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Jamil Chade

Receita da exportação russa ao Brasil dobra desde o início da guerra

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

17/05/2022 04h00Atualizada em 17/05/2022 09h11

A receita do fluxo de exportações da Rússia ao Brasil registrou uma forte expansão desde o início da guerra na Ucrânia, e reflete tanto um aumento nos preços dos bens comprados pelo mercado brasileiro como um movimento para antecipar importações de fertilizantes para garantir o abastecimento do mercado nacional.

Sob forte embargo e sanções, a Rússia passou a ver seu comércio interrompido para alguns dos principais mercados ocidentais. Mas as explosões nos preços das commodities e de energia permitiram que a receita das vendas russas aumentasse de maneira exponencial.

Na zona do euro, as vendas dos russos entre janeiro e março de 2021 totalizaram 31 bilhões de euros. No mesmo período de 2022, as exportações russas atingiram 63 bilhões de euros, um aumento mais de 104%.

No caso do Brasil, os dados oficiais do governo brasileiro indicam um movimento similar, mesmo que a energia não seja o centro da importação. Segundo dados oficiais do Ministério da Economia, o Brasil importou em fevereiro US$ 485 milhões da Rússia. No mês seguinte, o valor já subiu para US$ 565 milhões. Mas, em abril, o salto foi ainda maior, com um fluxo de US$ 804 milhões e o maior volume no comércio bilateral em pelo menos seis anos.

Os fertilizantes russos representam mais de 20% do abastecimento nacional do produto e, para áreas como a soja, a importação de Moscou é considerada como estratégica.

Fontes diplomáticas em Brasília explicaram que houve um entendimento, inclusive com o governo americano, que fertilizantes não entrariam na lista dos produtos sob embargo. Mas as dificuldades para importar são importantes. Bancos se recusam a dar créditos para as operações ou elevam preços, enquanto alguns dos principais portos usados nos países do Mar Báltico já não permitem carregamentos russos. O resultado é uma transação mais cara.

Brasil não aplica sanções, mas comércio desaba

Mas se o Brasil paga mais hoje por produtos russos, as vendas nacionais para o mercado russos desabaram desde o início da guerra. Em fevereiro, o Brasil exportou US$ 250 milhões em produtos para a Rússia, em sua grande maioria do setor agrícola. O volume caiu para US$ 172 milhões em março e, em abril, a taxa foi de apenas US$ 91 milhões, um dos piores meses em seis anos.

Um dos principais problemas é a inexistência de empresas brasileiras que fazem o transporte marítimo. Os produtos nacionais, portanto, ficam dependentes de companhias internacionais que não querem ser atingidas por sanções.

No momento que as medidas contra a Rússia foram adotadas, apenas uma dessas empresas carregava 800 containers de produtos agrícolas brasileiros para Moscou, avaliados em US$ 60 milhões. Mas foi deixando esses bens em diferentes portos pelo mundo para evitar entregar no mercado russo.

João Santos Lima, da SL Trading e especializada no comércio de frutas para a Rússia, apontou que, hoje, é praticamente impossível realizar o abastecimento dos produtos nacionais. "O Brasil não adota as sanções. Mas, ao não ter empresas marítimas próprias, também sofre", disse. "Não tem sanção, mas tampouco há comércio em vários dos setores", explicou.

No caso do amendoim ou da carne, o frete cobrado para garantir o abastecimento na Rússia inviabilizou a exportação. Para ele, se o fluxo de exportação caiu entre fevereiro e abril, o tombo promete ser ainda maior nos próximos meses, se a guerra continuar.

Em diferentes órgãos internacionais, não por acaso, o Brasil vem insistindo em apontar que sanções que afetam a agricultura poderão ter um impacto global e reabrir o debate sobre a fome no mundo. Na OMC, por exemplo, o Itamaraty fez uma proposta para a criação de corredores de alimentos e de fertilizantes.