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Jamil Chade

EUA vetam tentativa do Brasil de condenar sanções contra Rússia

12.mai.2022 - Ataque causou destruição em Novhorod-Siversky, no norte da Ucrânia - Reprodução/Facebook/StratcomCentreUA
12.mai.2022 - Ataque causou destruição em Novhorod-Siversky, no norte da Ucrânia Imagem: Reprodução/Facebook/StratcomCentreUA
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/05/2022 04h00

O governo americano de Joe Biden se recusou a aceitar uma proposta do governo brasileiro para modificar uma resolução na ONU (Organização das Nações Unidas) que apontaria para o impacto negativo das sanções contra a Rússia para o abastecimento de alimentos no mundo. O incidente se soma a uma série de desencontros entre os dois países.

Nesta semana, o Conselho de Direitos Humanos da ONU se reuniu em caráter de emergência para examinar a crise ucraniana. A resolução que acabou sendo aprovada, inclusive com o voto do Brasil, dá um mandato para a comissão de inquérito investigar atrocidades registradas nas periferias de Kiev e de outras cidades ucranianas.

Mas, alvo de intensa negociação, o texto também tratou do impacto do conflito para o abastecimento de alimentos do mundo. O problema, segundo o governo brasileiro, é que a abordagem dada pelos autores europeus da proposta citava apenas uma parcela do problema: a interrupção da produção e exportação agrícola da Ucrânia por conta da operação militar. Nenhuma referência era feita ao embargo imposto por potências ocidentais contra bancos e o comércio russo.

O texto indicava que insegurança alimentar mundial ocorria "à luz dos impedimentos às exportações agrícolas da Ucrânia como resultado do bloqueio de seus portos marítimos e da destruição da infraestrutura crítica relevante, bem como do roubo de grãos dos territórios da Ucrânia sob controle das forças armadas russas nas regiões de Kherson e Zaporizhzhia".

Para o Brasil, porém, o rascunho da resolução estaria desequilibrado e enviesado se tratasse do problema de abastecimento apenas pelo ponto de vista da guerra. Para o Itamaraty, as sanções do Ocidente contra a Rússia afetam o abastecimento de alimentos e de fertilizantes de uma maneira tão profunda quanto a incapacidade de exportação de grãos ucranianos.

O governo americano, porém, se recusou a aceitar um texto que tratasse tanto da guerra como das sanções. O Brasil ainda chegou a propor que a frase inteira fosse eliminada, o que tampouco foi aceito pelos autores da proposta. No final, o texto original foi mantido.

Ao votar, a delegação brasileira pediu a palavra e, publicamente, "lamentou" o fato de que suas sugestões não foram incorporadas.

Para diplomatas, a falta de entendimento entre Brasil e EUA e a decisão do Itamaraty de se queixar em público nesta semana que não foi atendido foram elementos que revelaram como os dois grandes países das Américas hoje sofrem para encontrar pontos de convergência, principalmente na questão da guerra.

A coluna apurou que, a cada voto sobre a Rússia nos organismos internacionais, o governo brasileiro tem sido alvo de intensa pressão por parte de americanos e europeus para adotar uma postura mais próxima ao bloco ocidental.

Mas o Itamaraty está comprometido em evitar um "cancelamento diplomático" da Rússia e mantém um certo nível de diálogo com Moscou. Tanto por interesse próprio para assegurar um abastecimento de fertilizantes, como para um posicionamento mais construtivo para salvar o sistema da ONU.

De fato, o cancelamento de Moscou do sistema internacional do comércio teria um peso elevado para alguns países. Enquanto a Rússia e a Ucrânia representam uma parte relativamente pequena do comércio mundial e da produção, em uma nota técnica publicada em abril, a OMC indicou que os dois países são "importantes fornecedores de produtos essenciais, notadamente alimentos e energia". [...] Ambos os países forneceram cerca de 25% do trigo, 15% da cevada e 45% das exportações de produtos de girassol em 2019".

A redução dos embarques de grãos e outros alimentos aumentará os preços globais dos produtos agrícolas, uma situação que terá consequências negativas para a segurança alimentar nas regiões mais pobres. De acordo com a OMC (Organização Mundial do Comércio), a África e o Oriente Médio são as regiões mais vulneráveis, pois importam mais de 50% de suas necessidades de cereais da Ucrânia e da Rússia. No total, 35 países na África importam alimentos e 22 importam fertilizantes da Ucrânia, da Rússia ou de ambos.

Alguns países da África Subsaariana estão enfrentando a possibilidade de aumentos de preços de 50% a 85% para o trigo, como resultado do impacto da guerra nos embarques de grãos da região. "A crise atual pode exacerbar a insegurança alimentar internacional em um momento em que os preços dos alimentos já estão historicamente altos devido à pandemia da COVID-19 e outros fatores", o secretariado da OMC adverte.