que morreu aos 90 anos neste domingo, adotou uma posição anti-apartheid nos anos 1970 e 1980, no auge do regime de segregação racial. Em 1984, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Em 1996 presidiu a Comissão de Reconciliação e Verdade, destinada a promover a integração racial na África do Sul após a extinção do apartheid.

Eis os principais trechos da entrevista:

Chade - A ONU recentemente atacou a forma pela qual o Brasil luta contra a criminalidade. Mas nesta semana, uma nova operação foi realizada em uma favela no Rio de Janeiro. Qual é a solução para a violência no Brasil?

Tutu - Antes de tudo, precisa haver um processo de humanização de novo dessas pessoas que vivem nesses locais e o reconhecimento de sua dignidade. No dia em que todos se considerarem como seres humanos iguais, a vida de cada um valerá bem mais. Nesse momento, matar ficará cada vez mais difícil para cada um.

Chade - Mas, na prática, o que precisa mudar?

Tutu - Muita coisa precisa mudar. As diferenças sociais precisam ser reduzidas. Essa é a única forma. Para começar, a população mais pobre precisa deixar de ser abandonada pelas autoridades. A violência hoje em várias partes do mundo é resultado desse abandono de milhões de pessoas. A guerra contra o terrorismo, por exemplo, jamais será vencida se os jovens de países pobres não forem oferecidos uma nova perspectiva. O Iraque não deveria ter sido bombardeado. Mas reconstruído e com investimentos.

O mesmo ocorre em países como Brasil ou África do Sul. Nas favelas brasileiras, o abandono é o pior inimigo à estabilidade. O abandono é o que gera a frustração tão grande dessas populações. Na África do Sul, a mesma violência explodiu depois da democracia, pois uma parcela da população se sentiu largada.

Chade - Qual é a solução para essa frustração?

Tutu - Os índices de mortes no Brasil são gigantescos. Um país só pode de fato crescer se esse crescimento atingir a todos. E isso precisa acontecer no Brasil. Onde é que está o Estado nessas horas. Essa população das favelas precisa de água, saúde, educação. Não de armas apontadas contra eles. O Brasil nunca conseguirá resolver a violência nas favelas com mais violência. Favelas inteiras estão sendo abandonadas pelo Estado. Isso é o que precisa mudar. Não a invasão de exércitos.

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Anos depois, em plena Copa do Mundo da África do Sul, voltei a encontrar o arcebispo, naquele momento radiante pelo evento que ocorria em seu país. Sua avaliação, porém, não deixava de ser lúcida sobre o papel de um mega-evento esportivo.

Chade - O sr. dançou na arquibancada quando a África do Sul abriu o placar no jogo inaugural da Copa, na sexta-feira. O que o sr. sente ao ver o Mundial em seu país?

Tutu - Essa Copa é uma das mais importantes da história do futebol. Não pelo futebol. Mas pelo fato de estar ocorrendo em um país que precisa de desenvolvimento e um continente que precisa de confiança.

Chade - O que fica dessa Copa para o povo africano?

Tutu - Acima de tudo, uma nova imagem para o mundo. Mostramos ao mundo uma nova África. Essa Copa provou ao mundo que a África é capaz de fazer as coisas por si só. Que não precisa pedir esmolas. A África está levantando sua cabeça nesse evento e provando que não somos cidadãos de segunda classe.

Chade - Mas há críticas duras em relação aos gastos do governo com o evento. Como o sr. avalia isso?

Tutu - A Copa não muda a vida na prática. É verdade que ela une um país e é isso que vimos quando a seleção nacional da África do Sul jogou. Tínhamos brancos torcendo para um esporte de negros. Eu disse desde o início que apenas apoiaria uma Copa se ela não envolvesse corrupção. Numa copa em um país em desenvolvimento, não importa quem é campeão. O que importa é a população sair vencedora. Os reais campeões de um torneio como esse precisa ser a população.

Chade - O sr. não ficou triste pelo fraco desempenho da África do Sul?

Tutu - Fraco? Ganhamos da França (risos). Fizemos o que foi possível. Eu, de minha parte, também fiz. Rezei bastante (risos).