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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Fim da emergência no Brasil contraria consenso na OMS e estratégia dos EUA

Logo da OMS em Genebra - Denis Balibouse/Reuters
Logo da OMS em Genebra Imagem: Denis Balibouse/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/04/2022 04h00Atualizada em 18/04/2022 14h47

A decisão do governo brasileiro de decretar o fim da emergência nacional da covid-19 ocorre dias depois de uma reunião na qual os principais cientistas do mundo declararam, de forma unânime, que a pandemia ainda é uma realidade e que não é o momento de falar ainda do fim da emergência internacional. Ela ainda contraria a estratégia do presidente Joe Biden, nos Estados Unidos, que acaba de ampliar por mais três meses medidas de controle e uso da máscara.

Para o Comitê de Emergência da OMS (Organização Mundial da Saúde), a covid-19 ainda é "um evento extraordinário que continua a afetar negativamente a saúde das populações em todo o mundo, representa um risco contínuo de propagação internacional e interferência no tráfego internacional, e requer uma resposta internacional coordenada".

A decisão significa que, pelo menos pelos próximos três meses, não haverá uma alteração na posição da OMS e que a emergência internacional continua. Liderando mais de 30 especialistas, o presidente do comitê, Didier Houssin, admitiu durante o encontro que está "preocupado com o crescente cansaço entre as comunidades em todo o mundo em resposta à pandemia e os desafios colocados pela falta de confiança na orientação científica e nos governos".

Ontem, o ministro brasileiro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou o fim da situação de emergência sanitária nacional devido à pandemia da covid-19. Ele afirmou que vai editar nos próximos dias um ato normativo para encerrar a Espin (Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional). No entanto, ressaltou que a medida não significa o fim da doença.

Fontes na OMS revelaram à coluna que a imprevisibilidade do vírus é o principal motivo da cautela da agência. "Ainda não se tem clareza sobre a evolução do vírus", explicou uma fonte do alto escalão da agência.

A OMS respeita a soberania dos governos, mas, menos de uma semana antes da decisão do Brasil, o comitê da OMS reconheceu que o "SARS-CoV-2 continua a ter uma evolução viral imprevisível, que é agravada por sua ampla circulação e intensa transmissão em humanos, bem como a introdução generalizada de infecções em uma série de espécies animais com potencial para o estabelecimento de reservatórios animais".

"O SARS-COV-2 continua a causar altos níveis de morbidade e mortalidade, particularmente entre as populações humanas vulneráveis. Neste contexto, o comitê levantou preocupações de que o uso inadequado de antivirais pode levar ao surgimento de variantes resistentes a drogas", disse.

Os membros do comitê reconheceram a capacidade nacional, regional e global de responder ao contexto pandêmico, mas "observaram com preocupação" que alguns governos "relaxaram" as medidas de controle e "reduziram os testes, impactando assim a capacidade global de monitorar a evolução do vírus".

"O comitê também observou com preocupação a inconsistência dos requisitos globais da covid-19 para viagens internacionais e o impacto negativo que medidas inadequadas podem ter em todas as formas de viagens internacionais. Neste contexto, o comitê observou que oferecer vacinação a grupos de alto risco de viajantes internacionais na chegada poderia ser considerado um meio de mitigar o risco de doença grave ou morte devido à covid-19 entre esses indivíduos", defendeu.

Nesse contexto, o comitê enfatizou a importância de manter as medidas contra a covid para proteger as populações vulneráveis. "Os estados partes são aconselhados a ajustar regularmente suas estratégias de resposta, monitorando sua situação epidemiológica (inclusive através do uso de testes rápidos), avaliando sua capacidade do sistema de saúde", insistiu.

Na avaliação dos cientistas, os governos precisam se preparar para "futuros cenários com a assistência da OMS e continuarem a utilizar de forma robusta as ferramentas essenciais (por exemplo, vacinas, terapêutica e diagnósticos)".

Diante desse cenário, o comitê concordou que a pandemia de covid-19 continua sendo uma emergência global e aconselhou a OMS a manter tal status, o que foi seguida pela agência.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, acolheu a sugestão e emitiu uma nova série de recomendações aos governos.

Numa delas, a agência pede que às autoridades "reforçar a resposta nacional à pandemia da covid-19, atualizando os planos nacionais de preparação e resposta, de acordo com as prioridades e cenários potenciais delineados no Plano Estratégico de Preparação e Resposta (SPRP) da OMS de 2022".

Biden amplia emergência em mais três meses

A decisão do governo de Jair Bolsonaro sobre a pandemia também contraria a direção que os Estados Unidos tomaram em relação à doença. Os dois países lideram em número de mortes pela covid-19.

Na quarta-feira passada, o governo americano decidiu ampliar por mais três meses a emergência sanitária, permitindo assim que os cidadãos possam continuar sendo testados e recebendo tratamento de forma gratuita.

Nos EUA, a emergência de saúde pública foi inicialmente declarada em janeiro de 2020. Desde então, ela é renovada a cada trimestre.

O governo tem pago por testes, vacinas e certos tratamentos. A Casa Branca ainda exigiu que os seguros cubram o custo total dos testes e vacinas, usando um financiamento de emergência de saúde pública.

Mas quando a emergência de saúde pública expirar, os planos terão de arcar sozinhos com certos custos. O temor é de que milhões de pessoas possam perder o acesso a certos serviços.